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Por trás dos dados armazenados na nuvem, dos chatbots, dos chips e da digitalização crescente, existem marcas profundas nos territórios, com custos socioambientais frequentemente ignorados. No Brasil, a pressa em abraçar a promessa de progresso, desenvolvimento e inovação trazido pela transição digital desenha uma nova forma de exploração que conecta o alto consumo de água e energia dos data centers à corrida minerária por terras raras e outros minerais críticos.
Nesta edição especial da Brasis, mostramos a explosão da busca por minerais de alta tecnologia, cujos pedidos de pesquisa já cobrem 23 milhões de hectares na Amazônia Legal, e que mineradoras estrangeiras detêm quase metade dos projetos de terras raras no país. Trazemos também investigações sobre como a instalação de grandes data centers levanta preocupações das comunidades, de cientistas e do Ministério Público por seu alto consumo de recursos, enquanto em diversas localidades governantes atropelam debates democráticos e flexibilizam leis de licenciamento sob a pressão direta de big techs.
A curadoria de reportagens produzidas pelas associadas à Ajor reafirma a força do jornalismo para expor os bastidores do discurso de avanço tecnológico que tenta engolir comunidades e territórios em uma nova fronteira extrativista.
Boa leitura!
🔸O plano de atrair data centers de IA para o Brasil virou unanimidade entre os presidenciáveis. Com base nos planos de governo apresentados pelas cinco candidaturas mais competitivas, o Aos Fatos avalia os impactos desses empreendimentos. Na prática, os data centers geram poucos empregos permanentes – estimados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro entre 30 e 50 postos por unidade – e consomem grandes volumes de recursos hídricos e elétricos. Para facilitar a vinda dessas estruturas, a maioria dos presidenciáveis defende afrouxar leis ambientais e tributárias, alinhados à pressão de big techs que alegam que os “requisitos regulatórios onerosos podem sufocar dramaticamente a inovação”, conforme diz Margareth Kang, gerente de políticas públicas da Meta. Temas como regulação de IA e moderação de conteúdo nas redes também foram analisados nos planos de governo.
🔸 A aprovação relâmpago de leis em Goiás para atrair investimentos de big techs é alvo de críticas por esvaziar salvaguardas sociais e ambientais. A Assembleia Legislativa do estado atropelou o debate público e sancionou marcos regulatórios de inteligência artificial e de exploração de minerais críticos em 48 horas após reuniões do governador Ronaldo Caiado (PSD) com executivos do Google e da Amazon nos Estados Unidos. A Agência Pública revela que a lei de fomento goiana à IA possui brechas que enfraquecem o licenciamento ambiental e a transparência, blindam auditorias e abrem espaço para sistemas de código fechado na administração. O memorando de cooperação para a extração de terras raras em Goiás firmado com o governo estadunidense é considerado inconstitucional por ferir a soberania da União.
🔸 O avanço dos grandes data centers no Brasil deve ter mais transparência, diálogo com a sociedade e avaliação rigorosa dos impactos ambientais. Este foi o principal recado de pesquisadores reunidos na 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Niterói (RJ), diante do crescimento da infraestrutura voltada à inteligência artificial. A Agência Nossa detalha os debates sobre o tema e destaca o caso do mega data center que a ByteDance, controladora do TikTok, constrói no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. O projeto deverá consumir 300 MW de energia, o equivalente ao consumo de cerca de 2,2 milhões de pessoas, cinco vezes a população da região. Dan Levy, pesquisador da Unifesp, afirmou que teve dificuldades para obter informações sobre o licenciamento do empreendimento e disse que os órgãos de controle não exigiram estudos de impacto ambiental compatíveis com sua dimensão.
🔸 A alta demanda de gigantes da tecnologia por IA e a busca das empresas de energia limpa por lucro impulsionam a expansão dos data centers no Brasil. Em parceria com a Mongabay, o Intercept Brasil mostra que 65% dos pedidos de conexão de novos servidores de dados ao Ministério de Minas e Energia até dezembro de 2025 partiram do próprio setor de fontes renováveis, interessado em escoar o excedente de eletricidade. Como consequência, a expansão dessas estruturas podem encarecer as contas de luz e demandar a ativação de usinas termelétricas, em que há queima de combustíveis fósseis. A aliança entre data centers e empresas de energia também acelera conflitos territoriais e afeta a saúde de comunidades quilombolas e indígenas do Nordeste devido ao ruído das turbinas e do desmatamento.
🔸A expansão da inteligência artificial elevou em 18% as emissões de gases de efeito estufa do Google em 2025. A demanda de eletricidade cresceu 37% no último ano, o maior salto da história da empresa. Desde 2019, ano-base das metas climáticas, as emissões aumentaram cerca de 80% e a demanda por energia cresceu 250%. O Reset destaca os principais dados do relatório de sustentabilidade da big tech. A construção e operação de data centers, que exigem mais energia, servidores, chips, aço e concreto, é a principal causa do aumento. O crescimento contrasta com a meta da empresa de atingir emissões líquidas zero em todas as operações e cadeia de valor e reduzir pela metade as emissões absolutas até 2030. Além disso, o Google não divulgou as informações sobre a eficiência hídrica das estruturas.
🔸 A instalação do primeiro data center de IA na Amazônia é alvo de um inquérito do Ministério Público do Pará. O órgão investiga possíveis impactos ambientais e sociais, como aumento da temperatura, consumo de água, demanda energética e poluição sonora do empreendimento. Chamada de BEL1, a estrutura será instalada na área portuária de Miramar, em Belém. O Terra mostra os dilemas que cercam o projeto, previsto para operar em 2027. “Comunidades tradicionais residentes nas ilhas próximas, ribeirinhos e pescadores, já vulnerabilizados economicamente por condições históricas, estarão suscetíveis a impactos negativos decorrentes das atividades do empreendimento”, diz o promotor de Justiça Márcio Maués. Embora existam normas ambientais, energéticas e de licenciamento que se aplicam a esses empreendimentos, especialistas cobram uma legislação específica a grandes estruturas de processamento de dados, fiscalização e transparência.
🔸 A corrida por minerais usados por setores de alta tecnologias como baterias, painéis solares e carros elétricos fez disparar os pedidos de pesquisa e exploração na Amazônia Legal. Levantamento da InfoAmazonia identificou 4.795 processos minerários para cobre, estanho, níquel, tântalo e terras raras, que somam 23 milhões de hectares – mais de 150 vezes a área da cidade de São Paulo – e estão localizados principalmente no Pará, em Mato Grosso e em Rondônia. No Senado, existem dois projetos de lei que pretendem criar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Nenhum deles passou por discussão com a sociedade civil. “É a lógica do extrativismo puro, e não do desenvolvimento com proteção ambiental. Os termos [dos projetos] relacionados ao meio ambiente, além de serem vagos, não diferenciam as etapas da mineração conforme o seu impacto e colocam como regra um licenciamento ambiental simplificado e fragilizado”, diz Fábio Ishisaki, analista de políticas públicas do Observatório do Clima.
🔸 A propósito: quase metade (42%) dos 2.727 requerimentos minerários para explorar terras raras no Brasil é de empresas estrangeiras, sobretudo as sediadas na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá, revela a Repórter Brasil. O avanço dos projetos ameaça ao menos 283 áreas protegidas, gerando conflitos territoriais com comunidades tradicionais e povos indígenas que denunciam a falta de consulta prévia. “A mineração sempre deixa rastros”, diz Gilvan Magalhães, liderança do Quilombo Família Magalhães, no norte de Goiás, onde um projeto de mineração da empresa canadense Aclara Resources se sobrepõe ao território quilombola, formado por 30 famílias. “Ela [a mineração] causa desmatamento e afeta o bioma. Esperamos que a empresa enfrente esses problemas e pague por aquilo que não conseguir reparar.”
