🔸 Na noite de ontem, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que suspenda com urgência a decisão de André Mendonça que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o diretor de Inteligência, Leandro Almada. Segundo o Metrópoles, a petição, assinada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias, sustenta que a medida causa “grave lesão à ordem pública e administrativa”. A AGU argumenta que o afastamento viola a prerrogativa constitucional do presidente da República de prover e desprover cargos de direção da PF e que a interrupção abrupta da gestão pode comprometer o funcionamento da polícia judiciária. O órgão também afirma que os fatos envolvendo os relatórios de inteligência já estavam sob a condução de Fachin e que Mendonça antecipou medidas cautelares em um tema indicado como de competência do plenário.
🔸 Ao determinar o afastamento dos dois diretores da PF, o ministro André Mendonça alegou “superlativa gravidade e ilicitude” na produção de relatórios de inteligência usados pelo ministro Alexandre de Moraes para pedir investigação contra ele. Segundo o Jota, Mendonça afirma que a PF produziu ao menos seis relatórios, entre os dias 3 e 31 de agosto, monitorando ele próprio e Jorge Messias, prática que classificou como “arapongagem institucional”. Também ontem, a 2ª Turma do STF formou maioria para manter o afastamento de Rodrigues. Gilmar Mendes pediu vista e suspendeu o julgamento, mas, em seguida, Luiz Fux e Nunes Marques acompanharam Mendonça, formando maioria. Mesmo com a interrupção da análise, a liminar continua válida.
🔸 Na esteira do caos, onze integrantes da cúpula da PF colocaram seus cargos à disposição. O Congresso em Foco informa que, em nota, os dirigentes manifestaram “total apoio” aos dois delegados afastados e deixaram com o diretor-geral substituto, William Murad, a decisão sobre a permanência deles nas funções. Os diretores repudiaram as acusações contra a PF e afirmaram que “narrativas marcadamente influenciadas por interesses político-eleitorais” não apagam a reputação dos dois delegados. Também disseram que imputar a Andrei, Almada ou à corporação uma atuação “não republicana” é uma acusação “desprovida de fundamento”.
🔸 A crise no STF ultrapassa a disputa entre integrantes da Corte e fragiliza os mecanismos de controle entre os Poderes. O Nexo ouviu as cientistas políticas Marjorie Marona, professora da Unirio, e Mariana Chaise, professora da Unicamp, para analisar os efeitos institucionais do afastamento de Andrei Rodrigues. Marona destaca que a PF tem autonomia investigativa, mas é subordinada ao Ministério da Justiça, e afirma que Mendonça exerceu sobre a corporação “um poder de comando que a Constituição, na verdade, dá ao presidente da República”. Para Mariana Chaise, o episódio mostra a instrumentalização da PF numa disputa interna do Supremo. O risco maior às vésperas da eleição presidencial, segundo ela, é o desgaste da legitimidade de instituições que terão papel central no pleito. “Se a população entra nesse período achando que os órgãos estão em disputa política aberta, o risco é que qualquer decisão futura, mesmo que juridicamente correta, seja lida como parcial.”
📮 Outras histórias
Em Barra dos Coqueiros, na Grande Aracaju, catadoras de mangaba no povoado Capuã plantaram mais de 400 mudas em uma área de quase 10 hectares usada há gerações para o extrativismo e hoje pressionada pela expansão imobiliária. A Mangue detalha a iniciativa da associação das catadoras com a Universidade Federal de Sergipe (UFS). Destinado às trabalhadoras por lei em 2017, o terreno teve a reversão formalizada pela prefeitura em 2025 e, em junho deste ano, o cercamento instalado pela comunidade foi retirado. O Ministério Público Federal recomendou a suspensão de medidas contra o território, e a Justiça proibiu intervenções de terceiros. Em Barra dos Coqueiros, a extração de mangaba caiu de 26 toneladas em 2020 para sete em 2024. Aos 65 anos, Ana Maria Santos participou do plantio. “Mesmo que, daqui a cinco anos, eu já esteja com uma idade avançada, continuarei firme. É um trabalho que amamos e que realizamos com muito orgulho. Sou extrativista, aposentada pela pesca, mas sigo na luta pela preservação da ‘cata’ da mangaba.”
📌 Investigação
As campanhas eleitorais do Paraná já declararam R$ 197,9 milhões em receitas para a disputa de 2026. Levantamento do Plural a partir de dados do TSE mostra que cerca de 91% desse total vem de recursos públicos, e o dinheiro se concentrou nas últimas semanas de agosto, depois do início da propaganda eleitoral. Só entre 24 e 30 de agosto entraram R$ 121,1 milhões nas contas das campanhas; 97% eram dos fundos eleitoral e partidário. As candidaturas a deputado federal concentram a maior fatia, R$ 110,5 milhões, mais da metade do total arrecadado no estado. Entre os candidatos ao governo, Sérgio Moro (PL) lidera, com R$ 11,8 milhões, seguido por Requião Filho (PDT), com R$ 11 milhões, e Sandro Alex (PSD), com R$ 6,95 milhões. O PL é o partido que mais arrecadou, com R$ 39,4 milhões. Na outra ponta, 353 das 1.086 candidaturas ainda não movimentaram nenhum recurso, mostrando a forte concentração do financiamento nas campanhas consideradas prioritárias pelos partidos.
🍂 Meio ambiente
Lideranças femininas de sete povos indígenas criaram a Organização e Governança das Mulheres Indígenas do Médio Xingu para fortalecer a defesa de seus territórios diante dos impactos de Belo Monte e de novas ameaças, como o projeto da mineradora canadense Belo Sun. A Sumaúma mostra como mulheres Juruna, Arara, Xikrin, Xipaya, Kuruaya, Parakanã e Asurini transformaram a experiência acumulada desde a construção da hidrelétrica em uma articulação própria. Na Volta Grande do Xingu, entre 70% e 80% da água do rio é desviada para alimentar Belo Monte, o que alterou a pesca, a navegação e a segurança alimentar de comunidades indígenas. “A gente pensa no futuro, né? No futuro das crianças, dos jovens”, diz Jayra Juruna, de 38 anos, uma das idealizadoras da organização. A entidade também quer viabilizar projetos de geração de renda e de preservação cultural, como o ensino de cantos, culinária e artesanato tradicionais. “Tem muitas mulheres capazes, que querem ter espaço”, afirma Bel Juruna.
📙 Cultura
“Quando comecei, você não achava terreiro [na rua]. Os terreiros eram todos escondidos”, lembra o babalorixá Hugo Maurício, da Casa de Chico Preto, em Anápolis (GO). Criado há mais de uma década, o terreiro passou de um espaço alugado no bairro Eldorado para uma sede no centro da cidade, onde seus integrantes começaram a ocupar publicamente as ruas com guias, vestimentas e símbolos religiosos. Em 2025, a casa foi reconhecida como Ponto de Cultura Onã Layó. O Nonada narra a trajetória do espaço a partir de conversas com quem faz sua história. Desde 2009, a casa promove oficinas gratuitas de samba de roda, jongo, maculelê, capoeira, percussão e arte africana para crianças. O espaço recebe ainda ensaios de grupos independentes e se tornou lugar de transmissão de saberes afro-brasileiros entre gerações. “Quando eu entrei para casa, expandiu o meu conhecimento, o meu entender da cultura dos povos de terreiro, do povo negro”, afirma Romário Akinyode, ogã da Casa de Chico Preto e instrutor do projeto.
🎧 Podcast
“Escrever não foi uma sublimação, mas uma forma de enfrentar o que há de sublime na morte sem mascarar a dor profunda do luto.” A afirmação do filósofo e educador Fernando José de Almeida se refere à escrita do livro “Elogio à Saudade”, ensaio afetivo sobre a morte de sua filha, a documentarista e pesquisadora Lorena Almeida, que se suicidou em 2023, aos 43 anos. Em conversa com o jornalista e psicanalista Robinson Borges no “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, o autor fala sobre o luto, o processo terapêutico que encontrou na escrita e como os amigos o ajudaram a lidar com a perda. Quando contou a José Miguel Wisnik que escrevia um livro sobre a filha, lembra o conselho que ouviu do colega: “Eu disse para ele: ‘estou escrevendo um livro sobre minha filha, mas não sei o que vai acontecer com esse livro’. Aí ele me disse: ‘está te fazendo bem escrever?’. Eu digo: ‘muito bem’. ‘Então fará bem aos outros. Escreva o livro’”.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
“A violência patrimonial sempre vem junto com a psicológica, com o abalo de que você não vai conseguir outro salário, outro emprego, e a criança vai ficar em casa, e não vai ter comida, não vai ter janta”, afirma Patrícia Marins, 53 anos, matemática, bancária e criadora da comunidade Mulheres Pretas Finanças, projeto de educação financeira e mentoria voltado à autonomia e à prosperidade da população negra. Filha de uma trabalhadora doméstica e criada em São Gonçalo (RJ), Patrícia conta à Gênero e Número como transformou a própria trajetória em um trabalho de formação financeira de mulheres negras. Ela defende o que chama de “finanças decoloniais”: uma educação financeira que considere a experiência de mulheres negras, muitas vezes as primeiras de suas famílias a ascender profissionalmente e pressionadas a sustentar parentes sem conseguir formar patrimônio próprio. “A gente vive em um mundo capitalista: quem tem o dinheiro manda, e quem não tem, obedece. Quando eu falo de finanças decoloniais, é para fazer você entender que a gente não pode viver no consumo pelo consumo, que a gente não precisa só trabalhar para pagar conta, que a gente precisa ter o poder do não.”



