A escalada da violência na Amazônia e o boom da 'hormonologia' no Brasil
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🔸Os assassinatos em conflitos no campo dobraram no Brasil em 2025. Segundo relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT), foram registradas 26 mortes, ante 13 no ano anterior. Mais da metade dos casos ocorreu na Região Norte, com concentração no Pará e em Rondônia, e atingiu principalmente trabalhadores sem-terra, indígenas e posseiros. Para Larissa Rodrigues, integrante da Articulação das CPTs da Amazônia, os números revelam “o avanço de um projeto histórico de expansão colonial e capitalista sobre a Amazônia, que continua atingindo e transformando os povos e territórios inteiros em alvos de expropriação e extermínio”. Ao todo, o país registrou 1.593 conflitos no campo no ano passado, com a disputa por terra como principal causa, presente em 75% dos casos. A Agência Pública detalha o relatório e mostra que, entre mandantes ou executores desses crimes, os fazendeiros foram os responsáveis em 77% dos registros de 2025.
🔸 A propósito: três trabalhadores rurais foram executados com tiros de fuzil em Lábrea (AM), na região da Amacro, a tríplice divisa formada pelos territórios do Acre, do Amazonas e de Rondônia. As vítimas – Antônio Renato, 32 anos, Josias Albuquerque de Oliveira, 45 anos, e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said, 14 anos – foram surpreendidas ao atravessar uma ponte e não tiveram chance de defesa. Depois do crime, o carro e os corpos foram jogados em um córrego. Segundo a CPT, o massacre ocorreu em uma área marcada por disputas fundiárias históricas, onde a violência substitui a mediação institucional. Relatos das famílias indicam que o crime pode ter sido encomendado por um fazendeiro já citado em episódios anteriores. O Varadouro lembra que o ataque evidencia a escalada da violência no campo na Amazônia e mostra como o “jaguncismo” ganhou novos contornos na região, com o uso de armamento de guerra e possível conexão com facções criminosas.
🔸 O novo programa de renegociação de dívidas do governo federal pode oferecer descontos de até 90% a pessoas endividadas. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a proposta será apresentada ao presidente Lula (PT) e deve ser anunciada ainda nesta semana, com previsão de início em 1º de maio. O desenho do programa foi discutido com bancos, que chegaram a um “bom consenso” com a equipe econômica. O Metrópoles explica que, além dos descontos, o plano prevê juros mais baixos e compromissos dos bancos com melhores práticas de crédito e educação financeira. Outro ponto em análise é o uso do FGTS, que deve ser permitido apenas para quitação total das dívidas dentro do programa.
🔸 Falando em dívida… Os trabalhadores brasileiros pagaram cerca de R$ 15 bilhões em juros de crédito consignado em apenas um mês (o de fevereiro), segundo dados do Banco Central compilados pelo economista Humberto Veiga a pedido do Canal MyNews. Ele afirma que se trata de uma transferência brutal de renda dura, direta e contínua das classes produtivas para o setor financeiro. O impacto, segundo o economista, é distribuído entre diferentes grupos: aposentados do INSS pagaram R$ 5,1 bilhões em juros, servidores públicos R$ 6,8 bilhões e trabalhadores do setor privado R$ 3,66 bilhões. O problema não é pontual, mas um fluxo permanente, com um estoque de dívida que chega a R$ 381 bilhões entre servidores, R$ 282 bilhões entre aposentados e R$ 92 bilhões no setor privado, com juros mais altos justamente para quem tem menos garantias.
🔸 O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) completou ontem um mês de prisão domiciliar. Com ele, está Michelle Bolsonaro, que sonhava ser candidata ao Senado. O problema é que, por causa do isolamento com o marido, ela enfrenta dificuldades de articulação política para alavancar a pré-candidatura. A CartaCapital conta que, há um mês responsável pelos cuidados do marido e sem poder receber visitas, Michelle deixou de se reunir com aliados e apoiadores, o que limita sua atuação presencial no partido. Mesmo afastada fisicamente, ela mantém influência por meio das redes sociais e se tornou o principal canal entre Bolsonaro e seu entorno político.
📮 Outras histórias
A Justiça Federal negou uma ação movida pela Escola Sem Partido que tentava barrar a lista de leituras obrigatórias do vestibular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). O movimento alegava “doutrinação ideológica” e pedia a exclusão de obras como “O Avesso da Pele”, de Jeferson Tenório, e “Mas em que Mundo Tu Vive”, de José Falero. Ambas as obras apontadas discutem a temática do racismo. Segundo o Sul21, o Ministério Público Federal (MPF) considerou o pedido inválido, afirmando que ele buscava chegar a um “fim ilícito” e ressaltando que a inclusão de obras que abordam temas como racismo está alinhada ao dever constitucional de enfrentamento à discriminação. “Nossa Constituição determina o dever não só de não discriminar, mas de enfrentar o racismo”, afirma Enrico Rodrigues de Freitas, procurador regional dos Direitos do Cidadão do MPF. “Quando a universidade insere leituras que tratam desses temas, ela está cumprindo o seu dever constitucional.”
📌 Investigação
Popular entre influenciadores e clínicas estéticas, a “hormonologia” não é reconhecida como especialidade médica oficial. A área reúne um conjunto de terapias feitas com suplementos hormonais para fins estéticos e de saúde. Da cura da endometriose à recuperação da libido, do emagrecimento rápido à hipertrofia muscular, os hormônios são a resposta para os hormonólogos – a maioria deles formados em cursos de um fim de semana. Por trás das formações, frequentemente estão grandes farmácias de manipulação, como a Elmeco, a Bio Meds e a Unikka Pharma. Esta última chegou a patrocinar o jogador Neymar Jr. no ano passado. A revista piauí esmiúça a explosão da hormonologia no país, seus riscos à saúde e a pressão sobre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para flexibilizar a regulação desses produtos.
🍂 Meio ambiente
Mais de 20% dos peixes comercializados em seis estados da Amazônia têm níveis de mercúrio acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em municípios do Amazonas e de Roraima, os índices chegam a 50% e 40%, respectivamente. Os dados compõem uma análise técnica do MPF enviada à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Segundo o Vocativo, o documento reúne evidências científicas, jurídicas e operacionais que apontam falhas estruturais do Estado brasileiro e alerta para riscos ambientais e sanitários agravados pelo garimpo ilegal. O relatório destaca ainda o fenômeno da bioacumulação (absorção e a retenção de substâncias tóxicas no organismo). A concentração de mercúrio é até 14 vezes maior em peixes carnívoros, base da dieta de muitas comunidades amazônicas. As modelagens indicam que a contaminação se intensifica ao longo dos rios, sobretudo em áreas de garimpo.
📙 Cultura
“A partir do momento que a arte entrou na minha vida, ela se instaurou aqui com pés bem firmes, não teve pra onde correr. Sinto que meu olhar e meu jeito de viver me acompanha desde da infância, um jeitinho diferente de ver o mundo, como se enxergasse tudo através de um tecido de sonho, essa essência está aqui até hoje”, diz a fotógrafa, designer e pesquisadora Brenda Viana. Embora a música e a dança a tenham acompanhado desde criança, a fotografia chegou em sua vida como um ato político, por meio da comunicação popular do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foi registrando as feiras de reforma agrária que descobriu o poder da imagem. Em entrevista à Revista Alagoana, Brenda conta o que busca retratar: “Me agrada que minhas fotografias tenham pessoas, tenham gente. Em segundo, o uso da cor, vermelho, azul, amarelo e verde são as cores que mais me chamam a atenção e geralmente estão nos ambientes onde circulo, elas fazem parte do cotidiano popular.”
🎧 Podcast
O escritor Milton Hatoum é o primeiro amazonense a se tornar imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), eleito com 33 dos 34 votos possíveis para ocupar a cadeira seis da instituição. Antes dele, apenas dois autores amazônidas foram imortalizados, os paraenses Inglês de Sousa e José Veríssimo. O “LatitudeCast”, produção da Amazônia Latitude, resgata uma palestra de Hatoum realizada na Universidade do Estado do Amazonas, em 2016, dez anos antes de chegar à ABL. Suas falas na ocasião revelam que o autor acredita que a literatura nasce da vida, da memória e do encontro com o outro. “Não há literatura sem o leitor. E não há literatura de qualidade sem um leitor de qualidade”, afirmou.
👩🏾⚕️ Saúde
As tentativas de suicídio entre adolescentes brasileiros refletem múltiplas violências e ausência de pertencimento. Em vez de analisar os dados estatísticos, uma pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade Federal de Sergipe (UFS) ouviu diretamente os jovens que sobreviveram a essas tentativas e revela que o sofrimento psíquico é resultado de relações fragilizadas na família, na escola e na sociedade. A Agência Bori traz os principais achados do estudo, que indicam que a vulnerabilidade começa com negligência emocional e instabilidade. “A tentativa de suicídio emerge, então, não como um desejo de morrer, mas como um pedido de ajuda, uma tentativa desesperada de pôr fim à dor emocional”, afirma a pesquisadora Rafaela Lima Monteiro, uma das autoras do artigo. A pesquisa ressalta a urgência da criação de redes intersetoriais e espaços de escuta livre de julgamentos para acolher os adolescentes.




