A filiação falsa de Flávio ao Missão e as águas poluídas em terras indígenas
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
🔸Uma filiação partidária fraudulenta quase tirou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) da corrida presidencial de 2026. O parlamentar teve seu registro de candidatura temporariamente bloqueado após ser filiado, na calada da noite e à revelia, ao partido Missão – sigla de um de seus oponentes, Renan Santos. O preenchimento da ficha no site da legenda registrou como residência do candidato o fictício número "666" da "Rua dos Bandidos", no “Bairro Miliciano”. O Metrópoles informa que o Missão abriu uma investigação interna e alega ter alertado o gabinete do senador semanas antes sobre tentativas de filiação, sem obter resposta. O caso escalou rapidamente ontem, após Flávio não conseguir registrar sua candidatura à Presidência no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Jota explica que o presidente da Corte, o ministro Nunes Marques, determinou o restabelecimento imediato da filiação de Flávio ao Partido Liberal e acionou a Polícia Federal para investigar o uso indevido das credenciais que viabilizaram a fraude.
🔸 Partido fundado por membros do Movimento Brasil Livre (MBL), o Missão reproduz a estratégia de distribuição de cortes de vídeos da campanha de Pablo Marçal (União Brasil) nas eleições municipais de 2024. Lideranças como Renan Santos e Kim Kataguiri têm incentivado jovens a produzir e espalhar massivamente vídeos curtos de campanha sob a promessa de ganhos financeiros rápidos. Para contornar as restrições da lei eleitoral, o grupo terceiriza o pagamento, estimulando a monetização direta paga pelas redes sociais. O Intercept Brasil mergulha na “Fábrica de Cortes da Missão”, operada no Discord, mobiliza quase 2 mil membros em uma linha de montagem de propaganda política. A lei eleitoral proíbe vantagens econômicas em troca de engajamento. Especialistas em direito alertam que a criação dessa rede estruturada remunerada apresenta riscos reais de inelegibilidade para os candidatos.
🔸 A violência no campo contra indígenas voltou a aumentar em 2025. Foram 258 assassinatos, segundo os dados do relatório “Violência contra os Povos Indígenas no Brasil – 2025”, lançado ontem pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Entre os casos registrados está o de Vitor Braz, Pataxó morto por pistoleiros no sul da Bahia. A Agência Pública reúne as principais informações do documento, que chama a atenção para o aumento de 22% em relação ao ano anterior, superando a média do governo Bolsonaro. Para o Cimi, o impasse da tese do marco temporal no STF e as investidas do Congresso contra os direitos indígenas alimentam essa escalada de violência. Além do assassinato de Vitor Braz, o relatório destaca os tiros contra quatro indígenas Avá-Guarani no Paraná e a morte de Vicente Fernandes, dos Guarani Kaiowá, durante um ataque a uma retomada no Mato Grosso do Sul. “Os três casos, exemplos trágicos de situações registradas ao longo de todo o ano em diversas regiões do Brasil, ocorreram em Terras Indígenas já oficialmente delimitadas pelo Estado, mas cujos processos demarcatórios se estendem há mais de uma década. Uma longa espera prolongada, em 2025, por atos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário”, diz o documento.
🔸 O deputado federal Hélio Lopes (PL-RJ), cuja principal bandeira é a legalização do garimpo em terras indígenas, vai disputar o Senado por Roraima sem nunca ter morado no estado. Com a alcunha de “Hélio Bolsonaro”, nome que pretende usar nas urnas mesmo sem parentesco com o ex-presidente, o parlamentar acumula projetos para liberar áreas protegidas para exploração de minérios. A Repórter Brasil revela que Lopes protocolou, em 12 de agosto, um novo projeto de lei para autorizar parcerias entre cooperativas de garimpeiros e indígenas. A mudança no domicílio eleitoral ocorreu em março, e ele justificou a decisão por ter vivido e servido em diferentes cidades e unidades militares da Amazônia quando era subtenente do Exército, mas não detalhou locais, nem vínculos.
📮 Outras histórias
Um kimono de jiu-jítsu que já cumpriu seu papel nas lutas ganha agora uma segunda chance nas passarelas e no cotidiano. O projeto Rocinha UP une sustentabilidade e inclusão produtiva ao transformar kimonos antigos, restos de tatames e resíduos têxteis em moda sustentável para gerar impacto social positivo na favela da zona sul do Rio de Janeiro. Toda a produção é realizada por costureiras, modelistas, pilotistas e designers da própria comunidade, com objetivo de promover a economia criativa local. O Voz das Comunidades conta que a iniciativa arrecada os materiais em academias e reverte o reaproveitamento em mochilas, pochetes, ecobags e cases de notebook. Paula Maia, idealizadora do projeto, ressalta que ele “gera oportunidades de trabalho, fortalece a economia criativa e prova que a Rocinha também é capaz de desenvolver soluções inovadoras para os desafios ambientais”.
📌 Investigação
“Hoje, as nossas crianças já não têm mais a liberdade de tomar a água do rio. A cor do rio é branca, os peixes estão doentes. A água desce com as sujeiras e chega até nós. Isso deixa muitas aldeias sem ter o que beber”, afirma Ediene Kirixi, liderança do povo Munduruku. Levantamento exclusivo da InfoAmazonia revela que quase 40% dos indígenas em territórios da Amazônia Legal vivem sem acesso adequado à água potável e dependem de fontes poluídas. A devastação gerada pelo garimpo e pelo desmatamento degradou severamente os rios e igarapés tradicionais. O problema é crônico também no esgotamento sanitário e na coleta de lixo, expondo as comunidades a riscos de saúde. A análise mostra que 27% da população depende principalmente de rios, lagos e igarapés para obter água – muitos deles contaminados –, apenas 4,7% dos indígenas contam com esgotamento sanitário adequado, e 6,9% têm destinação adequada do lixo.
🍂 Meio ambiente
Mais de 60 mil partículas de microplástico. É o que um adulto pode está inalando todos os dias em ambientes internos, estima um estudo da Universidade de Toulouse, na França. Esse número é cem vezes maior do que os cientistas previam e é resultado de uma pesquisa sobre a poluição invisível que atinge do Monte Everest ao corpo humano, com detecções de polímeros no cérebro, no sangue e no leite materno. O Terra detalha os impactos à saúde dessas substâncias, já associadas a riscos de males neurodegenerativos como Alzheimer e Parkinson. Professora da Universidade de São Paulo, a patologista Thais Mauad, critica o lobby das petroleiras e alerta que plásticos rotulados como biodegradáveis podem ser um engodo: “Muitas vezes, o que chamam de plástico biodegradável é apenas o plástico convencional com aditivos que o fazem fragmentar-se mais rápido, acelerando a criação de microplásticos. A única solução realmente eficiente é parar de usar o plástico que não seja essencial”.
📙 Cultura
“Isso aqui parece um túmulo!”, diz o pescador Genilton Santos ao apontar para o banco e a mesa de concreto que resistem em sua antiga casa, hoje tomada pelo mar em Atafona, distrito de São João da Barra (RJ). A frase resume o sentimento de perda: o avanço das águas destruiu mais de 500 residências desde a década de 1950, e os eventos extremos têm se intensificado pelas mudanças climáticas. Para enfrentar o apagamento do território, moradores e artistas locais criam formas de resistência pela memória e pela arte ambiental. O Nonada registra o papel de iniciativas como a CasaDuna e o Grupo Erosão de Performance, que usam ruínas e dunas como matéria-prima de intervenções cênicas, audiovisuais e de museologia social. Fernando Codeço, diretor do Grupo Erosão, destaca que o projeto busca confrontar a espetacularização midiática que “invisibiliza as questões por trás do processo”. Para o artista, “a construção de uma imagem catastrófica e apocalíptica de Atafona apaga as pautas socioambientais e, sobretudo, as pessoas que vivem nesse território”.
🎧 Podcast
A inteligência artificial onipresente no mundo corporativo está longe de entregar os resultados fantásticos prometidos pelos grandes grupos de tecnologia. No “Segue o Fio”, produção do Núcleo Jornalismo, os jornalistas Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico analisam as razões da atual obsessão do mercado por ferramentas que, na prática, muitas vezes resultam em projetos fracassados. Essa corrida ignora a produtividade real em prol de investimentos massivos e desproporcionais promovidos por figuras como Mark Zuckerberg. O debate aborda também os manifestos corporativos e o fenômeno do tokenmaxxing – consumo exagerado de tokens de IA como métrica de produtividade. Como consequência, os desenvolvedores se sentem pressionados, e o resultado é, na verdade, adverso, com a redução da eficiência no trabalho.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Os brasileiros têm uma percepção ambígua sobre o comportamento dos compatriotas em viagens. Uma pesquisa global encomendada pela Hotels.com mostrou que 29% dos entrevistados colocam o Brasil como a segunda nacionalidade mais educada do mundo, atrás apenas dos japoneses, ao mesmo tempo que 26% também apontam os brasileiros entre os hóspedes mais rudes, empatados com os norte-americanos no topo da lista. A Catraca Livre detalha o levantamento e ressalta que os comportamentos inadequados em ambientes compartilhados incluem ser descortês com funcionários, bater as portas dos quartos, fazer barulho nos corredores em horários de descanso e furar a fila do café da manhã.



