O fim da 'taxa das blusinhas' e a pororoca que perdeu força no Pará
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🔸A União Europeia deixou o Brasil de fora da lista de países que cumprem suas regras contra o uso excessivo de antibióticos na pecuária. O The AgriBiz explica que a medida coloca em risco mais de US$ 1,8 bilhão em exportações de carne bovina e de frango do país. A UE proíbe o uso de antibióticos como promotores de crescimento e afirma que o Brasil não demonstrou ter um sistema capaz de garantir o cumprimento das exigências sanitárias. O governo brasileiro tenta negociar e agendou reunião com autoridades europeias. Se não conseguir reverter o quadro, os exportadores brasileiros ficam proibidos de vender carnes e outros produtos de origem animal para a UE a partir de 3 de setembro. A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) e a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) afirmam que as exportações seguem normalmente e que o país cumpre as regras do bloco.
🔸 O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion (Republicanos-PR), classificou como “protecionista” a decisão da União Europeia. Segundo o Congresso em Foco, ele afirma que a proibição não decorre de questões sanitárias: “É mais uma vez uma ação dos europeus, protecionista para o seu público interno, para criar um problema no comércio internacional e, principalmente, tentar barrar um pouco da competitividade dos produtos brasileiros lá na União Europeia”. Lupion diz ainda que a inspeção europeia prevista para avaliar os protocolos brasileiros só ocorreria no segundo semestre de 2026.
🔸 O presidente Lula (PT) assinou ontem uma medida provisória que zera a “taxa das blusinhas”, como ficou conhecido o imposto federal sobre compras internacionais de até US$ 50. “Depois de três anos em que nós conseguimos praticamente eliminar, conseguimos combater o contrabando e regularizar o setor, nós podemos dar um passo adiante”, disse Lula. O Metrópoles destaca que o governo passou a discutir a retirada da taxa após o desgaste político causado pela medida. Pesquisa da AtlasIntel apontou que 62% dos brasileiros consideravam a cobrança um erro do governo. O tema também dividia integrantes da gestão Lula: enquanto o ministro da Fazenda, Dario Durigan, e o vice-presidente Geraldo Alckmin defendiam a manutenção da taxação, Lula já havia chamado a medida de “desnecessária”.
🔸 Há indícios de lavagem de dinheiro em operações imobiliárias ligadas ao empresário e ex-pastor Fabiano Zettel, preso desde março no âmbito das investigações do Banco Master. Levantamento da Alma Preta, em parceria com o ICL Notícias, identificou 23 imóveis adquiridos por Zettel ou empresas ligadas a ele entre 2009 e 2025, somando R$ 249 milhões em valores declarados. Parte das transações ocorreu por meio da Super Empreendimentos e Participações S/A, empresa da qual Zettel foi sócio até julho de 2024. As compras chamam atenção pela diferença entre os valores pagos e os preços venais dos imóveis, além da rápida valorização entre compra e revenda. Um dos casos citados envolve um apartamento no Itaim Bibi, em São Paulo, comprado em 2024 por R$ 43 milhões, apesar de ter valor venal de R$ 6,9 milhões.
🔸Depois que um ato de estudantes da Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) terminou com ação truculenta da Polícia Militar, o deputado estadual Guto Zacarias (MISSÃO-SP), ligado ao MBL, protocolou na Alesp um projeto de lei que prevê punições a estudantes, professores e servidores envolvidos em greves e ocupações nas universidades públicas paulistas. As três universidades estão em greve por melhorias em permanência estudantil, infraestrutura e alimentação, além de reivindicações como aumento da bolsa permanência, cotas para pessoas trans e PcDs e criação de vestibular indígena. A CartaCapital lembra que a proposta de Zacarias ataca o direito de manifestação estudantil e sindical dentro de universidades públicas e especialistas já apontam indícios de inconstitucionalidade no projeto.
📮 Outras histórias
“Antes eu tomava café um pouco mais tranquila porque sabia a hora que o ônibus ia passar, hoje eu evito, coloco na bolsa pra quando chegar no trabalho comer alguma coisa.” Lorena Torres, 27 anos, precisou mudar a rotina por causa da mudança na linha de ônibus que usa para ir ao trabalho. Antes, fazia o trajeto com dois ônibus; agora, precisa pegar três coletivos e enfrentar filas em dois terminais. A Marco Zero mostra como mudanças em linhas de ônibus na Região Metropolitana de Recife têm alterado o cotidiano de moradores da periferia, que agora enfrentam viagens mais longas, mais baldeações e ônibus lotados para chegar ao trabalho ou à universidade. Representantes do grupo Escambo Coletivo, que atua há 16 anos em defesa da cultura para jovens do bairro Paratibe, afirmam que o transporte público tem sido tratado sem diálogo com a população periférica, apesar de impactar seu direito à cidade.
📌 Investigação
Feijão-fradinho da marca Dona Dê foi reprovado por excesso de agrotóxicos em níveis até 355 vezes acima do limite permitido, mas ficou mais de um ano sem ordem de recolhimento do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), período o em que pode ter sido comercializado e consumido. A Repórter Brasil teve acesso a autos de infração, laudos laboratoriais e decisões administrativas da pasta que revelam reincidência da empresa da NJF Indústria e Comércio, empresa que beneficia e empacota os grãos de feijão das marcas Dona Dê, Kicaldo, Da Casa e Tia Dora. Entre 2020 e 2025, a empresa foi autuada em ao menos sete estados por situações semelhantes: comercialização de feijão com resíduos acima do limite permitido dos agrotóxicos glifosato, glufosinato ou tiametoxam, ou com substâncias não autorizadas para a lavoura, como pirimifós metílico. A reportagem mostra que as autuações da NJF indicam, no entanto, que a fiscalização não tem impedido que o produto irregular chegue ao consumidor.
🍂 Meio ambiente
Símbolo cultural e esportivo de São Domingos do Capim, no nordeste do Pará, a pororoca no rio Capim já não é mais a mesma. Fenômeno natural provocado pelo encontro entre o Oceano Atlântico e a corrente dos rios, o choque das águas forma uma grande onda que avança no sentido contrário da correnteza, atraindo surfistas e entusiastas. Segundo o Amazônia Vox, a diminuição da intensidade da pororoca levanta o debate sobre impactos ambientais na região. “Eu já cheguei a ver uma pororoca com 4 metros de altura aqui. Hoje o que a gente vê é só uma onda pequena”, relata o ribeirinho Pedro Baars. O pesquisador Adriel Guimarães Carneiro explica as condições necessárias para o fenômeno: “Depende de uma série de fatores que precisam convergir, como marés muito altas e um ambiente geometricamente confinado. Além disso, elementos como sedimentação e erosão também influenciam diretamente o comportamento da onda, podendo tanto intensificá-la quanto enfraquecê-la ao longo do tempo”.
📙 Cultura
“Em um levantamento feito ao longo de todo o século 20, não encontrei uma só protagonista de romance brasileiro que seja faxineira, babá, cozinheira, lavadeira, cuidadora de idoso, passadeira, ou tudo isso junto, no que se convencionou chamar de ‘empregada doméstica’”, afirma a jornalista Mariana Filgueiras, que lançou recentemente o livro “Quirinas: A Trabalhadora Doméstica Como Protagonista na Literatura Brasileira”, fruto de sua pesquisa de doutorado. Em artigo no Le Monde Diplomatique Brasil, a autora analisa a falta de representação e representatividade das trabalhadoras domésticas em obras literárias nacionais. “Em 2018, surgiram as primeiras protagonistas em contos e romances, em livros como ‘Perifobia’, de Lilia Guerra, ‘Zona de Desconforto’, de Lindevânia Martins, ou ‘Com Armas Sonolentas’, de Carola Saavedra. Algum nó foi desatado, e é fundamental ler, discutir e reconhecer este movimento para que não seja apenas uma febre literária, mas um reflexo de mudança estrutural da sociedade.”
🎧 Podcast
Realizado no dia 1º de abril em São Paulo, o bloco-manifestação Cordão da Mentira homenageia as vítimas da violência do Estado. No ano passado, uma das participantes era Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Independente Mães de Maio. Ela perdeu seu filho durante os Crimes de Maio de 2006, como ficaram conhecidos os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC). O primeiro episódio de “Crimes de Maio: o massacre que o Brasil ignora”, produção da Ponte em parceira com o Brasil de Fato, reconstrói os dias de medo em São Paulo e mostra como centenas de mortes de civis foram apagadas da memória. A narrativa difundida sobre o acontecimento oculta que mais de 500 pessoas foram mortas em uma onda de vingança promovida por policiais e grupos de extermínio contra pessoas consideradas suspeitas ou criminosas, mesmo que não tivessem envolvimento com o PCC.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Sem direito à licença-maternidade, trabalhadoras informais, autônomas e microempreendedoras, sobretudo das periferias, se veem obrigadas a voltar ao trabalho antes dos primeiros seis meses de vida de seus filhos. Segundo a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, a rede municipal tem 20.258 bebês entre 0 e 4 meses matriculados em centros de educação infantil (CEIs) ou unidades conveniadas. Até os 3 meses, são 12.359 bebês. “Me vi com um bebê de dois meses no colo e nenhuma fonte de renda. Era a única opção possível”, afirma Vitória Viana, moradora do Capão Redondo, na zona sul da capital paulista. Ela estava sem trabalho e precisou voltar à rotina quando seu filho Leonel tinha poucas semanas de vida. A Periferia em Movimento destaca como mães periféricas não conseguem exercer o direito à licença-maternidade e como o retorno antecipado ao trabalho interfere diretamente na construção do vínculo e na amamentação – dois pilares fundamentais nos primeiros meses de vida.




