🔸 O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal, decidiu adiar o debate no plenário sobre as publicações a respeito de Nossa Senhora Aparecida, controvérsia que está no centro do atrito entre a Corte e o Tribunal Superior Eleitoral. O Nexo reconstrói o caso e conversa com especialistas em Direito. Após um boato que atribuía a Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de retirar da santa o título de padroeira do Brasil, André Mendonça, no TSE, determinou a remoção dos post. Flávio Dino suspendeu a medida, atendendo a um pedido da defesa do humorista Antonio Tabet, cuja publicação não citava o candidato. Luiz Fux, por sua vez, restabeleceu as remoções e afirmou que Dino não era o juiz competente para o caso. Emílio Meyer, professor de direito constitucional da UFMG, avalia que Mendonça restringiu a liberdade de expressão de forma precipitada e abrangente, mas também critica o procedimento adotado por Dino. Para ele, o plenário do STF precisa resolver “quais são as competências em relação à atuação do TSE no processo eleitoral e à atuação do Supremo na proteção da liberdade de expressão, que também está em curso no processo eleitoral”.
🔸 Uma rede de lojas virtuais vende bonés “patriotas” de apoio a Flávio Bolsonaro com divulgação em perfis não oficiais de políticos e comissões a criadores de conteúdo. As lojas, na Shopee e no Mercado Livre, estão ligadas à campanha do deputado Sargento Fahur (PL-PR). A Lupa mostra que seis das oito lojas mapeadas na Shopee estão registradas no endereço da Starx Travesseiros, em Marialva (PR), que tem o chefe de gabinete do parlamentar, Maycon Zanetti, entre os sócios. O esquema não é declarado oficialmente pelas campanhas de Fahur ou de Flávio, tampouco sinaliza para usuários das redes sociais se tratar de propaganda política. A estratégia viola regras de propaganda eleitoral na internet e pode configurar abuso de poder econômico para obter vantagem política. A operação combina divulgação em redes sociais e vendas por lojas e afiliados. Há 13 perfis de “fãs” de políticos bolsonaristas que, somados, têm mais de 21 milhões de seguidores e direcionam o público para uma mesma loja na Shopee.
🔸 Falando em esquema… O advogado Willer Tomaz perdeu R$ 163 milhões em bets e pede na Justiça a devolução do dinheiro, sob a alegação de que tem dependência de jogos e de que a plataforma explorou sua compulsão. Amigo próximo de Flávio Bolsonaro e investigado nas fraudes do INSS, ele registrou R$ 4,963 bilhões em perdas e R$ 4,8 bilhões em ganhos nos jogos de cassino, com reapostas dos valores. Segundo o Metrópoles, os depósitos somaram R$ 300 milhões, e os saques, R$ 137 milhões. Conversas anexadas mostram que Tomaz recebia atendimento exclusivo por WhatsApp e negociava exceções às regras da plataforma, como a dispensa de reconhecimento facial – o que contraria a regulamentação federal. Ele também tem negócio no próprio setor de apostas: é beneficiário final da RioPag, intermediadora de pagamentos de bets licenciadas no Rio, e seu escritório patrocinava a associação Aposta Legal.
🔸 Quatro pessoas morreram e pelo menos 13 ficaram feridas, entre elas uma criança de 12 anos e um adolescente de 15, na operação policial iniciada por volta de 1h da madrugada de segunda-feira no Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Segundo o Maré de Notícias, foi a 15ª operação no território neste ano, apenas três dias após a anterior. A ação começou quando moradores ainda participavam da 19ª Parada LGBTQIA da Maré e de festas de São Cosme e Damião. Um participante da parada, que preferiu não se identificar, conta que “não teve muito pra onde correr”: “Ficamos encurralados. Eram muitas crianças chorando, as pessoas correndo, gritando. Quem conseguiu se abrigar teve sorte, mas por conta do horário ser tarde, a maioria das coisas já estavam fechadas”.
🔸 A propósito: todas as pessoas mortas por agentes do Estado em Belford Roxo, Magé e Maricá, no Rio de Janeiro, em 2025 eram negras. O dado consta do Mapa da Desigualdade 2026, produzido pela Casa Fluminense e obtido pela Ponte. Na região metropolitana, pessoas negras representam mais de 70% das vítimas dessas mortes e cerca de 65% da população. Dos 800 negros mortos por agentes do Estado no Rio, 741 morreram na região metropolitana. “Qual é a política que está orientando a ação desses agentes? Essa é a maior pergunta”, afirma Íris Rosa, coordenadora de informação da Casa Fluminense.
📮 Outras histórias
Jurema Cléa Figueirôa, conhecida como Jureminha, acumulou títulos no atletismo, no basquete e no vôlei nas décadas de 1940 e 1950, mas seu nome quase desapareceu da memória esportiva de Santos (SP). O Juicy Santos narra a história da atleta que, aos 17 anos, foi campeã paulista no lançamento de dardo, com uma marca considerada recorde brasileiro à época. Também conquistou o Campeonato Brasileiro de basquete por São Paulo, em 1951, e foi campeã estadual de vôlei. Nos Jogos Abertos do Interior de 1946, ganhou três ouros, um em cada modalidade. Uma pesquisa de Isabele Bonfim Pereira e André Dalben, da Unifesp Baixada Santista, reuniu 343 registros em 27 publicações para reconstruir sua trajetória. “Jurema não era uma personagem desconhecida em seu tempo. Pelo contrário: aparecia com frequência nos jornais, acumulava títulos e era tratada como uma referência do esporte feminino santista”, afirma Dalben.
📌 Investigação
Uma carta-compromisso com pautas que restringem direitos de pessoas trans reuniu, até 26 de setembro, 150 assinaturas de candidatos de 20 partidos, da esquerda à direita, revela a Agência Diadorim. A campanha é promovida pela Matria (Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil), sob a justificativa de defender mulheres e crianças. Cinco dos oito compromissos na carta têm como objetivo restringir a presença de pessoas trans em espaços e políticas públicas. O documento propõe adotar apenas o sexo como critério para categorias esportivas femininas, serviços, produção de dados e políticas de combate à violência. O PCO lidera as adesões, com 59 assinaturas, seguido por Novo, com 22, e Missão, com 13. PT e PL têm oito cada. A organização aborda candidaturas pelas redes sociais e por contatos com assessorias. Dez candidatos solicitaram a retirada dos nomes, mas continuam nos materiais da entidade, identificados como desistentes. Candidata à Câmara dos Deputados, Ana Julia (PT-PR), por exemplo, atribuiu a assinatura a um erro da assessoria. Já o candidato a deputado estadual Prof Jocelino Júnior (PT-ES) disse não ter autorizado a adesão.
🍂 Meio ambiente
A fumaça que encobriu Manaus nas últimas semanas veio principalmente de queimadas na região metropolitana e no leste do Amazonas. É o que afirma à Revista Cenarium Renato Trevisan Signori, coordenador da Sala de Situação da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA). Segundo ele, os ventos transportam as emissões dessas áreas para a capital. Uma modelagem realizada em 24 de setembro também identificou a possibilidade de chegada de poluentes do sudoeste do Pará. Já Lucas Ferrante, pesquisador da USP e do Centro de Pesquisa da Biodiversidade e Mudanças do Clima, diferencia as condições que favorecem a propagação do fogo das ações que dão origem aos incêndios: “O El Niño facilita a combustão da floresta amazônica por conta da diminuição de umidade, mas, na verdade, a motriz desses incêndios é a especulação fundiária na área da rodovia BR-319 para converter áreas de floresta em pastagem”. Em análise n’O Eco, o pesquisador aprofunda o debate e alerta que atribuir a poluição à região errada pode comprometer a resposta pública.
📙 Cultura
Em Belém, as brincadeiras de boi reúnem multidões no período junino e mantêm atividades nos bairros durante o ano inteiro. O Arrastão da Pavulagem, por exemplo, sai às ruas em quatro domingos de junho e atrai mais de 30 mil pessoas por cortejo. Foi nele que Elis Pantoja, cuja família não é da capital paraense, encontrou uma forma de se sentir parte da cidade: “A gente vai aprendendo as músicas e se cria essa cultura compartilhada que para mim sempre foi algo muito desejado”. O #Colabora visita também bois em Guamá e Terra Firme, bairros periféricos de Belém. Fundado em 1934, o Boi Malhadinho atravessa gerações no Guamá. Já o Boi Marronzinho, criado em 1993 na Terra Firme, distribuiu cestas básicas durante a pandemia e hoje promove atividades para crianças ao longo do ano. Para Joelcio Ataíde, fundador do grupo, o Marronzinho se tornou “um instrumento de luta e de defesa da comunidade da periferia”. Suas músicas tratam de racismo, xenofobia e violência contra a mulher.
🎧 Podcast
“Era mais raro receber pacientes com indicação de internação que estivessem abaixo de 11 anos. E só hoje, no ambulatório, a gente tem três pacientes que saíram do período de internação com a gente que têm 10, 11 anos.” O relato é do médico Wagner Gurgel, coordenador do Programa de Atendimento, Ensino e Pesquisa em Transtornos Alimentares na Infância e Adolescência (Protad), do Hospital das Clínicas, em São Paulo. O último episódio da série Pratinho Cheio, do “Prato Cheio”, produção d’O Joio e O Trigo, mostra como uma sociedade cada vez mais obcecada com o próprio corpo está mudando o jeito como as crianças comem e enxergam a comida. Em 2025, o SUS realizou pouco mais de 7 mil atendimentos por transtornos alimentares em crianças de até 11 anos, quase cinco vezes o número registrado entre adolescentes. Há casos como o de uma menina de 11 anos que pediu ao ChatGPT orientações para “perder barriga rápido” e um cardápio de dieta. Nas redes sociais, pipocam conteúdos de crianças musculosas e perfis infantis dedicados a exercícios físicos.
👩🏽💻 Tecnologia
As reações de influenciadores ao anúncio da proibição das bets expuseram a dependência de contratos publicitários por trás da imagem de riqueza e autonomia que exibem nas redes. O streamer e empresário Nobru, por exemplo, citou um chá revelação de R$ 300 mil, compras de enxoval no exterior e compromissos financeiros para explicar por que a medida chegava “no pior momento possível”. Ele entrou na lista de milionários antes dos 25 anos, fazendo vídeo tour em sua nova mansão. A Fast Company Brasil mostra como as bets se tornaram uma fonte expressiva da receita dos criadores de conteúdo. Segundo dados do Ibope Advertising Intelligence, 15 grandes empresas do setor investiram mais de R$ 3 bilhões em mídia em 2025, com cerca de 35% destinados ao ambiente digital. Não há um cálculo consolidado de quanto chegou diretamente aos influenciadores.



