Olá, bom dia.
Esta é a edição especial mensal da Brasis. Desta vez, está um pouco diferente: escolhi olhar para a força do jornalismo digital brasileiro antes e durante as eleições. Por isso, a seleção vai além dos destaques de outubro e recupera histórias como a revelação, pelo Intercept Brasil, dos áudios entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, ainda em maio, que ecoaram ao longo dos meses seguintes e desaguaram na campanha.
Você encontrará também apurações da revista piauí, da Agência Pública e de outras organizações associadas à Ajor que ajudaram a calibrar olhos e ouvidos dos cidadãos em meio ao período mais importante para a democracia. Documentos, cruzamentos de dados, mensagens extraídas de celulares e relatos de testemunhas sustentaram investigações incansáveis que expuseram relações entre dinheiro e poder.
Os jornalistas também se dedicaram a examinar propostas, checar discursos, ouvir populações indígenas e moradores de periferias e acompanhar as condições para o exercício do direito ao voto. Esse trabalho levou ao debate público informações que os candidatos precisaram enfrentar e os eleitores puderam considerar em suas escolhas.
Nós, jornalistas, sempre afirmamos que a profissão existe para informar a sociedade e fiscalizar os poderes. Nesta campanha, vimos esse propósito ganhar concretude: reportagens alimentaram conversas, mobilizaram as redes e as ruas, ajudaram as pessoas a compreender o que estava em jogo e a agir em defesa de seus direitos. Esta edição é uma homenagem a esse trabalho e um reforço dessa convicção.
Boa leitura,
Audrey Furlaneto
editora da Brasis
📌 Um dos furos mais importantes da história recente do país veio do Intercept Brasil, ainda em maio – e repercutiu ao longo de toda a campanha eleitoral, alimentando novas apurações e cobranças dos adversários de Flávio Bolsonaro. A reportagem não só foi a primeira a revelar áudios que evidenciam a proximidade entre o filho de Jair Bolsonaro e o banqueiro, como também antecipou como a mentira seria um recurso adotado pelo candidato do PL ao longo de toda a campanha à Presidência.
🔸 Horas antes da publicação da notícia, questionado em Brasília sobre o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o senador negou a relação em tom de deboche. Em seguida, o veículo revelou o áudio que reverberaria ao longo dos próximos meses: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, disse Flávio ao banqueiro em novembro de 2025, um dia antes de sua prisão. As conversas e os documentos revelados pelo Intercept mostraram que o senador negociou cerca de R$ 134 milhões para financiar “Dark Horse”, com cobranças diretas pelos repasses.
🔸 A investigação também expôs uma articulação para levar Jair Bolsonaro à mansão de Vorcaro em Brasília, onde assistiriam a outro documentário sobre o ex-presidente, e um contrato que colocava Eduardo Bolsonaro como produtor-executivo de “Dark Horse”, com participação na captação de recursos e nas decisões financeiras, contrariando sua versão de que apenas cedera direitos de imagem. A Polícia Federal passou a apurar se parte do dinheiro de Vorcaro custeou despesas do deputado cassado nos EUA, onde o Intercept identificou a mansão de R$ 6 milhões onde Eduardo mora no Texas, apesar das alegadas dificuldades financeiras.

📌 Áudios, mensagens de celular, documentos bancários, relatos de testemunhas e o trabalho incansável dos repórteres da revista piauí permitiram à publicação revelar relações entre dinheiro e poder que atravessaram a disputa eleitoral.
🔸 Ana Clara Costa, João Batista Jr. e Breno Pires reconstituíram, a partir de 125 mensagens, uma festa do banqueiro da qual o ministro do STF e presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, teria participado, com garotas de programa em seu tríplex em São Paulo.
🔸 Em parceria com o InterSecLab, a revista mapeou 41,6 mil interações de Vorcaro com políticos: sete ex-integrantes do governo Bolsonaro concentravam 71% dos contatos.
🔸 Sobre Flávio Bolsonaro (PL-RJ), documentos obtidos pela revista apontaram uma sociedade indireta na Best Bet, ligada ao advogado Willer Tomaz, sob suspeita de participação oculta investigada pela Polícia Federal. O senador figurava como “usuário máster” de uma conta da Alcazar, empresa de Tomaz com vínculos societários e contábeis com a controladora da casa de apostas.
🔸 A piauí revelou ainda que Flávio recebeu um Rolex durante um passeio de lancha organizado por empresários interessados em negociar vacinas com o governo de seu pai. O encontro ocorreu em 17 de julho de 2020, dia em que o Brasil registrou 1.110 mortes por Covid.

📌 Os jornalistas investigativos foram obstinados na busca por informações exclusivas, entrevistas e fontes que foram amplamente republicadas, pautaram outros veículos e fizeram avançar histórias que mobilizaram a atenção do país. A Agência Pública levou ao debate eleitoral suspeitas de corrupção, relações empresariais e os efeitos das apostas sobre a vida dos brasileiros.
🔸 A redação detalhou os laços de Willer Tomaz, amigo de Flávio, com o Careca do INSS e revelou suspeitas de corrupção e omissão nos hospitais federais do Rio sob influência do senador durante o governo de seu pai. A apuração virou uma “missão” no canal Exército do Lula: André Janones (Rede-MG) orientou os participantes a pesquisar “Flávio Bolsonaro esquema pandemia”, busca que levava à reportagem. O assunto depois chegou ao debate da Band como questionamento ao candidato.
🔸 A Pública também investigou bloqueios da Meta a conteúdos favoráveis a Lula e contrários a Flávio, sob alegações de terrorismo e nudez, e relata ter enfrentado censura de uma publicação na véspera do segundo turno.
🔸 No especial “Jogo Perigoso: o Brasil das Bets”, contou a história da professora Vânia de Souza Borges, que perdeu o filho, Rafael, para o vício em apostas. Durante a campanha, Vânia levou pessoalmente a Lula o pedido de proibição das bets – e foi atendida.

📌 O jornalismo também voltou suas apurações para a Internet, os canais de mensagens e ferramentas de inteligência artificial que participam da circulação de informação. Núcleo, Aos Fatos e Lupa investigaram práticas de propaganda e acompanharam o uso das plataformas. Ao longo do período eleitoral, o trabalho de checagem, que examinou discursos e centenas de conteúdos que circularam nas redes, ganhou apoio da população, que se mobilizou para que fosse apresentado ao vivo no debate do segundo turno.
🔸 O Núcleo revelou que clubes de tiro promoviam descontos em armas, munições e serviços com referências ao número de urna de Flávio Bolsonaro, apesar da proibição de propaganda eleitoral por pessoas jurídicas. As ofertas incluíam abatimentos de 22% e benefícios condicionados à derrota de Lula. Em outra frente, testou a IA da Meta no WhatsApp e reproduziu o tratamento desigual relatado por usuários: o chatbot criou uma estampa com “Flavio, PL e o número 22”, mas recusou o pedido equivalente com “Lula, PT e o número 13”.
🔸 A partir de levantamento do instituto Democracia em Xeque, o Aos Fatos identificou 17 conteúdos falsos ou enganosos publicados pela “Tropa do Flávio” entre 7 e 13 de outubro. As mensagens somavam quase 92 mil reações; sete distorciam falas de Lula, inclusive para sugerir que ele não acreditava em Deus. Eram mais de duas mensagens falsas por dia no canal do candidato do PL.
🔸 A Agência Lupa, por sua vez, levantou 30 ações da campanha de Flávio no TSE para retirar conteúdos classificados por ela como notícias sabidamente falsas, mais que o dobro das 14 apresentadas pela campanha petista. Embora prometesse um “tesouraço na censura”, o senador assinou pessoalmente 29 pedidos.
🔸 A Lupa também expôs os obstáculos à checagem ao vivo nos debates de televisão. Desde 2015, negocia com emissoras formatos como letreiros na tela e intervenções entre blocos, mas as propostas esbarram na resistência de campanhas de diferentes campos políticos, no recuo dos organizadores e em dificuldades jurídicas.

🌳 Para além de Brasília e do eixo Rio-São Paulo, o jornalismo independente acompanhou a disputa eleitoral na maior floresta tropical do mundo. Na Amazônia, ouviu os povos indígenas, investigou os interesses que pressionam seus territórios e mostrou os obstáculos para que suas vozes chegassem às urnas.
🔸 A Sumaúma acompanhou o avanço bolsonarista em pelo menos sete dos nove governos estaduais e cruzou votos, desmatamento e atividades econômicas: Flávio Bolsonaro venceu no primeiro turno em oito dos dez municípios mais desmatados e nos dez com maiores rebanhos bovinos. Também revelou barreiras ao voto de indígenas e ribeirinhos – mais de 70% das Terras Indígenas não têm locais de votação. Por fim, acompanhou a mobilização de indígenas que viajaram por dias para votar em Lula, motivados pela defesa de seus territórios.

📙 As organizações examinaram planos de governo, confrontaram promessas com o histórico dos candidatos e ouviram as demandas da população. Essa cobertura ajudou a esclarecer o que estava sendo proposto, quais políticas já existiam e quem permanecia fora dos programas.
🔸 O Joio e O Trigo analisou as propostas de combate à fome e constatou que apenas Lula, entre os cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas, detalhava políticas para o tema, enquanto todos dedicavam atenção ao agronegócio.
🔸 A revista AzMina comparou os compromissos com mulheres e LGBTQIA+, apontando a falta de detalhamento e a repetição de iniciativas existentes. O programa de Flávio Bolsonaro não apresentava medidas específicas para mulheres negras, indígenas ou trans.
🔸 O MigraMundo examinou a política migratória, contextualizando as promessas de acolhimento de Lula com avanços e restrições adotados em seu governo; Flávio não apresentou propostas específicas.
🔸 O Voz das Comunidades ouviu moradores e comparou as promessas para favelas: nenhum dos candidatos dedicou um capítulo próprio a esses territórios ou detalhou o orçamento de cada proposta.
🔸 Já a Amazônia Vox confrontou o discurso ambiental de Flávio com seu programa e sua atuação no Senado, apontando contradições entre as promessas de fiscalização e o combate aos chamados “entraves ambientais”.

Excelente edição!