ESPECIAL: A Copa das bets, as arquibancadas elitizadas e as tradições que resistem
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Olá, bom dia!
Primeira Copa do Mundo disputada por 48 seleções, realizada simultaneamente em três países e sob um cenário de tensões migratórias, crise climática e inteligência artificial, o Mundial de 2026 amplia discussões que extrapolam o futebol. Como acontece com grandes acontecimentos globais, a competição funciona como um observatório do presente.
Neste especial da Brasis, reunimos reportagens que mostram como a Copa deste ano expõe tensões que já fazem parte do debate social. As histórias selecionadas revelam os efeitos das políticas migratórias de Donald Trump sobre delegações, discutem desigualdades raciais e de gênero que atravessam o torneio e investigam a expansão das apostas esportivas e o uso crescente de inteligência artificial no Mundial. A edição também acompanha como a crise climática já interfere nos jogos e mostra iniciativas que preservam o caráter comunitário da Copa, das ruas enfeitadas em Salvador aos álbuns de figurinhas compartilhados entre crianças em São Paulo.
A curadoria desta edição também reforça a importância do jornalismo diverso e plural, capaz de fazer de um evento global mais uma oportunidade para compreender e questionar a realidade.
Boa leitura!
🔸A Copa do Mundo de 2026 começou no dia 11 de junho sob críticas à política migratória dos EUA, sede do torneio ao lado de México e Canadá. Em entrevista à Agência Pública, a advogada especializada em direito migratório Marta Mitico Valente afirma que as restrições de entrada impostas pelo governo de Donald Trump não violam o direito internacional, já que prevalece a soberania dos países para definir suas regras migratórias. Ela considera, porém, que a Fifa falhou ao não negociar mecanismos especiais para garantir a entrada de atletas, árbitros e integrantes das delegações. O desconforto diplomático já começou, com casos como a exclusão do árbitro somali Omar Artan após ter o visto negado, além de dificuldades enfrentadas por integrantes das delegações do Irã, Uzbequistão e Senegal. “A Fifa deveria realmente se insurgir, as nações deveriam realmente se insurgir e não aceitar esse tipo de medida”, afirma.
🔸 O torneio deste ano tem número recorde de jogadores da diáspora. São 298 atletas que defendem seleções diferentes do país onde nasceram, o equivalente a 23,1% dos convocados do torneio – um salto em relação aos 137 registrados na Copa de 2022. Apenas oito seleções, entre elas o Brasil, convocaram exclusivamente atletas nascidos em seu próprio território. O Nexo explica que a ampliação desse fenômeno está ligada aos fluxos migratórios globais e às regras da Fifa, que permitem a mudança de seleção em determinadas condições. O caso é mais visível em seleções africanas e caribenhas. Curaçao, estreante em Copas, levou 25 jogadores nascidos na Holanda; a República Democrática do Congo convocou 20 atletas nascidos fora da África; e Marrocos conta com 19 jogadores nascidos no exterior, muitos deles na França e na Espanha. O Haiti também se destaca, com 12 atletas nascidos em território francês.
🔸 Há um padrão recorrente nos jogos de seleções latino-americanas: em campo, atletas negros, indígenas e árabes; nas arquibancadas, um público majoritariamente branco e de maior poder aquisitivo. A avaliação é do jornalista Pedro Borges, em análise na Alma Preta. Para ele, o alto custo dos ingressos reproduz desigualdades raciais históricas nas Américas e na Europa e transforma o torneio em um espetáculo acessível sobretudo às elites, um privilégio. “E privilégio nas Américas sempre estará relacionado à branquitude, que construiu seu status social sobre negros e indígenas, grupos vítimas de processos de aniquilação, exploração e empobrecimento”, lembra Borges. Ele também relaciona a presença crescente de atletas negros e descendentes de imigrantes em seleções europeias ao avanço simultâneo de políticas anti-imigração. “O mesmo jogo que se tornou popular no mundo por conta da atuação de Pelé, um homem negro retinto, que talvez nem pudesse assistir aos jogos caso se apresentasse na imigração como Edson.”
🔸 Outra marca da Copa 2026 é o uso recorde de dados e de IA na história do esporte. Há três camadas principais nas cadeias de valor de dados do futebol que sustentam como os jogos são vistos e gerenciados hoje. São os gráficos na transmissão, o número de probabilidade de vitória na tela, as decisões sobre tempo de jogo e táticas, o jogador que um clube acabou de contratar com base em dados. Em artigo no Outras Palavras, o pesquisador Rafael Grohmann mostra que por trás do “big data” estão trabalhadores invisíveis e mal pagos. “Eles assistem aos jogos e transformam cada passe, desarme e finalização em dados estruturados, correndo contra a transmissão enquanto fazem isso”, explica. “A cadeia de valor de dados no futebol também tem uma geografia. O trabalho de análise de dados de alto valor se concentra em um punhado de centros ricos, enquanto a anotação de dados se concentra em cidades no Leste Europeu, na África, no Sul da Ásia e no Sudeste Asiático.”
🔸 Empresas de tecnologia estão usando o torneio para impulsionar uma forma rápida de lançar casas de apostas esportivas ilegais no Brasil. A Agência Lupa identificou ao menos três fornecedoras que prometem colocar plataformas no ar em até 24 horas – prazo incompatível com as exigências legais, que incluem autorização e certificação do Ministério da Fazenda. Empresas como Infrabets, Inove iGaming e Grupo Midas oferecem sistemas prontos por valores entre R$ 800 e R$ 6.599 e usam vídeos, grupos de WhatsApp e anúncios para captar clientes. Em alguns casos, vendedores apresentam a ausência de controles regulatórios como vantagem competitiva e incentivam cambistas a se tornarem operadores de apostas.
🔸 O avanço das bets também se reflete na cobertura da Copa. As apostas ocupam boa parte da programação do CazéTV, canal no YouTube que, com o jogo entre Brasil e Marrocos, quebrou o recorde mundial de audiência simultânea na plataforma. O canal puxou um mutirão e conseguiu 10 milhões de seguidores em dois dias para o goleiro Vozinha, do Cabo Verde. No Intercept Brasil, a jornalista Cecilia Olliveira discute como esse poder pode convencer milhares de pessoas a apostar. As bets não estão apenas no intervalo da programação, mas também ao longo da cobertura jornalística. “Qual é o impacto disso sobre crianças e adolescentes que passam horas na televisão e no YouTube durante esses jogos?”, questiona. “Tem que proibir a propaganda como uma medida de prevenção e cuidado. (...) Não tem propaganda de arma de fogo e de cigarro, por que tem propaganda de bet?”
🔸 Com partidas interrompidas por tempestades e casos de mal-estar provocados pelo calor extremo, a Copa 2026 evidencia os efeitos da crise climática. Embora casos extremos de saúde por causa das altas temperaturas sejam incomuns no futebol, os riscos existem e, como mostra a revista piauí, há muito tempo vêm sendo alardeados por especialistas. Dois estudos científicos publicados antes do torneio já haviam alertado para esses riscos. Um deles concluiu que 10 dos 16 estádios da Copa podem apresentar condições de estresse térmico extremo, especialmente entre 14h e 17h. Outro apontou que, em 14 das 16 sedes, as condições climáticas ultrapassam o limite considerado seguro para a prática do futebol. Os pesquisadores recomendaram evitar partidas no período da tarde. A Fifa, porém, manteve 22 das 104 partidas nesse intervalo de maior calor, em uma decisão influenciada pelo horário nobre da televisão europeia.
🔸 Falando em crise climática… E se a Fifa destinasse 10% da receita da Copa para a compra e proteção permanente de áreas naturais ameaçadas, como a Amazônia? Em artigo n’O Eco, o ecólogo Mauro Galetti propõe esse exercício hipotético. Segundo estimativas, a Fifa receberá uma receita da ordem de 8 a 13 bilhões de dólares neste Mundial, o equivalente a cerca de R$ 70 bilhões de reais. Com 10% desse valor, Galetti afirma que seria possível financiar a proteção de 350 mil a 1,4 milhão de hectares de floresta amazônica, preservar milhares de espécies e evitar a emissão de até 1 bilhão de toneladas de CO2. “Enquanto os cientistas e políticos discutem mecanismos complexos de mercado de carbono, mendigamos dinheiro para fundos internacionais e gastamos anos em negociações diplomáticas intermináveis, um único evento esportivo possui capacidade financeira para proteger extensas áreas da maior floresta tropical do planeta”, afirma.
🔸 Quanto ao público, nesta edição, 71% das mulheres brasileiras declararam que estão conectadas ao campeonato, um crescimento de 22% em relação a 2014, segundo o estudo Women and Sports 2026, do IBOPE Repucom. O Lunetas explora como meninas deixam de se interessar por futebol devido ao preconceito e estereótipos e como as famílias podem ajudar a derrubar estigmas ao proporcionar ambientes livres de limitação baseadas em gênero. “Nessa faixa etária entre 11 e 14 anos, em que a aprovação dos outros é necessária, ouço relato de outras mães dizendo que as filhas querem desistir porque ouviram algum comentário maldoso de alguém”, relata Karen Katielli Medeiros Bueno, mãe das gêmeas Maya e Eva, 12 anos. Elas jogam desde os 5 anos e atuam em competições regionais de futsal no interior de São Paulo.
🔸Moradores dos bairros do Curuzu e da Federação, em Salvador, mantêm a tradição de decorar ruas para a Copa e as festas juninas. “Este ano a demanda aqui no Curuzu está muito mais fraca, porém fiz questão de me empenhar para arrumar a nossa rua”, conta o motorista de ônibus, Jorge Mitis, 45 anos, que reuniu cinco moradores para organizar e enfeitar a Rua Direita do Curuzu. A Entre Becos acompanha iniciativas comunitárias lideradas por moradores como Jorge na capital baiana. Na rua 13 do bairro da Federação, bandeirolas tomam conta do céu. Ali, a ornamentação acontece desde 2006 e mobiliza dezenas de moradores. “No começo o pessoal fica meio na incerteza, sem saber se o Brasil vai longe. Mas quando começa a colocar as bandeiras, todo mundo se anima e ajuda”, explica o comerciante Ivo Vieira da Silva, morador da localidade há 25 anos. Além de fortalecer os laços comunitários, a preparação movimenta pequenos fornecedores locais e se soma ao impulso econômico gerado pelas festas juninas nesta época do ano.
🔸Outra tradição, a de colecionar figurinhas da Copa, ganhou um formato comunitário no CEU Cidade Dutra, na zona sul de São Paulo. Além de funcionar como ponto de troca para crianças e famílias da região, o Centro Educacional Unificado criou um álbum coletivo para ser preenchido com figurinhas repetidas doadas por frequentadores. A Agência Mural conversou com participantes, como os irmãos Liz Dias e Dom Dias, de 6 e 4 anos, que buscam completar o próprio álbum enquanto ajudam a preencher o mural comunitário. “Falta o Bento (goleiro), mas já colei o Vini Júnior (atacante)”, conta Liz. “Vim trocar figurinha e colaborar com o painel”, diz Theo Dias, 9 anos, que ainda tem 26 repetidas. O assessor do núcleo de ação cultural do CEU Cidade Dutra, Ge Lopes, explica que o espaço foi idealizado como ponto de troca e um local de acolhimento para um público: “Como a gente tem essa tradição de colecionar figurinhas da Copa, abrimos esse espaço com o objetivo de trazer o pessoal para um local seguro, fechado e acompanhado de responsáveis”.

