ESPECIAL: O petróleo na Amazônia, a disputa por data centers e a história do posto de rainha da bateria
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Oi, pessoal, bom dia!
Nesta semana de edições especiais da Brasis, seguimos revisitando histórias que ajudaram a definir 2025. A seleção de hoje reúne reportagens sobre alguns dos debates mais centrais do ano, aqueles que vão continuar moldando decisões políticas, econômicas e sociais no Brasil.
Estão aqui os impasses e contradições da agenda ambiental, com a COP30 e a exploração de petróleo na Foz do Amazonas; as disputas em torno da inteligência artificial, dos data centers e do poder das big techs; e as assimetrias históricas de raça e gênero, visíveis tanto na ausência de mulheres negras no STF quanto na força delas nos territórios, na ciência, na cultura e na luta por direitos.
Boa leitura!
🔸 Foram anos de negativas até que a pressão política venceu: em outubro de 2025, o Ibama autorizou a Petrobras a perfurar um poço na Foz do Amazonas, região de extrema sensibilidade ambiental e riquíssima em biodiversidade. A licença abre uma nova frente de exploração de petróleo no Brasil – além do bloco 59 que a Petrobras vai perfurar, mais 27 blocos aguardam licenciamento na Bacia do Foz do Amazonas. O processo de licenciamento da petroleira se arrastava desde 2014 e foi finalizado sob forte pressão do governo Lula. A Sumaúma apurou que a decisão da emissão da licença antes da COP30 foi tomada na Casa Civil, comandada pelo petista Rui Costa. A Petrobras informou que vai começar imediatamente a perfuração, que tem duração prevista de cinco meses. O movimento contrastou com o maior desafio da Conferência do Clima das Nações Unidas, em Belém, a COP30: acelerar o compromisso, assinado por 27 países na COP28, de “transitar para longe” dos combustíveis fósseis.
🔸 Apesar de afirmar que pretendia perfurar apenas um poço na Foz do Amazonas, a Petrobras tinha um plano estratégico para abrir toda a margem equatorial à exploração petrolífera. A reportagem do especial “Até a Última Gota”, da InfoAmazonia, mostrou que a petroleira planeja perfurar 15 poços até 2029, com investimento de US$ 3 bilhões. A tática seria usar o bloco 59 como precedente para liberar licenças em áreas vizinhas. Num caso de vazamento de petróleo na região, a comunidade de Sucuriju, com 387 habitantes, seria a primeira atingida. Isolada entre manguezais e áreas protegidas, como a Reserva Biológica do Lago do Piratuba, a vila já foi base de operações petrolíferas nos anos 1970, quando a Shell instalou tanques de combustível ainda visíveis na comunidade. Hoje, os vestígios são lembranças da primeira tentativa fracassada de extração, mas o temor é que os impactos de uma nova investida possam ser muito mais profundos.
🔸 A propósito: o Ibama acusou a Petrobras de ser omissa em casos de derramamento de petróleo. Só em 2022, 217 mil litros de óleo foram despejados no mar. No ano passado, o órgão deu parecer negativo à estatal: levou em conta falhas no plano de emergência e o histórico de vazamentos de óleo. O Nexo revê esse histórico, lista os argumentos do Ibama e mostra por que a região é considerada ultra sensível ambientalmente. “É um lugar cheio de peixe, de camarão, um ambiente recifal responsável pela pesca farta no litoral do Pará e Amapá. A região tem a maior extensão de mangue do mundo tropical. São ambientes extremamente frágeis. Um derramamento de óleo naquela região seria uma catástrofe ecológica indizível”, explica Claudio Angelo, coordenador de Política Internacional do Observatório do Clima.
🔸 Falando em meio ambiente… a COP30 terminou sem consenso sobre a principal aposta do Brasil para a conferência: o mapa do caminho para reduzir o uso de combustíveis fósseis. Também não houve decisão formal sobre um roteiro global contra o desmatamento. Principal fiadora da proposta do Brasil, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou: “Enfim, progredimos, ainda que modestamente”. Diante do impasse e da resistência de produtores de petróleo, como Arábia Saudita e Índia, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, anunciou que, por iniciativa própria, vai elaborar dois mapas do caminho paralelos: um para a transição longe dos fósseis e outro para frear o desmatamento. A Agência Pública faz um balanço dos avanços na conferência e destaca que a COP aprovou um pacote inédito de decisões sobre adaptação e um mecanismo de “transição justa”, que reconhece trabalhadores, povos indígenas, comunidades locais, afrodescendentes, mulheres e outros grupos vulneráveis como sujeitos centrais da mudança.
🔸 “Apesar de existirem políticas e recursos destinados ao enfrentamento da crise climática, a Caatinga segue à margem”, diz Daiane Dultra, gestora social e fundadora da Painá Impacto. Em artigo na Cajueira, ela destaca o apagamento da Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e historicamente negligenciado, nos debates para financiar iniciativas de adaptação, mitigação e proteção. “O pouco financiamento climático que chega ao Brasil tem destino certo: grandes estruturas, projetos robustos e organizações com capacidade técnica elevada. As experiências locais, conduzidas por agricultores familiares, redes comunitárias e coletivos que já atuam com tecnologias sociais e adaptação ao clima, ficam com uma parte bem pequena (mas bem pequena mesmo!) deste recurso. Falta reconhecimento e falta estrutura para fazer com que esses recursos cheguem à ponta.”
🔸 No campo da tecnologia, a disputa entre empresas e governos forjou uma corrida pela supremacia em IA, desde os modelos de base de dados usados até as expectativas e conflitos ideológicos sobre a tecnologia. O Núcleo destrincha o campo de batalha que envolve a inteligência artificial em nível global, uma competição acirrada por infraestrutura de data centers e por alternativas mais eficientes no uso de hardware. Atualmente, os Estados Unidos lideram seu desenvolvimento e têm a China como principal concorrente. Já a União Europeia tenta traçar seu próprio caminho, apostando na regulação como um diferencial competitivo. Países do Sul Global, como Índia e Brasil, buscam equilibrar desenvolvimento local com colaborações internacionais, enfrentando o desafio de criar ecossistemas próprios para não aumentar a dependência tecnológica.
🔸 Com promessas irreais, o lobby das big techs tenta instigar uma disputa por data centers voltados para a inteligência artificial entre países da América Latina. O Aos Fatos analisou falas de representantes do setor, artigos na imprensa local e especializada e declarações de políticos na Argentina, no Brasil, no Chile, na Colômbia, no México, no Paraguai e no Uruguai e mostra como a maioria dos argumentos em defesa dessas estruturas não é baseada em fatos. Uma das principais promessas que aparece em todos os países é a geração de empregos e o suposto fomento a uma economia que gira em torno dos data centers. Grande parte das vagas anunciadas pelas empresas são geradas na fase de construção. Depois que a estrutura física fica pronta, os postos de trabalho são encerrados. A realidade é que os data centers são estruturas altamente automatizadas e têm boa parte do seu funcionamento controlável remotamente – normalmente de países como os Estados Unidos.
🔸 Aliás… Sem regulação específica sobre data centers de hiperescala, os estados tomam as decisões ao seu modo, o que pode afetar diversas cidades brasileiras. Uma dessas instalações está prevista para ser implantada em Sergipe e terá um consumo de energia maior do que todo o estado. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, destrincha o impacto energético, ambiental e social dos data centers no país e reflete sobre os caminhos possíveis. O episódio questiona também a falta de debate sobre a mineração de terras raras e os resíduos eletrônicos necessários para o funcionamento da inteligência artificial e dessas estruturas.
🔸 Em 2025, o presidente Lula (PT) perdeu a chance de fazer história no STF e indicar uma mulher negra para a cadeira deixada por Luís Roberto Barroso, que pediu aposentadoria antecipada. Lula, porém, indicou Jorge Messias, advogado-geral da União. Em 134 anos, só quatro pessoas negras foram empossadas no STF – todos homens. Organizações da sociedade civil, como Mulheres Negras Decidem, a Coalizão Negra por Direitos e o Instituto Juristas Negras, sugeriram nomes de juristas negras ao presidente: Adriana Cruz, Vera Lúcia Santana Araújo, Lívia Sant’Anna Vaz, Edilene Lôbo, Mônica Melo, Manuelita Hermes, Karen Luise Vilanova, Soraia Mendes, Sheila de Carvalho, Lívia Casseres, Lucineia Rosa e Flávia Martins. A Alma Preta lembra que esta é a terceira vez que movimentos populares se organizam pela indicação da primeira mulher negra no STF. Em 2023, a campanha por uma jurista negra alcançou mais de 3 milhões de pessoas. “O que nós temos agora é mais uma oportunidade de trazer essa reflexão e recuperar um argumento que é muito fundamental para a construção da democracia e da sociedade que nós queremos. Ter a participação das maiorias sociais em espaços de poder e de tomada de decisão é imprescindível para avançarmos como sociedade”, ressalta Taináh Pereira, coordenadora do Mulheres Negras Decidem.
🔸 Falando nelas… a baiana Eliza Maria Ferreira Veras da Silva foi a primeira mulher negra a obter doutorado em matemática no Brasil. Foi em 1977, quando defendeu sua tese sobre álgebras não-associativas na Universidade de Montpellier, na França. Nascida em fevereiro de 1944, na cidade de Ituberá, no interior da Bahia, ela entrou na Universidade Federal da Bahia (UFBA) aos 20 anos e, tão logo se formou, passou a lecionar no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da instituição. O Negrê resgata a trajetória da doutora, que morreu em maio passado. Na UFBA, sua contribuição não se restringiu à sala de aula: Eliza foi vice-diretora do IME entre 1984 e 1988, além de atuar em projetos para o acesso de jovens, especialmente meninas negras, às ciências exatas.
🔸 Há mais de 20 anos, o Brejão dos Negros luta para existir formalmente. Em 2023, o governo federal reconheceu 8 mil hectares do território quilombola localizado em Sergipe, mas, apesar da festa, os moradores ficaram mais vulneráveis. Na série “Brejão, Quilombo de Reexistência”, a Mangue conta que, sem o último ato do processo – o decreto de titulação das terras –, os quilombolas das comunidades da Resina, Santa Cruz, Brejão, Carapitanga e Brejo Grande passaram a sofrer mais ameaças de fazendeiros, carcinicultores, empresas petrolíferas e mineradoras. “Não ter a posse definitiva mostra o racismo dentro do Estado e o poder de influência dos fazendeiros. Não ter a titulação intensifica conflitos com os grandes empreendimentos aumentando a degradação da natureza”, afirma Magno de Jesus, morador da comunidade de Santa Cruz. Com terreno fértil, plano, cercado por manguezais e lagoas e banhado pelo rio São Francisco, a área registra casos de perseguições, ameaças de morte e violações ao meio ambiente.
🔸 Os eventos de cultura negra e LGBTQIA+ são os mais cancelados pela Prefeitura de São Paulo. Mas não só: o investimento da secretaria municipal nessas ações também caiu 70% nos últimos dois anos. Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), o Nonada revela que, nos projetos voltados à população LGBTQIA+, os recursos passaram de R$ 236,5 mil em 2023 para R$ 67 mil em 2025, com o total de eventos reduzido de 64 para 17. No caso das culturas negras, houve alta pontual em 2024, com R$ 623,8 mil e 157 ações, mas o número de eventos despencou em 2025 para 60, com o orçamento reduzido a R$ 276 mil. A mesma tendência aparece no eixo de povos originários, que teve 113 eventos, em 2023, e apenas 21, em 2025, com queda de mais de 60% no investimento. “Esse tipo de arbitrariedade não é isolado. A política cultural da atual gestão municipal tem se mostrado hostil à produção independente e às expressões populares”, afirma Rafael Limongelli, um dos diretores da Flipei, festival cancelado pela prefeitura sem nenhum aviso prévio ou reunião.
🔸 Quando as escolas de samba e o desfile de Carnaval nasceram oficialmente, em 1932, não existia o posto de rainha da bateria, apenas várias mulheres, das comunidades locais, que dançavam juntas enquanto o samba acontecia. Alguns anos depois, começaram os concursos para eleger a melhor passista, que teria uma posição de destaque à frente da ala. Para ser coroada como rainha da bateria, era necessário ser a melhor passista. A revista AzMina destrincha como esse papel que nasceu com mulheres negras da comunidade virou lugar disputado por celebridades. “Isso retira alguns símbolos e significados do que é a nossa cultura, mas é um projeto de poder, porque retira as pessoas [pretas] desses lugares”, afirma Lyllian Bragança, sambista, pesquisadora e jornalista falando da Escola de Samba Vai-Vai, de São Paulo.

