ESPECIAL: O fim da escala 6x1, os trabalhadores rurais e a sobrecarga de mulheres negras
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Olá, bom dia!
A Câmara dos Deputados aprovou nesta semana a PEC que reduz a carga semanal de 44 para 40 horas e prevê dois dias de descanso para trabalhadores. Agora, a proposta segue para o Senado em meio à pressão de empresários e diferentes setores políticos.
Neste especial da Brasis, reunimos reportagens que revelam como o debate sobre o fim da escala 6x1 ultrapassa a discussão sobre jornada de trabalho e expõe estruturas profundas da sociedade brasileira. Mostramos nesta edição como esse modelo afeta o desenvolvimento de crianças que crescem longe dos pais exaustos pela rotina de trabalho e amplia a sobrecarga histórica das mulheres, sobretudo negras e periféricas, cuja jornada não termina quando acaba o expediente. As reportagens também analisam formas contemporâneas de precarização, como a “uberização” do trabalho doméstico, e revelam como argumentos usados hoje contra a redução da jornada dialogam com discursos que outrora serviram à defesa da escravidão.
Ao reunir investigações, análises e histórias produzidas por organizações associadas à Ajor, esta edição da Brasis reafirma a força do jornalismo digital brasileiro para ampliar o debate público e expor o que está em disputa quando o país discute tempo, trabalho e direito ao descanso.
Boa leitura!
🔸A Câmara dos Deputados aprovou em dois turnos a PEC que acaba com escala 6x1. A proposta, que reduz a jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, teve 472 votos favoráveis e 22 contrários no primeiro turno. Na segunda votação, foram 461 a favor e 19 contra. Principal item na agenda legislativa do governo para 2026, o fim da escala de trabalho 6x1 recebeu amplo apoio em Plenário por parte de deputados da base aliada, que defendeu a proposta como forma de fortalecimento dos direitos trabalhistas. Todos os partidos orientaram o voto favorável à proposta, com exceção do Novo e Missão. O Congresso em Foco explica que o texto estabelece a implementação gradual da nova jornada. Após 60 dias da promulgação, a carga horária cairá para 42 horas semanais e, um ano depois, para 40 horas. A PEC também permite escalas flexíveis em áreas essenciais, como saúde e segurança pública, e abre espaço para negociações específicas em categorias consideradas “hipersuficientes”.
🔸 Aliados do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmam que ele deve ter “boa vontade” na tramitação da PEC na Casa. Segundo o Metrópoles, Alcolumbre pretende ouvir parlamentares e setores envolvidos no debate. Na última terça-feira, ele se reuniu com representantes da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI) para discutir o tema. Mesmo após o desgaste entre governo Lula e Senado por causa da derrota de Jorge Messias na Casa, auxiliares do presidente Lula (PT) avaliam que Alcolumbre não deve criar obstáculos à PEC.
🔸 Parte dos lobistas que atuaram no Congresso contra o fim da escala está ligada a empresas com dívidas trabalhistas e fiscais. O Intercept Brasil revela que, das 66 pessoas ou entidades indicadas por deputados para audiências na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), 52 eram representantes do setor empresarial, o equivalente a 78,8% do total. Um deles é Fernando Valente Pimentel, diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção, que consta como inadimplente no Banco Nacional de Devedores Trabalhistas e tem empresas associadas a débitos milionários com a União. Outro exemplo é Paulo Solmucci, presidente-executivo da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, cujas empresas somam cerca de R$ 6,9 milhões em dívidas ativas, embora ele afirme não ter débitos pessoais.
🔸 Trabalhadores rurais podem ficar de fora da primeira etapa da proposta. Embora dados da Oxfam Brasil revelem que 45% dos assalariados rurais trabalhavam mais de 40 horas semanais em 2025 e que 23% ultrapassavam o limite legal de 44 horas, eles ficarão para depois. A Agência Pública explica que as especificidades de categorias como o trabalho agrícola deve ficar para projetos futuros. O agronegócio, por sua vez, já pressiona para participar das discussões e cobra compensações para o setor – e o presidente da comissão especial da Câmara, Alencar Santana (PT-SP), reconheceu: “Haverá pressão de parte do agro, sim, mas nós vamos demonstrar a realidade do trabalhador atualmente. O trabalhador brasileiro está doente, exausto física e mentalmente, seja na cidade, seja no campo, e nós temos de melhorar a vida dele”.
🔸 As semelhanças da defesa da escravidão e da escala 6x1 não são apenas discursivas. Os padrões escravocratas se mantêm nas relações entre patrões e empregados no país, como afirma Ynaê Lopes, autora do livro “Racismo Brasileiro”: “O que de fato sustenta esse discurso da escala 6x1 é a certeza de que eu posso explorar quem eu quiser. Essa certeza é fruto da escravidão e da forma como as elites brasileiras lidaram com o fim da escravidão no passado”. A Alma Preta traça paralelos entre os discursos usados no século 19 para defender a escravidão e os argumentos atuais contra o fim da escala 6x1. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) apresentou um projeto de lei para compensar gastos extras de empresários com a mudança da jornada de trabalho. Criador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Rick Azevedo comparou a proposta com os pedidos feitos por escravizadores antes da Lei Áurea de 13 de maio de 1888: “Nikolas quer que vocês indenizem os patrões, como queriam no fim da escravidão.”
🔸 A propósito: sustentado por décadas pelas raízes escravocratas do Brasil, o trabalho doméstico vive uma nova onda de precarização por meio da “uberização”, aprofundando desigualdades históricas sob a roupagem de modernização e inovação. Atualmente, existem ao menos 15 plataformas no país que oferecem serviços como limpeza, cuidados com crianças e idosos, cozinha e faxina pós-obra, tanto residencial quanto comercial. Em artigo na Gênero e Número, a jornalista Fernanda Valienti analisa a situação das trabalhadoras domésticas em plataformas, em que o pagamento é feito por diária, hora ou serviço prestado, sem garantia automática de direitos trabalhistas, como férias remuneradas, FGTS, 13º salário, licença ou estabilidade. “Não é aceitável que empresas lucrem com a intermediação desses serviços sem assumir compromissos com proteção legal, acesso à seguridade social, transparência algorítmica, remuneração digna, mecanismos efetivos de denúncia e reparação, além do direito à negociação coletiva”, afirma.
🔸 O fim do modelo 6x1 tende a beneficiar especialmente as mulheres negras e de baixa renda, por reduzir a sobrecarga gerada pela combinação entre trabalho remunerado e responsabilidades domésticas. O Catarinas destaca que, hoje, elas dedicam em média quase o dobro do tempo que os homens aos cuidados da casa e da família. “A nossa escala não é 6x1, ela é 7x0. Mesmo quando estamos em casa, estamos trabalhando. É uma consequência do machismo estrutural, da sociedade que pensa que a responsabilidade pelo cuidado é exclusiva das mulheres”, afirma a secretária da Mulher Trabalhadora da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Amanda Corcino. A reportagem lembra ainda que as mulheres são maioria nos postos de trabalho que utilizam a escala de 44h, representando 56% do total, além de receberem salários menores.
🔸 A escala de 44 horas é também uma das causas da ausência parental e tem efeitos diretos no desenvolvimento de crianças e adolescentes e no vínculo familiar. “Eu não vou nem avisar pra minha mãe, ela não tem tempo pra vir mesmo”, afirmou Matheus, 12 anos, ao levar uma advertência na escola por causa de seu comportamento. Sua mãe, Lucélia Gomes, é auxiliar de cozinha e trabalha de segunda a sábado. Quando chega do trabalho cansada, seus filhos já comeram, já fizeram a lição – sozinhos ou com a ajuda da avó de 65 anos, a única rede de apoio que eles têm: “É muito triste você ver que seus filhos estão crescendo e você só participa pelo que a avó conta”. O Lunetas mostra como a jornada de trabalho impacta o crescimento e desenvolvimento infanto-juvenil. “Se eu tivesse mais tempo, queria ensinar a lição, brincar mais, ficar mais junto”, diz Lucélia.
🔸 Um trabalhador médio levaria 490 anos para receber o equivalente ao salário anual de um CEO, segundo estudo da Oxfam e da Confederação Sindical Internacional (CSI). A pesquisa mostra que, entre 2019 e 2025, os salários reais dos trabalhadores caíram 12%. Já a remuneração de executivos cresceu 54%, chegando a uma média de US$ 8,4 milhões por ano. O Vocativo destrincha o levantamento, feito com dados de 1.500 empresas em 33 países, e mostra que os ganhos econômicos recentes foram apropriados de forma desproporcional pelo topo da pirâmide. Os dez CEOs mais bem pagos do mundo receberam juntos mais de US$ 1 bilhão em 2025 – e os trabalhadores perderam poder de compra em meio à inflação e à estagnação salarial. A Oxfam afirma ainda que bilionários ampliaram influência sobre governos, mídia e decisões econômicas, inclusive no Brasil.

