ESPECIAL: Os memes nas redes do governo, a vida nos 'nanoapartamentos' e a tipografia ribeirinha
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Oi, pessoal, bom dia!
Nesta primeira semana de 2026, você receberá edições especiais da Brasis. Hoje e amanhã, a gente retoma as histórias mais clicadas pelos leitores da newsletter em 2025.
Na seleção a seguir, você encontrará temas que vão reverberar em 2026, como a disputa política em marcha para as eleições, os gastos e a transparência no Congresso e a virada na comunicação do governo nas redes sociais. A edição também abre espaço para cultura e linguagem, com um mergulho no dialeto recifense e o reconhecimento de línguas indígenas.
Boa leitura!
🔸 A Igreja Universal já mobiliza sua base para as eleições de 2026. A maior igreja neopentecostal do país, que diz ter mais de 7 milhões de fiéis, vem usando as estruturas religiosa e financeira para apoiar candidatos ligados ao Republicanos. O Intercept Brasil obteve acesso a documentos que mostram desde a coleta de dados de títulos de eleitores, metas de engajamento em programas e entrevistas políticas até grupos de WhatsApp em esquema de pirâmide e visitas domiciliares disfarçadas de oração, nas quais são apresentados os nomes dos candidatos. O processo é coordenado pelo Arimateia, grupo de formação política da Universal liderado pelo bispo Alessandro Paschoal, que mistura discurso religioso e político em tom de “guerra espiritual”. Ele também trabalha como chefe de gabinete do deputado estadual por São Paulo Gilmaci Santos, do Republicanos, também pastor da Universal. No esquema da igreja, os pastores são cobrados a atingir metas de mobilização de pessoas para acompanhar programas de entrevista de líderes com discursos e mensagens políticas. Nos templos maiores, a meta é mobilizar 700 fiéis. Nos menores, 300.
🔸 A lista dos dez parlamentares que mais gastaram com cota parlamentar no primeiro semestre de 2025 foi encabeçada pelo deputado Nicoletti (União Brasil-RR), com gasto de R$ 334.832,26. Levantamento do Congresso em Foco revela quem são os mais gastadores e mostra que há um padrão de uso concentrado em comunicação, transporte e estrutura. A cota parlamentar é um benefício dado aos deputados para custear despesas típicas do exercício do cargo, como aluguel de escritório de apoio ao mandato no estado, passagens aéreas, alimentação, aluguel de carro, entre outras. A maior despesa da maioria dos parlamentares foi a rubrica de divulgação da atividade parlamentar – Wilson Santiago (Republicanos-PB) gastou R$ 219 mil nessa área. Já Gabriel Mota (Republicanos-RR), por exemplo, priorizou a manutenção de escritório (R$ 170 mil).
🔸 Vira-lata caramelo, vídeos de gatos e memes estão na estratégia das redes sociais do governo para alcançar engajamento, depois de dois anos de presença digital protocolar e apática. O ponto de virada da Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) foi a crise do PIX no início de 2025, quando uma portaria da Receita Federal ampliando a fiscalização sobre transações financeiras se tornou alvo de desinformação. A medida foi revogada em duas semanas e, em seguida, o publicitário Sidônio Palmeira assumiu o comando da Secom. O Núcleo destrincha a estratégia e ouve especialistas sobre a virada nas redes do governo federal, que passaram a adotar formatos mais ágeis e linguagem direta para desmentir notícias falsas e conquistar espaço num ambiente de narrativas impulsionadas pela extrema direita. Para o professor Marcos José Zablonsky, das áreas de opinião pública e comunicação, o sucesso da mudança se baseia em três aspectos: autenticidade, timing e relevância. Natália Mendonça, professora de Marketing Político da ESPM, destaca que os perfis oficiais têm uma função pública, e não comercial. “O que importa não é apenas gerar curtidas, mas garantir que a informação seja compreendida e absorvida.”
🔸 Um megavazamento expôs 183 milhões de combinações de e-mails e senhas, incluindo contas do Gmail e de outros provedores. A descoberta foi feita pelo especialista em cibersegurança Troy Hunt, criador do site Have I Been Pwned, plataforma que permite descobrir se suas senhas ou informações pessoais já foram expostas na internet. A Lupa explica que, para verificar se foi afetado pelo vazamento, o usuário deve consultar a plataforma: se o e-mail aparecer em bases comprometidas, surge o alerta “Ah, não – pwned!” e o site lista quais serviços vazaram, quando e quais dados (nome, senha, telefone, endereço, data de nascimento).
🔸 Malamanhado, morgado e tabacudo são adjetivos do dialeto recifense. Não é questão de gíria ou de sotaque. A professora de fonética e fonologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Siane Gois Cavalcanti Rodrigues, explica que bastam algumas diferenças sutis para uma variação linguística ser considerada um dialeto – e o Brasil tem ao menos 16 deles. A Marco Zero mergulha no dialeto de Recife que tem marcas fonológicas, vocabulário específico e construções sintáticas distintas, como a ausência de artigos definidos (“casa de João”) e a monotongação (“pexe” em vez de “peixe”). O presidente da Associação Brasileira de Linguística (Abralin), Cleber Alves de Ataíde, alerta para um risco: as escolas e os meios de comunicação que priorizam o “sotaque neutro”, forçando a homogeneização. “A escola precisa adotar uma metodologia que valorize a diversidade linguística e quando eu falo em diversidade linguística, estou falando da diversidade cultural”, afirma. Em tempo: a reportagem oferece um pequeno glossário.
🔸 Nove línguas indígenas foram reconhecidas como co-oficiais no Amapá – Kheuol Karipuna, Kheuól Galibi-Marworno, Parikwaki, Kali’na, Wajãpi, Tiriyó, Kaxuyana, Wayana e Aparai – desde o fim de 2024. A legislação garante o direito fundamental das pessoas e comunidades indígenas no uso de suas línguas dentro e fora dos territórios. Também oferece salvaguarda, promoção, proteção e revitalização dos idiomas cooficializados, assegurando respeito da diversidade linguística. A lei, porém, não determina ações que vão protegê-los na prática. A Sumaúma destaca a importância das línguas dos povos originários para a expressão de toda sua subjetividade e os esforços do projeto Qual(is) Língua(s) Você Fala?, da Universidade Federal do Amapá, em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), para criar um acervo digital. O objetivo é que as línguas estejam seguras contra a ação do tempo e do racismo.
🔸 Desde 2010, o Inventário Nacional de Diversidade Linguística busca salvaguardar as diferentes línguas faladas no Brasil. O país possui 391 etnias e 295 línguas indígenas, segundo o Censo de 2022, das quais cerca de 190 estão em risco de extinção, como mostrou o “Atlas das Línguas em Perigo”, da Unesco. Há também línguas não-indígenas em risco de desaparecer, como o Iorubá, de matriz africana, e o Hunsrück, língua de origem alemã falada no Sul. Segundo o Nonada, sete línguas – seis delas indígenas – que poderiam ser extintas já foram inventariadas e reconhecidas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico (Iphan) e pelo Ministério da Cultura como referência cultural imaterial. Outras 20 línguas aguardam esse reconhecimento. É o caso da Língua Brasileira de Sinais (Libras), o Iorubá, o Yanomami, língua indígena do povo de mesmo nome, e a Pomerana, de origem alemã e polonesa.
🔸 Em vídeo: durante séculos, os habitantes do Arquipélago do Marajó, no Pará, desenvolveram uma das cerâmicas mais sofisticadas das Américas. Criada por povos que dominaram a hidrologia da ilha, essa é uma arte marcada por símbolos e representações locais que seguem presentes na identidade cultural. O documentário “Códigos Ancestrais: Iconografia do Marajó e Conservação do Oceano”, produção do Correio Sabiá, mergulha nos ícones marajoaras, que não são apenas arte, mas a expressão de uma cosmovisão indígena ancestral na qual o ser humano e a natureza são tidos como inseparáveis. Esse pensamento se manifesta na vida cotidiana das comunidades tradicionais, que dependem do fluxo das marés e do ecossistema dos manguezais para sua subsistência e identidade.
🔸 Nascida da necessidade de identificação de embarcações, a tipografia ribeirinha – a arte de pintar as letras dos barcos – vivem no imaginário amazônico e fazem parte da memória e tradição passada de geração em geração. O Amazônia Vox mostra como esse ofício se tornou uma fonte de sustento e a atuação do Instituto Letras que Flutuam, que busca reconhecer e proteger o trabalho dos artistas da apropriação indevida. “Eu costumo falar que o nome do projeto que hoje é o nosso instituto foi escolhido a dedo. Porque as nossas letras flutuam pelos rios da Amazônia. Hoje estão aqui, amanhã estão em outra cidade. Então são realmente as letras que flutuam. E vir de lá do Marajó para cá, para mim foi um uma realização de um sonho de infância. Porque onde eu pintava, onde eu estava, o pouco que eu fazia, o meu desejo era um dia estar aqui [em Belém]”, conta o artista Donnys Leal, o Kekeu. Atualmente tramita na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) um projeto de lei para tornar a tipografia ribeirinha um patrimônio cultural imaterial.
🔸 Com 10m², os “nanoapartamentos”, cada vez mais comuns nas grandes cidades, representam uma transformação no estilo de vida com interferências diretas na culinária doméstica e na comensalidade – hábito social de comer em conjunto. O “Prato Cheio”, produção d’O Joio e O Trigo, mergulhou na experiência dos limites da comensalidade em um espaço de pias minúsculas, falta de fogão e produtos congelados. O episódio ressalta as razões do boom dos imóveis pequenos e seu impacto na relação com o direito humano básico da alimentação.
🔸 Aos 92 anos, Tiana é reconhecida como a travesti mais velha do Brasil e se tornou símbolo de resistência. Negra e de origem humilde, ela foi a primeira travesti a ter visibilidade em sua cidade, Governador Valadares (MG), sobrevivendo a décadas de exclusão social, violências familiares e transfobia institucionalizada. A Revista Afirmativa conta que, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), há uma pesquisa em andamento para que Tiana seja registrada no “Guinness Book”, o livro dos recordes, como a mulher trans mais velha do mundo. Sua longevidade é ainda mais relevante diante do dado de que a expectativa de vida de mulheres trans e travestis no país é de 35 anos.
🔸 Parteira, rezadeira e liderança do povoado Resina, em Sergipe, Marília Santos sabe como poucos a história do Quilombo Brejão dos Negros. Aos 75 anos, ela se lembra de quando a luz chegou aos trabalhadores da comunidade. Também viu a luz ser retirada em seguida pelo dono da fazenda na qual trabalhavam em troca de comida. Dona Marília abre a série “Brejão, Quilombo de Reexistência”, especial da Mangue. É ela quem conta as origens de Resina, povoado que se formou nos anos 1940 por famílias de pescadores descendentes de negros fugidos da escravidão. A área sempre enfrentou a cobiça de fazendeiros. Em 2007, uma construtora reivindicou as terras para erguer um resort – e seguiram-se anos de violência: casas queimadas, barracos destruídos e prisões arbitrárias. Ainda assim, dona Marília e outras lideranças resistiram. Ela resume: “O medo é do tamanho que a gente faz”.

