ESPECIAL: A lei antimisoginia, a resistência de mulheres trans e a luta histórica de mães escravizadas
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Olá, bom dia!
Marcado pelo Dia Internacional da Mulher, março evidenciou as contradições que atravessam a experiência de ser mulher no Brasil. Na Brasis, reunimos histórias que ajudam a dimensionar essas tensões, entre direitos em disputa, desigualdades persistentes e formas de resistência.
Neste especial, selecionamos reportagens sobre a política em torno da misoginia e dos direitos de mulheres trans, os números de feminicídios e os discursos misóginos nas plataformas digitais. Estão aqui também histórias que desafiam esse cenário: das mulheres negras que, ainda na escravidão, construíram estratégias para manter suas famílias às cientistas que seguem enfrentando barreiras na produção de conhecimento, além das trabalhadoras periféricas que sustentam rotinas exaustivas e pouco reconhecidas.
Ao reunir esses recortes, a Brasis propõe um olhar sobre as continuidades e transformações que marcam a experiência das mulheres no país – e reafirma o papel do jornalismo em tornar essas histórias visíveis.
Boa leitura!
🔸O Senado aprovou por unanimidade o projeto de lei que criminaliza a misoginia no Brasil, inserindo o crime na Lei do Racismo com penas de até cinco anos de prisão. Conhecido como PL antimisoginia, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), o projeto que agora segue para a Câmara ganhou força após casos recentes de violência de gênero – só em 2025, o país registrou 1.568 feminicídios, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A Agência Lupa mostra que, apesar da aprovação, houve mobilização de parlamentares bolsonaristas para tentar adiar a votação. Nas redes, grupos alinhados a Jair Bolsonaro (PL) difundem narrativas em dois eixos: o primeiro sustenta que a aprovação da lei levaria à censura nas redes sociais, e o segundo afirma que o projeto imporia agendas ideológicas contrárias a valores tradicionais. A reportagem destaca que o projeto de lei não pune pensamentos, mas a exteriorização dessas condutas, com ofensas, discriminação ou incitação à violência.
🔸 Falando em misoginia… A ausência de dados raciais nos registros de violência contra mulheres compromete a formulação de políticas públicas eficazes no Brasil. A avaliação é de pesquisadores da Rede de Observatórios da Segurança, autores do boletim “Elas vivem: a urgência da vida”, lançado em março de 2026. Segundo o documento, 86,7% dos casos monitorados não trazem informação sobre raça ou cor das vítimas, o que dificulta identificar quais grupos estão mais expostos à violência. A Alma Preta destaca que o problema afeta sobretudo populações vulneráveis, como mulheres negras e meninas indígenas, cujas realidades deixam de aparecer no debate público. Sem considerar fatores como raça, território e etnia, a leitura da violência permanece incompleta.
🔸 A eleição de Erika Hilton (PSOL-SP) para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados abriu espaço para novos ataques transfóbicos no Congresso contra a deputada. O canal MyNews destaca que aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) tentaram barrar sua eleição com votos em branco e discursos que questionaram sua legitimidade para representar a comissão. A deputada terminou eleita com 11 votos, contra dez em branco. Em resposta às críticas, Hilton afirmou: “As mulheres violentadas, estupradas, espancadas esperam dessa comissão uma responsabilidade efetiva. Vamos lembrar aqui, sim, queiram ou não queiram, que mulheres transexuais e travestis não serão abandonadas nessa discussão”.
🔸 Erika Hilton, aliás, já apresentou ao menos 26 proposições relacionadas aos direitos das mulheres desde 2023, início de seu mandato. Levantamento da Agência Diadorim mostra que os projetos de lei de autoria da deputada tratam de temas como violência de gênero, saúde reprodutiva, trabalho e reconhecimento histórico. Um deles é o PL 950/2023, que cria a chamada Licença Maria da Penha, que prevê licença remunerada para vítimas de violência doméstica. Também há projetos que ampliam a proteção a vítimas de crimes sexuais e determinam atendimento especializado para mulheres transexuais e travestis na Central de Atendimento à Mulher. Ela ainda é autora de medidas para ampliar o acesso a informações sobre aborto legal e a proposta que institui a Política Nacional de Prevenção e Enfrentamento ao transfeminicídio.
🔸A propósito: grupos de mulheres cis têm se articulado com setores da ultradireita para restringir direitos de pessoas trans, sob o discurso de proteção a mulheres e crianças. No Brasil, essa atuação ganhou força com a criação da associação Matria, em 2023, que profissionalizou a incidência política por meio de advocacy, ações judiciais e alianças institucionais para barrar ou reverter direitos já conquistados. Hoje, a Matria tem 300 associadas e 50 mil seguidores nas redes sociais. A Revista AzMina destrincha o funcionamento desses grupos que se inserem em uma ofensiva antigênero global. A estratégia combina atuação institucional com construção de narrativas baseadas em “pânico moral”, especialmente em temas como banheiros, esporte e infância.
🔸“Às vésperas do 8 de Março, Dia Internacional das Mulheres, um estupro coletivo no Rio de Janeiro me faz lembrar do tipo de engrenagem que carimba a vergonha em quem sofre a violência. A vítima, uma jovem de 17 anos violentada, sentiu-se culpada, envergonhada, desacreditada de que teria sofrido, de fato, uma violência, segundo relatou a mãe”, escreve a jornalista Paula Guimarães. No Portal Catarinas, ela reflete sobre como a cultura do estupro e os discursos misóginos e antifeministas legitimam a violência contra as mulheres. “Por alguns dias, instala-se a sensação de que algo absolutamente fora da ordem aconteceu. Mas esse espanto cumpre também outra função: a de encobrir o que é rotineiro. Ao tratar o caso como exceção monstruosa, empurra-se para debaixo do tapete o cotidiano de violências naturalizadas: o controle, a desqualificação constante, a culpabilização.”
🔸No YouTube, canais de ataque a mulheres continuam se expandindo e ganham mais seguidores. É o que mostra a atualização de um estudo do NetLab UFRJ, divulgado nesta segunda-feira. Dos 137 canais que atacam mulheres identificados em 2024, 123 seguem ativos, uma redução de apenas 10% na plataforma. A Fast Company Brasil detalha os resultados do trabalho e mostra que a audiência desses canais cresceu: entre abril de 2024 e março de 2026, o número de inscritos passou de 19,5 milhões para cerca de 23 milhões, um aumento de 18,55%. Segundo o levantamento, alguns canais mudaram de nome e retiraram referências explícitas à “machosfera”. Segundo a ONU Mulheres, machosfera é o termo usado para se referir a grupos que se opõem ao feminismo e difundem a ideia de que homens seriam “vítimas” do cenário social e político atual.
🔸A propósito: no TikTok, uma trend chamada “Se ela disser não” viralizou com vídeos que simulam violência contra mulheres após um pedido de casamento recusado. Os usuários encenam agressões, como chutes, socos ou disparos com armas de brinquedo, caso a companheira (imaginária no vídeo, representada por bonecos ou sacos de box) diga “não”. O Núcleo explica que a trend não é nova – há postagens de 2023 –, mas viralizou com a proximidade do Dia Internacional da Mulher, no último domingo. Um dos vídeos mais vistos foi publicado pelo influenciador Yuri Meirelles e chegou a quase 200 mil curtidas antes de ser removido após críticas. “A trend envolve engajamento. Então é diferente de só as pessoas estarem sendo expostas a um conteúdo violento. A gente está falando de um movimento, mesmo que rápido, fugaz, que se instaura ali numa comunidade de pessoas que estão produzindo aquela trend”, afirma Mariana Valente, pesquisadora do InternetLab. Após ser procurado pela reportagem, o TikTok afirmou ter removido os 15 links enviados com conteúdos da trend.
🔸Os casos de violência sexual e estupro cresceram 56,6% em um ano em nove estados brasileiros, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança, que registrou 961 vítimas em 2025. O estudo combina registros policiais com o monitoramento diário de casos de violência noticiados na imprensa, depois cruzados e consolidados em um banco de dados. Segundo o documento, mais da metade das vítimas foram crianças e adolescentes de até 17 anos. O Colabora detalha que existem diferenças regionais marcantes: o Amazonas lidera os registros de violência sexual, com 353 vítimas – das quais 78,4% tinham até 17 anos –; já o Pará registrou aumento de 167,4% nesses crimes. No total de mulheres vítimas de violência, os dois estados ficam atrás apenas de São Paulo, que teve 1.177 casos no ano passado.
🔸A propósito: Lula sancionou uma lei que altera o Código Penal para reforçar a presunção absoluta de vulnerabilidade no crime de estupro de vulnerável. O Bahia Notícias informa que a norma estabelece que essa condição não pode ser relativizada por fatores como consentimento, experiência sexual anterior, relacionamento com o agressor ou gravidez decorrente da violência. “Com essa mudança em nosso Código Penal, agora não há mais brechas para relativizações (...). Mais uma medida importante para fechar o cerco a quem comete esse crime brutal. Em pleno século 21, não podemos mais aceitar esse tipo de violência contra nossas meninas”, escreveu o presidente nas redes sociais.
🔸A conquista do voto feminino completou 94 anos no final de fevereiro – e a alagoana Almerinda Farias Gama (1899-1999) teve papel central nessa luta. Mulher negra, ela foi advogada, jornalista, sindicalista e um dos principais nomes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, no Rio de Janeiro, pela sufragista Bertha Lutz. A Revista Afirmativa narra a trajetória de Almerinda e conta como ela atuou como articuladora política, porta-voz do movimento e responsável por levar o debate feminista à imprensa. “A história das mulheres já é negligenciada e, sendo ela uma mulher negra, essa exclusão se aprofunda. Apesar de sua intensa e longeva atuação política, Almerinda morreu com quase cem anos sem o devido reconhecimento”, afirma Cibele Tenório, jornalista e autora do livro “Almerinda Gama: A Sufragista Negra”.
🔸Mulheres das periferias sustentam duplas e triplas jornadas de trabalho, entre funções fixas, bicos e cuidados domésticos. Mãe solo de duas adolescentes, a pedagoga Vanessa Santos de Oliveira, por exemplo, soma as 40 horas de trabalho formal a 12 horas dedicadas à renda extra, além do trabalho não remunerado de cuidado. A Agência Mural mostra a realidade de mulheres periféricas – em maioria, negras – que fica invisível em pesquisas sobre produtividade e emprego no país. “Não podemos negligenciar o trabalho doméstico e a economia do bico, que é muito comum no Brasil. Não contar essas horas [de ocupação] e dizer que as mulheres trabalham menos é injusto. É preciso levar em conta questões de gênero e raça, que são características estruturantes do nosso mercado de trabalho”, afirma Mônica Gurjão, doutora em psicologia social do trabalho.
🔸“Eu continuo cantando, para a gente acreditar, mas com muito pé no chão, com muita consciência. Não podemos perder a esperança na vida, o olhar de beleza para a vida, mas também não podemos nos isentar de estar a par das lutas”, afirma Drik Barbosa, uma das principais referências do rap feminino no Brasil. Ela começou a escrever suas letras aos 14 anos, e hoje, aos 34, acredita que a música a ajudou a trilhar o caminho do amor próprio. Ao Nós, Mulheres da Periferia a artista fala sobre a importância de cantar suas subjetividades e não permitir ser desumanizada pelo mercado musical. Drik também conta sobre a experiência do Rimas & Melodias, grupo musical de hip-hop e soul criado em 2016, composto por ela, Alt Niss, Karol de Souza, Mayra Maldjian, Stefanie, Tássia Reis e Tatiana Bispo. “Subir no palco com sete mulheres, cada uma com a sua identidade, com a sua voz, com a sua forma de ver o mundo. Isso inspirou muitas mulheres.”
🔸Essenciais para diversas descobertas ao longo da história, como a estrutura do DNA, mulheres ainda sofrem para desenvolver carreira acadêmica em diferentes áreas do conhecimento. Entre desigualdades de financiamento, jornadas duplas e tentativas de silenciamento, as pesquisadoras ainda precisam lutar pelo reconhecimento do próprio trabalho. O “Pauta Pública”, produção da Agência Pública, conversa com a física Marcia Cristina Barbosa, professora titular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde já foi reitora, e integrante da Academia Brasileira de Ciências. A cientista reflete sobre os desafios das mulheres na produção científica, como o assédio e o chamado “efeito tesoura” – quando mulheres, apesar de serem a maioria na graduação, tornam-se minoria nos mestrados e doutorados, com uma queda ainda maior nos cargos de liderança.
🔸“No Brasil, um dos legados mais perversos da escravidão é a dificuldade de reconstruir as histórias e genealogias das famílias dos escravizados”, escreve Alexandra Lima da Silva, professora e líder do grupo de pesquisa Eleko: Direitos Humanos, Educação e Interseccionalidades, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Em artigo no Conversation Brasil, ela mostra como pesquisas recuperam trajetória de famílias de mães escravizadas e afirma que, ao contrário da ideia de passividade, essas famílias desenvolveram projetos próprios de liberdade, liderados especialmente por mulheres negras. A pesquisadora conta que acompanha as experiências de liberdade de uma família negra, cuja matriarca era uma africana escravizada, Luíza. Mãe de dois filhos, nascidos na escravidão, no Rio de Janeiro, ela precisou escolher qual filho libertar. Optou pela filha, com a expectativa de garantir a liberdade das gerações futuras. “Apesar de liberta, e de ter libertado a filha, Luíza conviveu até o fim da vida com a dor de não ter conseguido libertar seu filho”, conta. Ele, por sua vez, conseguiu se libertar algumas décadas depois. Era Israel Antonio Soares, que se tornou abolicionista e criou iniciativas educacionais para pessoas negras, como uma escola noturna no século 19.

