ESPECIAL: O 'agronejo', as ferramentas de detecção de IA e a 1ª banca de doutorado 100% indígena
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Oi, gente, bom dia!
Nesta primeira semana de 2026, você recebe edições especiais da Brasis. Hoje, encerramos a série das reportagens mais clicadas pelos leitores da newsletter em 2025, com histórias que continuam ecoando no debate público.
A seleção também reafirma uma das marcas da Brasis: contar o país a partir dos territórios. Estão aqui narrativas que só o jornalismo local sustenta com tempo e presença – a tipografia ribeirinha que viaja pelos rios da Amazônia, a banca de doutorado 100% indígena que amplia as formas de produzir conhecimento, o artesão maranhense das cadeiras de “macarrão” e outras histórias que guardam memória e identidade.
Boa leitura!
🔸 Com projeção nacional e milhares de visualizações nas plataformas de streaming, o “agronejo”, estilo musical que une tradição sertaneja a elementos de pop, funk e eletrônico, reforça a imagem que o agronegócio passou a investir – a de jovem, moderno e poderoso, buscando afastar percepções negativas associadas a problemas históricos como trabalho análogo à escravidão, grilagem de terra e relação com a ditadura militar. A Repórter Brasil mergulha na relação entre o gênero sertanejo das últimas duas décadas e o reposicionamento do agronegócio no imaginário social. Por meio do estilo, o setor encontrou uma forma eficaz de comunicar que o agro é sinônimo de lucro e status.
🔸 Entre os 20 deputados com maior engajamento no Instagram em 2025, dez não tiveram nenhum projeto de lei aprovado desde 2023 e outros três só aprovaram matérias simbólicas. A Agência Pública cruzou os dados de engajamento na plataforma com a relação de projetos de lei e mostra que, dos 20 com melhor performance no Instagram, 11 são da extrema direita (PL, Novo, PSD) e apenas três se vinculam à esquerda. Quatro nomes – Carla Zambelli, Maurício Marcon, Guilherme Derrite e Fábio Teruel – não têm nem autoria nem coautoria em projetos aprovados, e outros seis apenas “pegam carona” como coautores em propostas de colegas.
🔸 O Congresso derrubou 56 dos 63 vetos do presidente Lula (PT) ao PL da Devastação. Assim, os parlamentares reavivaram a pior versão do projeto de lei 2.159/2021, que afrouxa as regras do licenciamento ambiental no país. A Sumaúma detalha cada ponto do texto e mostra que a nova lei acelera licenças, enfraquece estudos de impacto, reduz a participação de comunidades afetadas e devolve mecanismos como a Licença por Adesão e Compromisso (ou autolicenciamento), além de restringir a consulta prévia a povos indígenas e quilombolas apenas a áreas já demarcadas ou tituladas. A sessão de expôs o confronto entre Executivo e Legislativo e o peso da bancada ligada ao agronegócio, à mineração e às indústrias da carne e da soja, com ataques aos povos originários, ao Ibama e ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes. Para a coordenadora de políticas públicas do Observatório, Suely Araújo, a votação significa um “retrocesso criminoso na legislação ambiental”.
🔸 Embora não sejam confiáveis, ferramentas de detecção de inteligência artificial são usadas como forma de vigilância de trabalhadores de redação. “Travessão é proibidaço. Gerúndio, figuras de linguagem também, mas às vezes o problema é uma vírgula ou uma palavra que eu tenho que trocar”, conta Helena (nome fictício). Ela trabalha em uma empresa de marketing de conteúdo que submete os materiais produzidos pelos redatores ao ZeroGPT, um detector de IA. “Eu pensava que, se meus textos não começassem a dar 0% no ZeroGPT, eles iam me substituir. Foi a partir daí que eu passei a empobrecer meu texto.” O Núcleo mostra como o vácuo de regulamentação e a falta de discussão ética sobre o uso de IA têm impactado o trabalho criativo. Esses detectores já foram apontados como não confiáveis em pesquisas, reportagens e por especialistas, sobretudo pela falta de transparência dos modelos desenvolvidos por essas empresas e pelos vieses embutidos no treinamento.
🔸 “As nossas línguas indígenas guardam dentro de si florestas inteiras, rios, estrelas e espíritos. Cada uma delas é uma biblioteca viva, uma cosmovisão, um universo em movimento. Cada vez que uma língua indígena desaparece, o mundo perde uma forma de ser”, afirmou a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara, durante o lançamento do Centro de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas. O Porvir ressalta que o objetivo do projeto é desenvolver pesquisas inéditas sobre as mais de 270 línguas indígenas faladas no Brasil e criar coleções digitais de conhecimentos intangíveis. “O Brasil é um país que tem uma riqueza linguística imensa e essa diversidade é um patrimônio cultural brasileiro que tem que ser melhor entendido e documentado”, ressalta Eduardo Goes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), que coordena o centro em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
🔸 Pela primeira vez desde a implementação do Vestibular dos Povos Indígenas, em 2001, quatro estudantes indígenas se formaram na Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. A Rede Lume conta que, até hoje, 30 indígenas se formaram na instituição. A evasão desses estudantes, que chegou a ser de 54%, hoje é de apenas 9%. Para Tereza Ferreira, do povo Kaingang, que se formou aos 60 anos em Geografia, “o governo deveria abrir mais vagas, apesar dos desafios que encontramos para permanecer”. Ana Lúcia Ortiz Martins, do povo Guarani Nhandewa, recém-formada em Psicologia, detalha esses desafios: “As dificuldades não são apenas acadêmicas, envolvem questões culturais, sociais, financeiras, emocionais, e a questão da linguagem – especialmente para mim, que ainda falo minha língua materna”.
🔸 A propósito: a defesa de doutorado de Jaime Diakara Dessano inaugura a primeira banca 100% indígena da história universitária brasileira. Apresentada no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), a tese foi escrita em língua indígena, traduzida em grafismos, imagem e ritual. No trabalho, Jaime Dessano mergulha na cosmopolítica do Alto Rio Negro, na ciência do sopro e da saliva e nos poderes do caxiri. O Varadouro destaca que o marco é resultado de mais de 15 anos de políticas afirmativas e disputas internas que permitiram editais específicos e o reconhecimento de outras formas narrativas como produção intelectual. “A tese pode ser escrita em imagens, em grafismos. Isso não é um adorno estético – é pensamento”, afirma o professor Gilton Santos, que defende a necessidade de decolonizar estruturas de poder e critérios de validação do conhecimento.
🔸 Em vídeo: as “cadeiras de macarrão” estão nas varandas e quintais de casas em todo o país. Em Pedreiras, no Maranhão, elas são feitas à mão, em todas as cores, pelo artesão Benedito Torres dos Anjos, 79 anos – mais conhecido pelo apelido que ganhou ainda na juventude, quando iniciou as vendas de cadeiras pelas ruas da cidade: Cadeirinha Maravilhosa. É ele quem narra a própria história no episódio “Pode Sentar”, do “História, Nossas Histórias”, produção d’O Pedreirense. Entre fios coloridos e estruturas de ferro, Benedito fez da calçada da rua da Prainha sua oficina. Lá, com calma e precisão, tece as cadeiras e transforma cada nó em memória.
🔸 Milton Nascimento queria ter um filho, e Augusto desejava ter um pai. Assim nasceu a adoção de Augusto, cujo processo formal se deu com o jovem já adulto. À medida que a saúde do artista, considerado um dos maiores nomes da MPB, piorava, o filho se tornou sua principal companhia. A revista piauí narra a história de adoção e cumplicidade entre Milton e Augusto, sobretudo depois do recente diagnóstico de demência do cantor. Ele recebe poucas visitas, não consegue estabelecer diálogos e está alheio ao mundo. Uma de suas raras reações é chamar o filho para se sentar ao seu lado no sofá da antessala do seu quarto. O ambiente reúne inúmeros prêmios que o artista recebeu – como os cinco Grammy –, mas é ao lado de sua cama que é exibida uma cópia da nova certidão de nascimento de Augusto, em que consta, ao lado do nome da mãe, Sandra Kesrouani, o nome do pai: Milton Nascimento.
🔸 “As grandes bandas, as milionárias, merecem seus cachês, mas temos mestres que contribuíram tanto para a cultura e morreram na miséria. Tantos São Joões só existem porque os mestres e a cultura popular sempre estiveram presentes”, afirma o pifeiro e artista multicultural Wesklei Mardone, mentor da Banda de Pífano da Inclusão, apenas com cadeirantes, e da banda Arrasta Pife. O Nonada detalha como o São João de Caruaru, no Agreste pernambucano, conhecido como o maior do mundo, passou a funcionar como vitrine de marcas multinacionais, com estruturas cercadas, palcos gigantes e uma lógica voltada ao show business. Já os mestres e produtores culturais que fazem a festa acontecer há décadas vivem precarizados. “Temos uma carga de trabalho grande o mês todo, mas o valor pago é irrisório. Somos a base da cultura. Mas, às vezes, conseguimos um valor melhor de uma festa privada do que da própria Fundação de Cultura, que tem muito mais recursos”, diz o sanfoneiro Vinícius Leite.

