🔸 Em mais um capítulo da crise sem precedentes no Supremo Tribunal Federal, o ministro Gilmar Mendes pediu à Polícia Federal uma cópia integral dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. A solicitação do decano da Corte foi feita na noite de ontem em ofício ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, informa o Metrópoles, reiterando pedido anterior do ministro Cristiano Zanin. Os dados correspondem à mídia analisada no laudo feito pela corporação em São Paulo e serviram de fonte para as conversas reproduzidas no relatório sobre a possível relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes. Na tarde de ontem, a PF já havia informado ao presidente da Corte, Edson Fachin, que dispõe de plenas condições técnicas para produzir e encaminhar imediatamente cópia idêntica da extração aos ministros que a solicitaram. A corporação esclareceu que os dados entregues ao gabinete de André Mendonça, em março, eram uma cópia, e não os arquivos originais. O aparelho de Vorcaro, um iPhone 17 Pro, foi apreendido na primeira fase da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, e periciado no dia seguinte. Os ministros querem examinar o conteúdo antes da sessão convocada por Fachin para amanhã, quando o plenário deve analisar o relatório da PF sobre as conversas entre Vorcaro e Moraes.
🔸 Fachin, por sua vez, retirou de André Mendonça a relatoria do procedimento sobre as supostas relações entre o ex-banqueiro e Moraes. Segundo a CartaCapital, no sábado, o presidente do Supremo assumiu a condução do caso e determinou que todos os processos relacionados ao Banco Master e às fraudes no INSS fossem enviados à presidência da Corte. Na prática, as investigações ficam suspensas até uma nova decisão. O ministro ainda não informou se também assumirá a relatoria delas. Ministros alinhados a Moraes consideram irregular a atuação de Mendonça, que teria permitido a apuração sobre um integrante do STF sem autorização prévia do plenário.
🔸 O ministro Flávio Dino derrubou ontem o sigilo da investigação sobre o uso de emendas parlamentares no financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro. Dino também determinou que a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo entregue à Polícia Federal todo o material bruto extraído de celulares e computadores apreendidos. O Jota explica que a investigação, antes conduzida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, apura contratos da Prefeitura de São Paulo, administrada por Ricardo Nunes (MDB), com organizações não governamentais geridas pela produtora do filme. Dino levou o caso ao Supremo depois que a PF apontou uma conexão entre essa apuração e a investigação sobre as emendas destinadas à produção: os indícios sugerem a existência de um mesmo circuito de captação, movimentação e ocultação de recursos públicos, que teria como figura central o deputado Mário Frias (PL-SP).
🔸 A PF suspeita que o ministro Dias Toffoli seja o beneficiário final ou proprietário de fato do fundo Arleen, que recebeu ao menos R$ 35 milhões de Vorcaro. O fundo era sócio do resort Tayayá, pertencente a Toffoli e seus familiares, em Ribeirão Claro (PR). A revista piauí teve acesso a um relatório de 196 páginas da PF sobre as relações entre o ministro e Vorcaro, desdobra o conteúdo em três reportagens e revela ainda que o ex-banqueiro usava festas para estreitar relações e conquistar aliados estratégicos. Em outubro de 2023, Vorcaro promoveu um evento de Halloween no Madame Satã, em São Paulo, com cerca de 20 homens e 120 mulheres, metade estrangeiras – e “só menina nova”, como ressaltou Vorcaro. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações de Jair Bolsonaro, ficou encarregado de convidar os homens. Nas conversas, Faria disse que Davi Alcolumbre e Rodrigo Pacheco estavam confirmados e que havia convidado Toffoli; também foram mencionados Arthur Lira, Alexandre de Moraes, Ciro Nogueira e Wesley Batista.
🔸 Para entender: a crise no STF acumulou ao menos 30 atos em dez dias, com acusações entre ministros, vazamentos de mensagens e o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, que voltou ao cargo menos de 24 horas depois. O Aos Fatos montou uma linha do tempo que organiza os acontecimentos desde o estopim da crise, em 1º de setembro, quando Mendonça retirou o sigilo do relatório da PF sobre as supostas conversas entre Vorcaro e Moraes. Nos dias seguintes, vieram a público um encontro de Mendonça com o ex-banqueiro e um depoimento prestado ao gabinete do relator sem a presença da PF. Moraes pediu que o colega fosse investigado. Depois de afirmar que agiria “no tempo devido e sem precipitação”, Fachin entrou em cena para tentar conter a crise.
📮 Outras histórias
As mulheres negras que mantêm o Boi do Seu Teodoro, em Sobradinho (DF), transformaram a preservação da tradição em uma atuação política pela permanência no território, pelo financiamento público e pelo direito de decidir os rumos da própria história. Formado por cerca de 15 famílias e 60 brincantes, o grupo ocupa uma área cedida temporariamente e reivindica a escritura definitiva do Centro de Tradições Populares, em negociação com a Companhia Imobiliária de Brasília, empresa pública com participação da União e do Distrito Federal. O Nós, Mulheres da Periferia mostra o protagonismo das mulheres que, antes, eram responsáveis pelas roupas, refeições, altares e manutenção do espaço, e passaram a escolher suas funções no cordão e a ocupar a cantoria, a percussão, a administração e os espaços de decisão.
📌 Investigação
Apesar do debate sobre o uso de câmeras corporais por policiais, o Brasil segue sem uma regulamentação federal, e o Congresso deu mais espaço a propostas que restringem o uso das imagens do que às que ampliam controle e transparência. Levantamento da Agência Pública revela que, entre mais de 2 mil proposições sobre segurança analisadas na Comissão de Segurança Pública da Câmara entre 2023 e 2026, apenas cinco projetos sobre câmeras corporais foram votados. Três tiveram tramitação mais rápida, entre eles dois que restringem o acesso às imagens; outros dois, voltados a regulamentar o uso das câmeras e facilitar investigações, foram rejeitados. Um dos projetos aprovados na comissão, do deputado Capitão Augusto (PL-SP), proíbe o uso de imagens de câmeras corporais como prova criminal contra os próprios policiais, mesmo em casos de possível abuso de autoridade. Já o projeto do deputado Pastor Henrique Vieira (PSOL-RJ) que previa o envio das gravações à polícia judiciária e ao Ministério Público em até 72 horas foi rejeitado.
🍂 Meio ambiente
Após duas semanas de negociações, a COP17 de Desertificação anunciou uma carteira de 1,3 bilhão de dólares para projetos de restauração de terras e resiliência à seca em 23 países de cinco continentes. Entre as iniciativas estão 1,2 bilhão de dólares destinados a 45 projetos de conservação de pastagens e um fundo que pretende mobilizar até 400 milhões para segurança hídrica, agricultura sustentável e soluções baseadas na natureza. A Eco Nordeste acompanhou a conferência em Ulaanbaatar, na Mongólia, e conta que o Brasil apresentou uma meta voluntária para combater a degradação de aproximadamente 3,67 milhões de quilômetros quadrados de terras até 2030. O plano prevê recuperar mais de 163 mil quilômetros quadrados com vegetação nativa e sistemas agroflorestais e evitar a degradação de outros 3,51 milhões por meio de manejo sustentável.
📙 Cultura
O Brasil perdeu cerca de 11 milhões de leitores em nove anos, mas as políticas para livros e leitura recebem pouca atenção na campanha presidencial de 2026. A proporção de pessoas que haviam lido ao menos um livro nos três meses anteriores à pesquisa Retratos da Leitura caiu de 56%, em 2015, para 47%, em 2024. A Quatro Cinco Um analisa os planos dos candidatos à Presidência com mais de 1% das intenções de voto – Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Renan Santos, Romeu Zema e Augusto Cury – em busca de propostas para reverter esse cenário. Lula (PT) promete ampliar o acervo do MEC Livros, que reúne 25 mil títulos, e aprimorar o Plano Nacional do Livro e Leitura, com distribuição de obras, fortalecimento de bibliotecas e capacitação de profissionais. Já nas 76 páginas do plano de governo de Flávio Bolsonaro (PL), o favorito a enfrentar Lula num provável segundo turno, as palavras “livros” e “leitura” não são citadas nenhuma vez.
🎧 Podcast
A frequência com que uma pessoa consome pornografia não basta para caracterizar um comportamento compulsivo. O que importa é a dificuldade de controlar o acesso e o prejuízo provocado na vida cotidiana, explica o psiquiatra Lucas Naufal Macedo, coordenador do Ambulatório de Impulso Sexual Excessivo do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP), ao “Ciência Suja”, produção da Rádio Guarda-Chuva. O episódio mostra que “vício em pornografia” não é um diagnóstico reconhecido – e o termo mais adequado é “uso problemático de pornografia”, compreendido no campo da compulsão sexual. Ainda assim, coaches, influenciadores, terapeutas alternativos e grupos religiosos transformaram o suposto vício em um mercado de cursos, protocolos de neuroplasticidade e retiros espirituais. Segundo a cientista social Carolina Bonomi, essa “economia da moralidade” combina discursos sobre masculinidade, alegações pseudocientíficas e promessas de cura.
✊🏾 Direitos humanos
“Defender a reforma psiquiátrica hoje exige mais do que reafirmar sua história. Exige recolocá-la no interior da crise mais ampla do SUS e, ao mesmo tempo, recuperar aquilo que constituiu sua força originária, a da articulação entre direito, política pública e clínica viva”, escrevem o psiquiatra Fernando Ramos, ex-diretor do Instituto Philippe Pinel, e o sanitarista José Gomes Temporão, pesquisador da Fiocruz e ex-ministro da Saúde, em artigo no Outras Palavras. Eles lembram que a reforma nasceu ligada à redemocratização e à Reforma Sanitária, deslocando a saúde mental da segregação para os direitos humanos, a cidadania e o cuidado territorial. Por isso, seus impasses atuais não podem ser separados do subfinanciamento do SUS, da fragmentação da rede, das desigualdades regionais e da fragilidade da atenção básica. “A atenção psicossocial depende de presença, memória institucional, confiança, acompanhamento longitudinal e responsabilidade compartilhada. Nada disso se sustenta quando o trabalho é permanentemente precarizado.”



