ESPECIAL: As matriarcas do Carnaval, os cortejos na Amazônia e o trabalho que sustenta a folia
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Olá, bom dia!
Carnaval é celebração – e é justamente essa força coletiva que esta edição especial explora sob diferentes perspectivas. Reunimos aqui histórias que mostram como a folia se constrói muito além dos grandes espetáculos: nos bastidores pouco visíveis, nas tradições ancestrais, nos blocos de bairro e nas comunidades que mantêm vivas suas formas próprias de celebrar.
Nesta edição, você vai encontrar a história de dois cortejos na Amazônia que homenageiam a floresta, os bastidores do financiamento do Carnaval em Olinda, os relatos de trabalhadores da Série Ouro no Rio de Janeiro e o protagonismo de mulheres e iniciativas periféricas que mantêm a festa pulsando ao longo do ano.
Ao destacar vozes e experiências muitas vezes invisibilizadas na imprensa tradicional, este especial reafirma o compromisso da Brasis com um jornalismo que amplia perspectivas e ilumina o que sustenta a vida cultural do país: as práticas coletivas que, ano após ano, reinventam o sentido de ocupar as ruas.
Boa leitura!
🔸 Mais do que festa, as multidões fazem parte do “DNA social” brasileiro. As estimativas deste ano indicam que mais de 65 milhões de foliões saíram às ruas no Carnaval. Algumas cidades, no entanto, têm reduzido ano após ano os investimentos na festa, com cortes destinados à logística, segurança, apoio técnico e infraestrutura que causam desafios crescentes de governança urbana. No Conversation Brasil, os pesquisadores Jannsen Santana, Daiane Scaraboto e Flavia Cardoso reforçam que o Carnaval de rua é uma identidade coletiva que precisa ser cuidada. “Em essência, cuidar das multidões é preservar um patrimônio imaterial que vai além do espetáculo. É proteger a vocação brasileira de ocupar a rua, compartilhar espaços e transformar encontros coletivos em experiências de alegria, pertencimento e identidade comum – um legado que se renova a cada celebração e integra a cultura do país.”
🔸 Pelo terceiro ano consecutivo, blocos tradicionais de São Paulo relatam má vontade política da prefeitura, com o estreitamento das verbas, dependência extrema de patrocinadores, mudanças de horários e discursos do prefeito Ricardo Nunes (MDB) dizendo que os blocos precisam ser empreendedores e não depender de recursos públicos. A Escotilha ouviu os representantes dos blocos, que acreditam que, se a política da atual gestão for mantida, o Carnaval de rua de São Paulo será sufocado nos próximos anos. “O que está acontecendo é que a prefeitura está transformando o Carnaval muito mais em um show onde vem blocos e artistas consagrados de fora da cidade do que naquela ideia original de fortalecê-lo surgido da comunidade e da manifestação espontânea das pessoas e coletivos dos bairros”, afirma o vereador Nabil Bonduki (PT), ex-secretário de Cultura de São Paulo, que tem atuado como interlocutor entre as agremiações e os órgãos municipais.
🔸 “Acredito muito que meu território influencia meu trabalho e minha relação com o Carnaval. Foi onde encontrei minha paixão. Mesmo não exercendo atualmente a profissão de Design de Moda, sinto que ser aderecista também é muito gratificante”, afirma Victoria Tamazi, aderecista que coordena o ateliê da escola de samba Grêmio Recreativo Cultural Social Unidos de Santa Bárbara, do Itaim Paulista, distrito da zona leste de São Paulo, onde ela foi nascida e criada. A agremiação faz parte da União das Escolas de Samba Paulistanas, figurando no Grupo Especial de Bairros, que desfilam no Butantã, zona oeste. O Desenrola e Não Me Enrola narra a trajetória de Victoria e ressalta o protagonismo dos trabalhadores do Carnaval de base – quem faz a folia acontecer fora do sambódromo, fortalecendo os blocos de rua e agremiações de bairro.
🔸 Na “série B” do Carnaval carioca, trabalhadores enfrentam condições precárias, jornadas exaustivas, atrasos salariais e falta de segurança nos barracões onde produzem fantasias e alegorias. A Repórter Brasil revela que a insalubridade é uma marca das escolas do grupo de acesso do carnaval carioca. Sem contratos formais e com orçamento muito inferior ao do Grupo Especial, os profissionais chegam a trabalhar mais de 16 horas por dia e, em alguns casos, dormem nos próprios galpões, sem água potável, ventilação ou equipamentos de proteção. A precariedade está ligada ao atraso e à incerteza de repasses públicos: se o Grupo Especial recebeu R$ 77,8 milhões em 2026, a Série Ouro dividiu R$ 14,8 milhões entre 15 escolas e ainda aguardava contratos estaduais.
🔸 Enquanto dez das mais tradicionais agremiações de frevo de Olinda (PE) receberam juntas – e com atraso – menos de R$ 500 mil em cachês no Carnaval do ano passado, a prefeitura de Mirella Almeida (PSD) destinou quase R$ 3 milhões para aproximadamente 30 artistas e bandas de pequeno porte sem histórico de tradição na cena cultural local. A Marco Zero analisou os 407 contratos artísticos e revela um padrão de cachês, que chegavam a R$ 70 mil, para apresentações em polos descentralizados e blocos da periferia, vários ligados a políticos, como o vereador Felipe Nascimento (PSD), marido de Mirella, e o ex-prefeito Lupércio Nascimento (PSD), tio de Felipe. Os termos de autorização das contratações da folia de 2025 foram assinados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Inovação e Tecnologia, cujo orçamento não menciona a palavra “Carnaval”, de acordo com a lei orçamentária.
🔸 Cartão-postal do Carnaval pernambucano, o caboclo de lança guarda segredos e responsabilidades espirituais que muitas pessoas não conhecem e que são passados de geração a geração. “No domingo de Carnaval logo cedo, o caboclo de lança vai para um riacho tomar seu banho de limpeza. Quando não tem o riacho – porque estão acabando com a natureza –, aí se toma um banho de ervas de limpeza [dado por uma rezadeira] e então se pode brincar os três dias de Carnaval tranquilo”, afirma Manoelzinho Salustiano, diretor da Associação de Maracatus de Baque Solto. A Revista Afirmativa mergulha no mistério, resistência e ancestralidade que marcam a história do caboclo de lança, uma das figuras mais enigmáticas e icônicas do maracatu de baque solto, manifestação reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
🔸 “A mulher é o coração do Carnaval, do desfile. É o principal, e nós não nos valorizamos”, afirma Dona Guesinha, matriarca da Mangueira, escola de samba do Rio de Janeiro. O Nonada mostra como as mulheres são fundamentais para manter viva a tradição do Carnaval e do samba em suas comunidades. Essas matriarcas são mulheres negras reconhecidas por décadas de dedicação à festa e os saberes coletivos que pulsam nas quadras e nas ruas. Esse protagonismo feminino enfrenta não apenas a invisibilidade de seu trabalho, mas também as desigualdades sociais e raciais que marcam suas experiências. O sustento para a luta é o amor pela comunidade, que inspira novas gerações a cultivarem a autoestima e a memória para dar continuidade ao legado.
🔸 No Recife, o Obirin se consolidou como o primeiro bloco de samba-reggae feminino da cidade e transforma o Carnaval em instrumento de enfrentamento ao racismo e ao sexismo. Criado em 2019 por Ana Paula Guedes, o bloco reúne mulheres de diferentes idades e promove oficinas e ações comunitárias no Morro da Conceição durante o ano todo. No “Conversa de Portão”, produção do Nós, Mulheres da Periferia, a fundadora conta como o grupo, cujo nome significa “mulher”, nasceu com instrumentos emprestados e se tornou um espaço de acolhimento e formação política. Neste ano, o enredo do bloco se inspira nos saberes do culto afro-indígena da Jurema Sagrada para reafirmar o protagonismo e a força das mulheres racializadas na cultura popular.
🔸 Separados por 350 quilômetros, dois cortejos de Carnaval na Amazônia paraense rendem homenagem à floresta. Na Vila de Juaba, distrito de Cametá, no Baixo Tocantins, o Cordão da Bicharada reúne há 50 anos foliões fantasiados de animais para alertar sobre o desmatamento e a sobrevivência da fauna; já em Curuçá, na Região do Salgado Paraense, o Pretinhos do Mangue leva às ruas pessoas cobertas de lama para defender a preservação dos manguezais. A Carta Amazônia conta que ambos nasceram de experiências locais: o primeiro inspirado na observação das dificuldades dos animais diante da devastação da floresta, e o segundo depois de moradores não encontrarem caranguejos no manguezal, que faz parte da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá. “Sem os manguezais e sem as florestas não existe alimento, não existe vida, não existe carnaval, não existe planeta”, diz o professor César Tenório, brincante do bloco há mais de duas décadas.
🔸Em Maceió (AL), um bloco de Carnaval tem a lama como um dos principais adereços. Pintar o corpo com barro é parte da fantasia no Bloco Sururu da Lama, que homenageia a espécie de mexilhão reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do estado e transforma a lama em símbolo de alerta para a degradação da Lagoa Mundaú, da qual dependem pescadores e catadores. A Revista Alagoana destaca que o bloco, criado para reunir moradores de diferentes bairros, une a musicalidade percussiva do maracatu ao sabor do xequete – bebida à base de gengibre comum em festas e rituais religiosos de matriz afro-alagoana – e, claro, do tradicional caldinho de sururu. “Somos de Maceió, com vivência direta com a lagoa. A lama é uma forma de alertar para a proteção e preservação da orla lagunar, com toda a dignidade que os pescadores e catadores de sururu merecem”, explica Jeamerson dos Santos, mestre em Culturas Populares pela Universidade Federal de Sergipe e um dos organizadores do bloco.

