A engenharia da derrota nas bets e a repressão aos bailes funk de SP
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🔸Às vésperas das convenções partidárias, a disputa presidencial se mostra estável. No principal cenário de primeiro turno, o presidente Lula (PT) aparece com 40,4% das intenções de voto, contra 32% do senador Flávio Bolsonaro (PL). É o que indica a nova pesquisa Meio/Ideia, produzida pelo Canal Meio com o Instituto Ideia. Em um eventual segundo turno, Lula amplia a vantagem e venceria por 45% a 40%. O levantamento mostra uma forte segmentação do eleitorado. Flávio Bolsonaro lidera entre homens, jovens, evangélicos, moradores do Sul e do Norte e eleitores de maior renda. Lula, por sua vez, tem ampla vantagem entre mulheres, pessoas com mais de 35 anos, eleitores de baixa renda, católicos e moradores do Nordeste. A pesquisa perguntou aos eleitores sobre o vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs seu racha com Flávio Bolsonaro. O conteúdo alcançou 57,6% do eleitorado. Entre quem acompanhou o caso, as declarações de Michelle foram vistas como totalmente verdadeiras (29%) ou mais verdadeiras do que falsas (35%).
🔸 Falando em cenário eleitoral… O fundador do MBL, Renan Santos, aparece como o terceiro colocado no último levantamento AtlasIntel/Bloomberg. Segundo a pesquisa, ele foi o pré-candidato que mais cresceu desde abril. Ele cresceu de 5% para 7,8% das intenções de voto no primeiro turno, desempenho superior ao de qualquer outro nome avaliado pela pesquisa. O Intercept Brasil lembra reportagens publicadas entre 2020 e 2024 sobre os bastidores do MBL. As investigações incluem áudios que mostram dirigentes discutindo como minimizar o impacto do caso das rachadinhas de Flávio Bolsonaro, relatos e mensagens que apontam uma cultura de misoginia no movimento, além de denúncias de tolerância a integrantes ligados a grupos neonazistas.
🔸 Ao menos 60% dos homicídios dolosos no Brasil não chegam a ser esclarecidos. Em estados como Rio Grande do Norte (91%), Bahia (86%), Rio de Janeiro (77%) e Piauí (77%), o número é ainda maior, segundo relatório do Instituto Sou da Paz. A Ponte detalha o levantamento e mostra que crimes cometidos em territórios marcados pela violência, desigualdade e exclusão social têm menos chances de serem solucionados, ou seja, fatores como renda, raça e condições socioeconômicas influenciam a resposta do Estado. Especialistas afirmam que o padrão reflete a teoria da “desvalorização da vítima”, atribuída ao sociólogo americano Donald Black, segundo a qual homicídios de pessoas negras, pobres e periféricas tendem a receber menos prioridade das instituições.
🔸 Outro levantamento sobre violência mostra que o Amazonas registrou a maior proporção de pessoas negras mortas por intervenção policial entre nove estados monitorados em 2025: 96% das vítimas eram negras. Segundo a Rede de Observatórios da Segurança, há ainda uma mudança no perfil da letalidade policial no estado, que passou a se concentrar no interior, responsável por 62,8% das 43 mortes registradas no ano, em 16 municípios. O Vocativo destrincha o documento e conversa com os pesquisadores Fabio Candotti e Tayná Boaes. Eles associam o movimento de interiorização à expansão da política de combate às facções e destacam ainda o apagamento estatístico da população indígena. Pelo terceiro ano consecutivo, nenhuma vítima foi identificada como indígena, apesar de o estado ter 12% da população autodeclarada indígena.
🔸 Uma mulher de 62 anos foi resgatada de uma situação de trabalho análogo à escravidão em um condomínio de luxo em Eusébio (CE), onde trabalhou por mais de 50 anos para a mesma família. Segundo a Revista Afirmativa, ela foi levada para a casa dos “empregadores” aos 7 anos. Nunca recebeu salário, não teve acesso à educação nem aos direitos trabalhistas e passou por três gerações da família exercendo serviços domésticos. No momento do resgate, ela estava na casa da bisneta da primeira patroa, cuidando de duas crianças, de 7 e 11 anos. Mesmo após o resgate, a vítima permanece na casa onde viveu por décadas e passa por acompanhamento psicossocial para se adaptar à vida fora da relação de exploração. A família assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) que prevê o pagamento de R$ 50 mil em verbas rescisórias, a compra de um imóvel de pelo menos R$ 150 mil para a vítima, além da regularização das contribuições previdenciárias.
📮 Outras histórias
“Gosto de lembrar que o projeto nasceu da inquietação de uma menina de 10 anos, que não se conformava por não ter um espaço onde pudesse jogar bola. Na época eu dava aula em uma escolinha particular em outro bairro, chamei essa aluna para uma aula experimental e dali tudo começou a se desenhar.” A educadora física e treinadora de futebol Leide Souza se refere à origem do Pé de Moleca, criado por ela em parceria com a psicóloga Elânia Francisca. A Periferia em Movimento conta que a iniciativa é voltada para meninas de 7 a 14 anos no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, e combina treinos com rodas de conversa sobre puberdade, autoestima, saúde emocional, dignidade menstrual e sexualidade. “O futebol é a porta de entrada. É através dele que elas criam vínculos, se sentem seguras e trazem questões que fazem parte do cotidiano delas”, explica Leide.
📌 Investigação
As plataformas de apostas online usam ferramentas de inteligência artificial, psicologia comportamental e design persuasivo para garantir que as casas sempre vençam no longo prazo. Todos os dados do jogador são extraídos e transformados em uma experiência personalizada, pensada para mantê-lo jogando, com “quase ganhos” estratégicos e vitórias menores eventuais. A Agência Pública destrincha a engenharia e a matemática por trás das bets, cujo algoritmo usa as chances de um evento para definir a probabilidade de um episódio ocorrer, as chamadas odds, mas “a empresa nunca trabalha com odds ‘justas’”, segundo o desenvolvedor de jogos Leandro Melo da Costa. Ao lado das casas, quem também ganha são os influenciadores, que lucram diretamente sobre as perdas de seus seguidores por meio de programas de afiliados.
🍂 Meio ambiente
“Uma das preocupações principais do vovô é se a nova geração não continuar com a luta dele. É conosco, com a luta pelos avanços na nossa organização social e política dentro do nosso território e institucionalmente”, afirma Takakpe Tapayuna Mẽtyktire, neto do Cacique Raoni Mẽtyktire, uma das lideranças mais importantes do século. O povo Mebêngôkre, também chamado Kayapó, vive em territórios entre o norte de Mato Grosso e o sul do Pará, formando um dos maiores corredores contínuos de floresta protegida da Amazônia. Desde 19 de junho, Raoni está internado em São Paulo. Em entrevista ao Conversation Brasil, o neto do cacique fala das preocupações antigas e atuais da liderança e sobre o legado do avô. “Um dos sonhos do meu avô é ver demarcado o território onde ele nasceu, Kapoto-Nhĩnore, mas o processo anda devagar demais, mesmo a gente conversando com o presidente da Funai e com o Ministério dos Povos Indígenas. Ele quer muito ver isso acontecer. Podiam dar essa alegria e fazer essa homenagem a ele.”
📙 Cultura
Uma das poucas opções de lazer para jovens periféricos e de oportunidade para artistas locais, os bailes funks de São Paulo têm sido extintos ou reduzidos. Levantamento da Agência Mural mostra que ao menos nove pancadões muito tradicionais acabaram só em 2026 e outros seis reduziram significativamente de tamanho, atraindo menos pessoas e menos eventos. Entre esses últimos, estão os tradicionais Baile do Helipa, em Heliópolis, e o Baile na Rua da Sorte em Cidade Tiradentes. O principal motivo para o fim ou esvaziamento dos bailes é a repressão policial às festas e a seus frequentadores. “Eu saía com R$ 20 no bolso, tendo que pagar R$ 10 de passagem. Eu não tinha outra escolha [de lazer]. Ou eu estava no baile ou eu ficava em casa. Esse é o diferencial: a acessibilidade”, afirma Fernanda Santos Caly, conhecida como DJ CalyFer. “O baile da DZ7 era muito grande e minhas músicas tocavam lá. Como está acontecendo essa opressão, não tem mais música, baile, DJ, MC e nem gravação de clipe. E, querendo ou não, isso impacta todo mundo que trabalha com funk”, diz o funkeiro Alexandre Vinícius, o Vini DF.
🎧 Podcast
Desde a década de 1970, o Brasil vive uma transição religiosa, com o crescimento de evangélicos e neopentecostais e a redução do catolicismo hegemônico. Ao mesmo tempo em que os fiéis vivem em uma “redoma religiosa”, em que a fé molda todas as interações sociais e oferece suporte emocional e pessoal, essa bolha é tensionada pela politização dos púlpitos. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, mergulha na ascensão evangélica e por que as lideranças neopentecostais estão cada vez mais próximas do espectro politico de direita. O episódio reúne relatos que revelam que a substituição do acolhimento religioso por interesses partidários tem gerado desgaste espiritual e afastamento dos fiéis que não se identificam com esse caminho ideológico.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
De leilão de mulheres muçulmanas em um aplicativo à criação de deepnudes, a violência digital de gênero e seus impactos têm sido estudados por pesquisadores do mundo todo. Para além de golpes e fraudes, esse tipo de violência cria mais camadas para o abalo emocional, o medo e a revitimização das pessoas atingidas. Em coluna na Revista AzMina, Thiane Neves-Barros, pesquisadora em comunicação e direitos digitais, reúne dados sobre o contexto nacional e internacional dessas violências, detalha as intersecções de gênero e raça e mostra como identificar e combater essas práticas. “Menos de 40% dos países possuem leis de proteção, regulamentação ou regulação. Cerca de 1,8 bilhão de mulheres e meninas não têm qualquer amparo ou proteção legal contra esses crimes”, afirma.



