ESPECIAL: O trabalho de adolescentes nos apps de delivery, a venda de íris e as 'árvores fake' de Belém
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
Olá, bom dia e feliz ano novo!
Nesta primeira semana de 2026, você receberá edições especiais da Brasis. A ideia é revisitar histórias que marcaram 2025 e ajudaram a enxergar o país a partir de diferentes perspectivas. Para abrir essa série, reunimos destaques e as reportagens mais clicadas pelos leitores da newsletter ao longo do ano, um critério que também vai orientar as duas próximas edições desta semana.
A seleção de hoje passa por temas que mobilizaram muita conversa: trabalho e precarização, a vida digital que pesa no bolso, códigos e linguagens que circulam entre adolescentes nas redes, além do avanço de projetos privados sobre dados pessoais extremamente sensíveis. Também entram histórias de cultura, educação e meio ambiente, com investigações e narrativas que mostram a pluralidade do jornalismo digital feito pelas associadas à Ajor.
Obrigada por fazer parte dessa história.
Que 2026 comece com boas leituras!
🔸 Adolescentes menores de idade se arriscam para fazer entregas por aplicativos de delivery, burlando regras de plataformas como iFood e Rappi, que proíbem cadastros de menores de 18 anos. A Repórter Brasil revela que eles pagam cerca de R$ 50 por semana para “alugar” a conta de terceiros nos apps. No Youtube e TikTok, vídeos explicam como burlar as plataformas. Muitos trabalham sem equipamentos de segurança, enfrentam riscos de acidentes graves e não têm qualquer suporte das empresas em caso de lesões ou prejuízos. Se o trabalho infantil é proibido no Brasil, no caso do serviço de entrega, ele se enquadra na lista das piores formas de trabalho infantil, por causa dos riscos de acidentes e da exposição ao frio e ao calor extremo.
🔸 Emojis que parecem inofensivos circulam entre adolescentes como símbolos para drogas, distúrbios alimentares, vida sexual, misoginia e até grupos ligados à cultura incel. A Lupa traz uma tabela de significados elaborada por Amit Singh Kalley, especialista em segurança digital para famílias e ex-policial especializado em crimes cibernéticos. Emojis como flocos de neve e diamantes são frequentemente usados para representar cocaína. Já ícones de lâminas, fogo e corpos magros se tornam códigos para automutilação, anorexia e outros tipos de sofrimento emocional. Para Kalley, se os pais não dominam a linguagem que os filhos usam na internet, não estão realmente monitorando de fato. “A crise que estamos vivendo é global. Nenhum país, nenhum pai ou escola estão preparados o suficiente para lidar com o que acontece online com crianças e adolescentes”, afirma.
🔸 Os serviços de streaming ganham cada vez mais as telas dos brasileiros, com dezenas de possibilidades de assinaturas de séries e filmes a livros. A Calculadora de Streamings, ferramenta do Núcleo, compila mais 50 plataformas de “Vídeo”, “Áudio”, “Livros” e “Jogos” e seus diversos planos para estimar o valor da conta com esses serviços ao fim do mês, com a possibilidade de incluir combos entre essas categorias. A assinatura mais cara é a Apple One (Premier), com valor de R$ 89,90. Já a mais barata é a do YouTube Music para estudantes, com valor de R$ 10,90.
🔸 Apesar de proibições judiciais, ao menos 400 mil brasileiros já venderam suas íris para a empresa Tools for Humanity, que gerencia o projeto World ID no Brasil, a fim de receber criptomoedas.O escaneamento da íris acontece em uma loja discreta, sem logos ou qualquer outro de identificação clara. Ao contrário das digitais, que podem apresentar falhas e até serem copiadas, a íris é a mais fiel e segura forma de identificação de uma pessoa. Por isso, é um dado pessoal extremamente sensível. A Agência Mural destaca que a compensação financeira é o principal motivo que leva pessoas – sobretudo das periferias – a disponibilizar essa informação para as empresas. “Ela disse que havia ido até lá unicamente para receber o pagamento prometido, mas que não fazia ideia do que a empresa realmente fazia, muito menos o que era uma inteligência artificial. Sua única preocupação era ter uma renda extra”, conta a jornalista Isabela do Carmo sobre uma senhora de Heliópolis, maior favela de São Paulo, que conheceu no local de coleta.
🔸 Em imagens: o jovem Kumreiti Cardoso Kiné, conhecido como Mre Gavião, fez história como fotógrafo e comunicador indígena do povo Gavião Parkatêjê, da Terra Indígena Mãe Maria, no Pará. Sua trajetória na fotografia começou com um celular durante o Acampamento Terra Livre em 2017. Ele se destacou por capturar a vida cotidiana, rituais e manifestações políticas de seu povo e de outras comunidades indígenas. A Amazônia Latitude reúne numa fotogaleria o trabalho do fotógrafo de 28 anos, que morreu no início de maio. As imagens refletem sua sensibilidade e o compromisso com a causa indígena, com registros de manifestações contra o Marco Temporal, festivais culturais e momentos do cotidiano nas aldeias.
🔸 “Eu preciso de gente para expulsar posseiro, matar índio, derrubar a árvore, vender agrotóxico.” A fala do professor Antônio Almeida é sobre a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP). O Joio e O Trigo revela como ela se tornou um centro de formação ideológica e técnica alinhada ao agronegócio. As repúblicas estudantis funcionam como redes de recrutamento e perpetuação de valores conservadores, racistas e hierárquicos. “Contra as mulheres, contra os negros, contra os ambientalistas, contra a esquerda…”, explica Almeida, que é docente do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES) da instituição. Empresas como Bayer, Syngenta e Cargill financiam pesquisas, cursos e bolsas, muitas vezes com cláusulas de confidencialidade. Já o estudo da agroecologia sofre boicotes e subfinanciamento. Há ainda relatos de estudantes negros e periféricos sobre casos de violência psicológica e racismo institucional. “Eu vi todo tipo de coisa na minha vida, eu vi tudo. Mas a violência esalqueana foi uma coisa que me impactou de verdade, porque é algo que mexe com a sua sanidade”, diz a estudante Camila, vítima de racismo na Esalq.
🔸 Meses antes do início da COP30, em Belém, governo do Pará instalou “árvores fake” – feitas com ferro e vasos de plantas, batizadas de “árvores artificiais ecológicas” – em Belém, cidade pouco arborizada e que desmatou ainda mais para abrir espaço à Conferência do Clima das Nações Unidas, marcada para novembro. A Sumaúma conta que a capital perdeu mais de 500 hectares de vegetação urbana em 20 anos e segue derrubando árvores para abrir avenidas. O governo paraense afirma que plantará árvores reais também, mas considera as árvores artificiais ecológicas porque vergalhões de obras foram reaproveitados para simular os caules. “Não é porque está fazendo reaproveitamento de material que é efetivamente ecológica. Quais são os serviços ecológicos de uma árvore? Existem vários: a sombra, o fruto, a irrigação, o filtro de ar. Não se pode dizer que é ecológica quando uma árvore anula vários desses elementos e só faz sombra”, avalia o professor André Farias, da Universidade Federal do Pará.
🔸 Um dos livros mais discutidos e polêmicos da literatura brasileira, “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, chegou às livrarias há 125 anos, em 1900. Narrado em primeira pessoa por Bentinho, o romance demorou cerca de 60 anos para que a perspectiva do protagonista fosse contestada, como explica o pesquisador Hélio de Seixas Guimarães na apresentação da nova edição de “Dom Casmurro”. A Quatro Cinco Um teve acesso ao livro que será lançado em março. “A modificação na leitura desta história, de um romance sobre o adultério feminino para um romance sobre o ciúme masculino, teve início na década de 1960, com a publicação do estudo ‘The Brazilian Othello of Machado de Assis’, traduzido como ‘O Otelo Brasileiro de Machado de Assis’, da crítica norte-americana Helen Caldwell”, escreve. “Caldwell produziu uma reviravolta no entendimento do romance, encetando uma série de leituras baseadas na não confiabilidade desse e de outros narradores machadianos.”
🔸 Parte da memória afetiva das crianças brasileiras, cabo-de-guerra, peteca e esconde-esconde são brincadeiras que têm origem ou são bastante difundidas em comunidades quilombolas, povos indígenas, grupos pesqueiros e terreiros de religiões de matriz africana. O Lunetas reúne sete brincadeiras tradicionais para resgatar a ancestralidade. “As brincadeiras ancestrais são um veículo de conectar a memórias que estão interrompidas, seja pelo processo de escravização, seja pelo processo de sofrimento ou genocídio causado aos povos indígenas”, afirma João Paulo Diogo, membro da Assessoria Cirandas e idealizador da iniciativa Cirandas do Brincar, que realizou um mapeamento das brincadeiras ancestrais nos diversos territórios da Bahia.
🔸 A desinformação segue um modelo de negócio. Um estudo inédito mapeou uma rede de quase 5 milhões de usuários em comunidades conspiracionistas no Telegram na América Latina e Caribe. São grupos que lucram vendendo falsas curas para doenças como câncer e autismo. Também promovem medicamentos sem comprovação científica, como o dióxido de cloro, apresentado como um “detox vacinal”, revela o Conversation Brasil. As quase duas mil comunidades analisadas somam 55 milhões de mensagens trocadas num intervalo de dez anos, entre 2016 e 2025 – e o Brasil lidera tanto em número de participantes quanto em volume de conteúdos publicados.

