A estratégia de campanha de Flávio Bolsonaro e o adeus a Manoel Carlos
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🔸 O Conselho Europeu aprovou o acordo de livre comércio entre União Europeia e Mercosul, na sexta-feira. Negociado há 26 anos, o texto cria a maior zona de livre comércio do mundo e reúne países que representam cerca de 20% da economia global e 780 milhões de pessoas. O Nexo detalha o acordo, que prevê a redução ou eliminação de tarifas sobre cerca de 90% dos produtos comercializados entre os blocos. “É um acordo comercial no papel, mas também vai manter as relações no momento e vai abrir portas para maior interação no futuro”, afirma Gustavo Müller, pesquisador do Centro de Estudos da Governança Global da Universidade de Leuven (Bélgica). Ele destaca o contexto da assinatura do acordo: “A América Latina está numa posição muito frágil com relação à reafirmação dos EUA na região, com o que se passou na Venezuela, e a Europa também se vê num momento muito frágil com relação aos EUA”.
🔸 A propósito: os EUA construíram a narrativa do chamado “Cartel de los Soles” para justificar ações judiciais e militares contra a Venezuela, apesar de o cartel não existir como organização criminosa. A Agência Pública explica que o termo Cartel de los Soles começou a ser usado no início dos anos 1990 para designar generais que enriqueciam pedindo propina para a população. Mas o que era uma gíria em Caracas, ao longo dos mandatos de Donald Trump, foi transformado em uma suposta organização narco-terrorista. Segundo a advogada Gabriela Barros de Luca, a acusação não tem respaldo nas definições legais internacionais: “É como dizer que o governo de um Estado brasileiro é uma grande milícia, todo mundo tem envolvimento no tráfico”. Em tempo: a Agência Lupa reúne tudo o que já foi checado sobre o ataque dos EUA à Venezuela.
🔸 Aliás… dias depois dos ataques, Trump retirou os EUA de dezenas de instâncias multilaterais ligadas ao clima, à biodiversidade, aos direitos humanos e ao desenvolvimento sustentável. Segundo O Eco, a retirada atinge 35 organizações fora do sistema ONU e 31 entidades das Nações Unidas, incluindo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima. Segundo a Casa Branca, os acordos e fóruns foram considerados “contrários aos interesses dos Estados Unidos”, e o memorando de Trump ordena a interrupção imediata da participação e do financiamento, nos limites da legislação interna.
🔸 Com a chegada de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) estabeleceu sua estratégia para concorrer à Presidência da República: ele tenta repetir a estratégia usada por seu pai, Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2018 para ganhar força política e atrair o Centrão. O Metrópoles conta que Flávio tem se reunido com empresários e representantes do mercado financeiro e sinalizado que pretende anunciar, ainda durante a campanha, nomes para ministérios em um eventual governo, em especial para a área econômica – seguindo o modelo adotado pelo pai ao antecipar Paulo Guedes como ministro da Economia. A tática, vista como bem-sucedida em 2018 ao reduzir resistências do mercado a Bolsonaro, agora é considerada arriscada. Flávio chegou a mencionar o irmão Eduardo Bolsonaro como possível chanceler, gesto interpretado como precipitado nos bastidores.
📮 Outras histórias
Enelita Canuto Teles dos Santos, a dona Nelita, mulher negra, aprendeu a ler aos 70 anos. Sua filha, Luana Tolentino, transformou em livro sua trajetória, e escreveu “Mamãe Aprendeu a Ler”. Lançado em 2025, a obra é inspirada na decisão tardia da mãe de frequentar a escola pela primeira vez e descobrir o mundo da leitura. A Marco Zero narra a história de Luana e dona Nelita, que morreu meses depois da publicação do livro que conta sua história. “Ela mostrou o poder transformador da educação. A educação como um direito para todos. E como é grave quando esse direito é negado, né? Porque ela teve esse direito negado a vida toda. E quando ela pôde vivenciar, exercer esse direito em sua plenitude, como eu conto no livro, ela descobriu o mundo”, diz Luana, pesquisadora, escritora e doutora em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
📌 Investigação
Na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas, menos das metades das vias em favelas e comunidades têm largura suficiente para a circulação de ônibus e caminhões, o que compromete o transporte coletivo, a coleta de resíduos e o acesso de serviços de emergência. Fora dessas áreas, mais de 80% das vias permitem a circulação de veículos de grande porte. A Agência Tatu analisou os dados do Censo 2022 do IBGE e mostra como essas informações escancaram a desigualdade social nas cidades, da mobilidade à saúde. Professor e pesquisador do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), Fernando Rodrigues explica que essas desigualdades criam barreiras para a ascensão social. “O efeito da desigualdade é absolutamente brutal porque as dificuldades vão se avolumando e se acumulando a tal ponto que as pessoas não têm forças suficientes para enfrentar tantas dificuldades juntas e associadas.”
🍂 Meio ambiente
“Na maioria dos países do mundo, o agronegócio é negacionista em relação às mudanças climáticas. Por isso, vota em presidentes claramente negacionistas, como acontece nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina.” Carlos Nobre é referência mundial no estudo sobre o clima e integrou o primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), das Nações Unidas, em 1990. Em entrevista à Repórter Brasil, o cientista relaciona o aumento dos riscos ambientais à resistência de setores econômicos e analisa os resultados da COP30. O pesquisador critica o resultado da Conferência do Clima quanto à ausência de compromissos claros para o fim do uso de combustíveis fósseis. Ele também questiona a exploração de petróleo na Foz do Amazonas e defende o desmatamento zero como condição para evitar o colapso ambiental no Brasil.
📙 Cultura
Conhecido como Maneco, o escritor, diretor e produtor Manoel Carlos marcou a história da TV brasileira com novelas que representavam a sociedade carioca, sobretudo o bairro do Leblon, a exemplo de “Por Amor” (1997), “Laços de Família” (2000) e “Mulheres Apaixonadas” (2003). “Um dos maiores legados de Manoel Carlos é a criação das chamadas Helenas, protagonistas femininas que aparecem em várias de suas novelas”, escreve o escritor e roteirista Silvio Cerceau, em coluna no Na Telinha. “Clássico e contemporâneo foi um dos nomes mais emblemáticos da teledramaturgia brasileira e uma referência incontornável quando se fala na representação do cotidiano humano na ficção televisiva.” Manoel Carlos morreu no sábado, aos 92 anos.
🎧 Podcast
Com o mesmo sobrenome, os poetas e escritores Eliane Marques e Henrique Marques Samyn não são parentes biológicos, mas se tornaram primos afetivamente por meio das palavras. “A palavra constitui o mundo, a palavra constitui ‘Sílex’, constitui ‘Anastácia e a Máscara’, assim como as palavras ‘primo’ e ‘prima’ constituem a minha relação com o Henrique”, explica Eliane. No “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, eles conversam sobre as origens de sua escrita e como descobriram a literatura negra – em que foram influenciados pela oralidade. Os barulhos de vizinhos, a mistura de samba e funk e o burburinho das ruas, por exemplo, fizeram parte da infância de Henrique e se manifestam em sua obra: “Eu cresci muito envolvido por esses sons do subúrbio, que vão entrando na minha poesia”.
👩🏾⚕️ Saúde
“As corporações descobriram há muito tempo que, se conseguissem fazer as crianças acreditarem que seus produtos eram o que elas deveriam comer, essas crianças cresceriam e desejariam esses produtos para o resto da vida. Mas o que isso faz é acostumar as crianças a comer alimentos doces”, afirma a pesquisadora Marion Nestle, professora emérita da Universidade de Nova York. Em entrevista a O Joio e O Trigo, ela ressalta a importância da Classificação NOVA – que divide os alimentos por processamento, como in natura, minimamente processados, ingredientes culinários, processados e ultraprocessados – para os estudos sobre alimentação. “Se você quer desencorajar os pobres de consumir ultraprocessados e incentivá-los a consumir alimentos menos processados, então você precisa subsidiar alimentos menos processados em vez de incentivar o que quer que esteja sendo subsidiado agora.”




