ESPECIAL: Um raio x da intolerância religiosa no país e as mulheres negras evangélicas
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
Olá, bom dia!
Esta é a primeira edição especial da Brasis de 2026. A cada especial, enviado sempre no último sábado do mês, reunimos histórias que marcaram a newsletter nesse período. Em janeiro, mês de Combate à Intolerância Religiosa, um tema recorrente foi a violência no contexto da fé, sobretudo a vivida por pessoas negras e religiões de matriz africana – um problema que se manifesta de forma persistente no cotidiano do país e revela disputas profundas sobre direitos e pertencimento.
A curadoria desta edição passa pela memória de Mãe Gilda, pelos dados oficiais sobre as principais vítimas do racismo religioso no país e por episódios recentes de violência e disputas institucionais. Mostramos também as formas de resistência e a afirmação cultural que emergem desses contextos. Assim, a Brasis reforça a importância do jornalismo atento aos territórios como forma de amplificar histórias, dar visibilidade a temas pouco tratados na imprensa tradicional e qualificar o debate público.
Boa leitura!
🔸 Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro, é a data de morte da Iyalorixá Mãe Gilda, fundadora do terreiro Ilê Asé Abassá, no bairro de Itapoã, em Salvador. A revista Cenarium lembra a trajetória de Gildásia dos Santos e Santos, nome de nascimento de Mãe Gilda, que dedicou a vida à preservação do candomblé e à defesa da liberdade de crença. Sua história foi marcada por perseguições, ataques e violência religiosa direcionada aos familiares dela e ao terreiro que fundou. O contexto de racismo religioso contribuiu para seu adoecimento e morte, em 21 de janeiro de 2000. Em reconhecimento a sua luta, a data foi incorporada ao calendário cívico do Brasil como símbolo da luta pelo respeito à diversidade religiosa.
🔸 A maioria das vítimas de intolerância religiosa é mulher e umbandista, segundo dados do Disque Direitos Humanos (Disque 100), canal do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), divulgados na semana passada. O Notícia Preta destrincha os números: foram 2.774 denúncias entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, mantendo a tendência observada em anos anteriores – em 2024, foram 2.472 registros. Apenas nos primeiros dias de janeiro de 2026, o canal já contabilizava 51 denúncias. O levantamento aponta maior incidência entre pessoas adultas, sobretudo nas faixas de 30 a 44 anos, e concentração de casos em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. Entre as religiões identificadas, a umbanda lidera como o maior alvo de intolerância, seguida por candomblé e outras tradições afro-brasileiras. Já as ocorrências envolvendo evangélicos, católicos e espíritas aparecem em menor número.
🔸 No bairro de Cajazeiras XI, em Salvador, o terreiro Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma Kwiza foi alvo de um ataque de intolerância e racismo religioso neste mês. No muro da casa, foram pichadas em tinta vermelha as palavras “assassinos” e “Jesus”, informa a revista Afirmativa. O babalorixá Pai Mutá conta que só soube do ataque na manhã seguinte, avisado por filhas de santo: “Fiquei muito irritado, nervoso. Bate uma sensação de impotência”. Ele questiona o uso do nome de Jesus no ato de ódio. “Jesus é um ser de luz, de amor. Deveriam estar pregando o amor, a união, não se pode ter paz sem amor”. Com mais de 33 anos de atuação e histórico de trabalhos sociais na comunidade, o terreiro registrou boletim de ocorrência e o caso foi encaminhado à Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa.
🔸 “Agora nos colocamos enquanto mulheres negras evangélicas para dialogar e lutar. Eles não mandam em nós – nem na nossa fé. A nossa fé é em Jesus, e não neles [líderes religiosos]”, afirma Andressa Oliveira, militante antirracista do Movimento Negro Evangélico do Rio de Janeiro. A ativista fez parte do Comitê de Evangélicas da 2ª Marcha das Mulheres Negras. À Gênero e Número ela fala sobre como a espiritualidade não é dissociada da experiência concreta e como a luta se por justiça de gênero e raça se manifesta dentro e fora das igrejas. “Há diversas passagens que falam sobre proteger as mulheres. O próprio Jesus protegeu uma mulher que ia ser apedrejada. Nós dialogamos com as irmãs para que elas não se submetam às violências. Para que entendam que não estão desagradando a Deus se denunciarem um marido agressor. E mais: se o pastor disser para apenas orar e perdoar, ela denuncia o marido, e denuncia o pastor também.”
🔸 Em fotos: a fé católica e a ancestralidade africana se misturam na Marujada de Bragança por meio da música, dança, cores e rituais. As manifestações na cidade paraense acontecem em diferentes locais, com destaque para o Barracão da Marujada e para as procissões em terra e no rio Caeté, e acompanham a Festividade de São Benedito. Realizada todo ano em dezembro, a edição de 2025 contou com mais de 130 mil pessoas entre os dias 20 e 26. A Amazônia Latitude registrou o cortejo, em que marujos e marujas cumprem funções bem definidas, sob a liderança da capitã, e resgata a história da celebração, herança viva da presença negra na Amazônia. Reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, a Marujada remonta também a uma estratégia de sobrevivência, organização coletiva, afirmação cultural e política no contexto da violência colonial.
🔸 Um projeto do pastor Marco Feliciano (PL-SP) quer alterar a Lei do Racismo e criar uma espécie de “imunidade penal cristã”, como define o jurista Hédio Silva Jr., em artigo na Alma Preta. Aprovado na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) da Câmara em dezembro do ano passado, o Projeto de Lei 1804/2015 pretende restringir a responsabilização de lideranças religiosas por crimes como racismo, terrorismo, tortura e ódio religioso. “Pastores ficam liberados para instigar, incitar, induzir fiéis a atacarem verbal e fisicamente templos e adeptos (as) das religiões afro-brasileiras quiçá em nome do misericordioso propósito de “salvar almas”, explica o jurista. Ele destaca que a medida ignora o princípio da autoria intelectual – quem incita ou induz também responde pelo crime – e afirma que o parecer da CCJ é “flagrantemente inconstitucional”.
🔸 Ex-servidoras da Secretaria da Mulher do Rio Grande do Sul denunciaram a titular da pasta, Fábia Richter, ao Ministério Público do Trabalho e ao Ministério Público do estado, por práticas religiosas no ambiente de trabalho e pela adoção de procedimentos considerados sem embasamento científico no atendimento às vítimas de violência. As ex-servidores afirmam que participaram, por obrigação, de momentos de oração e dinâmicas religiosas, o que teria gerado constrangimento e desrespeito à diversidade religiosa. O Sul21 detalha também críticas ao mapeamento de agressores proposto pela secretária, que incluiria contatos com familiares e redes locais antes de condenações judiciais, o que, segundo as ex-servidoras, expunha a equipe a riscos. Fábia Richter nega irregularidades, diz que os momentos eram opcionais e afirma que a secretaria ainda está em fase de construção de protocolos.

