ESPECIAL: O bolsonarismo sem força nas ruas, um radar de discurso antigênero e o Brasil no Globo de Ouro
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Oi, gente, bom dia!
Encerramos hoje a semana de edições especiais da Brasis. Nos últimos dias, revisitamos reportagens que marcaram 2025 e que ajudam a entender o ano que começa.
A seleção de hoje reúne temas que devem atravessar 2026: os limites e disputas em torno do combate à desinformação eleitoral, a reorganização da extrema direita e do Centrão após a prisão de Jair Bolsonaro (PL), a violência de Estado e a segurança pública, além da escalada da violência contra a mulher. A edição também olha para a cultura e lembra que o longa brasileiro “O Agente Secreto” disputa três categorias no Globo de Ouro neste domingo.
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Boa leitura!
🔸 Em 2025, antecipando o ano eleitoral que começa agora, o Congresso Nacional atuou para limitar o poder do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no combate à desinformação. Na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara dos Deputados, parlamentares buscaram avançar com o Projeto de Lei Complementar 13/2024, de autoria dos deputados federais Marcel van Hattem (Novo-RS) e Gilson Marques (Novo-SC). A Lupa explica que o objetivo é retirar do TSE a competência de editar resoluções eleitorais, inclusive contra a desinformação. Apesar de alegar que o tribunal tem “cometido excessos que usurpam as competências legiferantes do Congresso Nacional”, o texto é vago e não define quem ficaria responsável por gerir as normas eleitorais. A análise da proposta foi interrompida por um pedido de vista de parlamentares do PT, PSOL e PDT. O TSE defende agir diante de novas tecnologias: em 2024, proibiu deepfakes, exigiu rótulo de IA e apresentou 679 decisões sobre desinformação. Em tempo: a principal razão para a atuação do tribunal é a ausência de legislação específica aprovada pelo Congresso.
🔸 Perfis de políticos eleitos ou de candidatos foram as principais fontes de discursos de ódio e desinformação contra a população LGBTQIA+ do Rio de Janeiro no ambiente digital. A segunda edição da pesquisa “Explana”, produção do data_labe, em parceria com o Intervozes, ouviu 129 pessoas LGTBQIA+ dos bairros Maré e Ilha do Governador, na cidade do Rio de Janeiro, e dos municípios de Belford Roxo, Japeri e Petrópolis, sobre a percepção da violência online. Segundo o levantamento, 93,9% dos respondentes já tiveram contato com esse tipo de conteúdo, e 55% declararam que se sentiram muito atingidos por essas violências. Um dos motivos do impacto de tais ataques é o grau de proximidade: 31,8% afirmaram que foram o alvo, enquanto 53,5% das pessoas relataram que essas violências ocorreram com pessoas próximas.
🔸 Falando em eleições… A prisão de Jair Bolsonaro (PL) abriu a temporada de nomes possíveis para a candidatura à Presidência pela extrema direita e pelo Centrão. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se lançou à vaga, mas, dois dias depois, afirmou que poderia desistir da disputa. Para isso, disse ter um “preço”, citando a votação da anistia para os presos do 8 de Janeiro. O Metrópoles mostrou em vídeo as falas do senador. “Olha, tem uma possibilidade de eu não ir até o fim. Eu tenho preço para isso. Eu vou negociar. Eu tenho preço para não ir até o fim”. Ele minimizou as reações negativas à sua candidatura, disse que irá se reunir com lideranças partidárias hoje e afirmou ainda que terá a chance de mostrar um “Bolsonaro diferente”, “mais centrado” e que “realmente quer a pacificação do país”. Flávio foi escolhido pelo pai, Jair Bolsonaro (PL), semanas após a prisão do ex-presidente. Seu nome frustrou caciques do partido que preferiam Tarcísio de Freitas (Republicanos) e animou o governo Lula, que vê a manutenção do confronto direto com o bolsonarismo.
🔸 Mas… o bolsonarismo perdeu força nas ruas e enfrenta uma crise de imagem que dificulta a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro em 2026. A Agência Pública obteve um mapeamento exclusivo da frequência de manifestações bolsonaristas no Brasil desde 2018, feito por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). Os dados revelam que, após o auge de 1.822 atos em 2022 e 46 protestos nos primeiros dias de 2023, as manifestações de apoio a Bolsonaro caíram para apenas 62 no restante daquele ano e 41 em todo 2025, todas classificadas com baixa adesão. Em paralelo, consolida-se a imagem de um líder fragilizado física e emocionalmente, inelegível até 2060 e com apoio fragmentado no Congresso, nas ruas e dentro da própria família.
🔸 Segurança pública deve estar no topo dos debates das eleições – e 2025 foi marcado pela maior chacina da história do país, capitaneada pela polícia do Rio de Janeiro, nos complexos do Alemão e da Penha, em outubro. “Na operação do Rio, o Estado se comportou como facção, em uma estratégia que despreza o modelo de sustentação do Comando Vermelho.” A afirmação é de Bruno Paes Manso, jornalista, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da USP e autor de livros como “A República das Milícias”. Em artigo na piauí, ele destrincha o modelo de negócio do Comando Vermelho e mostra que a operação policial funciona como uma ofensiva “localizada” contra um crime “pulverizado”. Segundo ele, a ação serviu para “expor a fragilidade das instituições políticas e policiais do Rio”. “A barbárie dos corpos abandonados na mata para serem retirados por seus familiares escandalizaram o Brasil e o mundo. Uma tragédia que não atingiu em nada essa estrutura horizontal e capilarizada do crime”, explica. “Em vez de produzir a ordem desejada, a política do governador, mais parecida com a forma improvisada de criminosos, promove o caos.”
🔸 A escalada da violência contra a mulher também deixou sua marca: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2024, segundo o Mapa da Segurança Pública 2025. Foram 1.459 casos – o equivalente a quatro mulheres assassinadas por dia em crimes motivados por violência de gênero, informa a Alma Preta. A maior taxa do país foi registrada na região Centro-Oeste: foram 1,87 casos por 100 mil mulheres. Já a média nacional foi de 1,34 feminicídios por 100 mil mulheres. De acordo com o relatório, também houve crescimento expressivo nos registros de estupro: no ano passado, o país contabilizou 83.114 vítimas, 86% delas mulheres, o maior número dos últimos cinco anos. Rondônia, Roraima e Amapá são os estados com a maior taxa por habitante.
🔸 A propósito: 68% das vítimas de feminicídio no país são mulheres negras, segundo a pesquisa “Quem são as mulheres que o Brasil não protege?”. Entre 2015, ano de criação da Lei do Feminicídio, e 2024, os registros cresceram 176%, chegando a 1.455 mortes no ano passado. O Notícia Preta destaca que as mortes de mulheres brancas por motivo de gênero tiveram leve declínio, enquanto as de mulheres pretas e pardas aumentaram, evidenciando o recorte racial da violência. Os dados indicam ainda possível subnotificação pela falta de investigação em toda morte violenta envolvendo mulheres – de 3.500 a 4.000 mortes violentas de mulheres por ano, cerca de 2.500 são classificadas como feminicídio.
🔸 Foi também em 2025 que o STF reconheceu a aplicação da Lei Maria da Penha a mulheres trans e travestis em casos de violência doméstica. “A decisão rompe com um olhar biologizante e cisgênero, dando ênfase à compreensão de gênero como uma construção social”, escreve a pedagoga Ana Flor, em coluna na revista AzMina. Com isso, completa, “o STF amplia a discussão e constitui uma lente que possibilita um respaldo de cidadania para as mulheres trans e travestis”. Segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), o Brasil lidera há 16 anos o ranking mundial de assassinatos de pessoas trans. As principais vítimas são mulheres trans e travestis negras, jovens e nordestinas, muitas vezes atacadas dentro de casa por familiares. “No Brasil, mesmo com a precarização dos dados sobre a população de mulheres trans e travestis, não é difícil perceber que uma das instituições que mais submete essa população a situações de violência é a família.”
🔸 Embora seja um avanço para o combate e a visibilidade da violência de gênero, a Lei do Feminicídio ainda enfrenta desafios para garantir sua eficácia, depois de dez anos de sua promulgação, aponta a socióloga Rossana Marinho. Em entrevista ao Nós, Mulheres da Periferia, a pesquisadora e professora da Universidade Federal do Piauí afirma que a estrutura machista e as desigualdades dificultam uma mudança mais rápida do cenário de feminicídios. “Ainda há uma visão muito patriarcal nas polícias e entre as autoridades que investigam.” Para Rossana, há também uma negligência institucional contra mulheres trans e lésbicas, que vão além da violência doméstica: “Muitas vezes, mulheres trans assassinadas são registradas como ‘homens’, ou caem nas cifras gerais de homicídio, sem nenhum recorte de identidade de gênero. Isso apaga as causas reais da violência. É um problema estrutural da segurança pública”.
🔸 Em tempo: humor depreciativo, mobilização do medo, ameaças e teorias da conspiração são algumas das estratégias de discurso antigênero – forma de atacar ou desacreditar pessoas, direitos e políticas relacionadas a gênero e sexualidade –, com impacto direto na vida de mulheres e da população LGBTQIA+. O “Radar Antigênero”, ferramenta da Gênero e Número em parceria com a Novelo Data, analisou 5.332 vídeos publicados entre janeiro de 2018 e agosto de 2025 no YouTube sobre essa temática.O resultado revela que 65% dos conteúdos defendem papéis tradicionais de gênero, 25% trazem mensagens antifeministas e 20% acionam argumentos ligados à moralidade.
🔸 Na cultura, 2026 começa com o Globo de Ouro neste domingo – e com “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, na disputa. O longa estrelado por Wagner Moura é finalistas nas categorias Melhor Filme de Drama, Melhor Filme de Língua Não Inglesa e para Melhor Ator em Drama. Na primeira categoria, “O Agente Secreto” assumiu um protagonismo inesperado e tem a melhor nota no site de crítica especializada, Rotten Tomatoes, com avaliação em 99%. O filme “Foi Apenas um Acidente”, de Jafar Panahi, vinha sendo cotado como um dos prováveis líderes da temporada e recebeu 98%. O Tangerina conta que o desempenho da produção brasileira surpreendeu pelo domínio absoluto entre os principais veículos de crítica, algo raro no circuito hollywoodiano.
🔸 Aliás, o longa brasileiro venceu dois prêmios no Festival de Cannes: melhor diretor para Kleber Mendonça Filho e melhor ator para Wagner Moura. As vitórias coroam um semestre excepcional para o cinema brasileiro, escreve Ana Paula Sousa, em artigo na CartaCapital. Além dos prêmios, o thriller político fechou acordos com a Neon (Estados Unidos) e a Mubi (Reino Unido, Índia e América Latina), reforçando sua força no mercado internacional e o posicionamento como possível indicado ao Oscar. A conquista se soma a uma sequência inédita de premiações: “O Último Azul”, em Berlim, e “Ainda Estou Aqui”, no Oscar. “Neste ano, de acordo com a Ancine, 8,5 milhões de pessoas foram aos cinemas ver um filme brasileiro – número que corresponde a 20% de todos os ingressos vendidos no país. É também esse contexto que torna este primeiro semestre de 2025 marcante. Ao reconhecimento internacional soma-se, neste momento, um reencontro com o público”, afirma.

