A emergência de saúde na terra Yanomami e a proibição dos filtros de cigarro
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🔸Três anos após a emergência sanitária na Terra Indígena Yanomami, a situação de saúde no território segue crítica. Em carta aberta ao presidente Lula (PT), lideranças como Davi Kopenawa e Ailton Krenak, indigenistas, médicos, cientistas e juristas denunciam a incapacidade do governo de conter doenças evitáveis e controlar a malária na maior Terra Indígena demarcada do país, em Roraima e no Amazonas. A Sumaúma mostra a íntegra da carta, que aponta surtos de coqueluche – com ao menos três mortes recentes –, avanço contínuo da malária desde 2022 e o ressurgimento de doenças como tuberculose, além de coberturas vacinais muito abaixo da meta de 95%: apenas 57,8% entre bebês e 73,5% entre crianças de até cinco anos. “Sr. Presidente Lula, a situação de saúde dos Yanomami continua muito grave”, diz a carta. Há críticas a falhas estruturais do Ministério da Saúde, como a baixa presença de equipes nas aldeias, a descontinuidade na formação de agentes indígenas e a precariedade na coleta de dados. Mesmo com o aumento de recursos e a redução do garimpo, os indicadores seguem alarmantes, com índices de malária muito acima do nível considerado de alto risco.
🔸 “Bacurau” da Amazônia: moradores do Baixo Acará, região rural do Pará, lembram do filme de Kleber Mendonça Filho no cotidiano – estão, como no longa, vivendo numa comunidade que desapareceu dos mapas oficiais, mas segue existindo no território. As comunidades que ali vivem denunciam o apagamento de seus territórios no processo de licenciamento ambiental de aterros que podem receber o lixo da Grande Belém. A Alma Preta conta que diversas localidades não aparecem no Relatório de Impacto Ambiental, apesar de levantamento da Defensoria Pública apontar ao menos 24 comunidades afetadas, das quais 15 são quilombolas. “Foi fácil sobrevoar a mata e fingir que não tem ninguém. Mas nós estamos aqui”, afirma o agricultor Ermilo Gomes do Rosário. O projeto prevê receber cerca de 1.700 toneladas de lixo por dia em uma área com nascentes e igarapés. Embora o parecer técnico da Secretaria de Meio Ambiente do Pará tenha sido contrário, o licenciamento avançou por decisão judicial.
🔸 Em Brasília, a semana será marcada por esvaziamento e articulações políticas, impulsionados pela reta final da janela partidária e pelo feriado da Sexta-feira Santa. Segundo o Congresso em Foco, até sexta-feira, deputados concentram esforços em negociações de filiação e montagem de chapas para as eleições de 2026, o que levou a Câmara a não convocar sessões deliberativas. No Senado, o trabalho também será reduzido, com poucos itens na pauta. O principal é a medida provisória 1.326/2025, que reajusta salários de policiais militares e bombeiros do Distrito Federal e de ex-territórios. O texto precisa ser votado até quarta-feira para não perder a validade.
🔸 “Meu apelo aqui, não só aos EUA, mas a todo o mundo livre, é este: observem as eleições do Brasil com enorme atenção”, pediu Flávio Bolsonaro em evento nos Estados Unidos. O pré-candidato do PL à Presidência participou da Conferência de Ação Política Conservadora, no Texas. A CartaCapital detalha o discurso de Flávio, que pediu ainda para que instituições estrangeiras monitorem as eleições brasileiras e façam “pressão diplomática” para garantir o que chamou de “eleições livres e justas”. Ele acusou, sem apresentar provas, o ex-presidente americano Joe Biden de interferir nas eleições de 2022, vencidas por Lula. Negou defender interferência externa direta, mas insistiu na necessidade de acompanhamento internacional. Ele também voltou a alegar perseguição política contra seu pai, Jair Bolsonaro (PL), e comparou a situação do ex-presidente à de Donald Trump.
🔸 Uma rede de perfis de fofoca nas redes sociais é usada para promover conteúdos de extrema direita, com ataques ao governo Lula e valorização de figuras bolsonaristas. O Intercept Brasil explica que páginas como a Alfinetei, com mais de 25 milhões de seguidores, operam como um “canhão eleitoral” ao misturar entretenimento com propaganda política disfarçada. O conteúdo seria impulsionado por patrocínios da 7games.bet, empresa ligada ao empresário Fernando Oliveira de Lima, apontado como aliado do senador Ciro Nogueira (PP-PI). A estratégia inclui promover nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), com publicações favoráveis e críticas direcionadas a adversários políticos.
📮 Outras histórias
Manaus lidera o ranking de iniciação sexual precoce entre capitais brasileiras: 44,7% dos adolescentes sexualmente ativos tiveram a primeira relação até os 13 anos, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) do IBGE. O dado contrasta com a tendência nacional de queda no início da vida sexual, mas indica maior exposição a riscos, agravada pela queda no uso de preservativos. O Vocativo destaca que o dado mais grave revelado pela pesquisa está relacionado à violência sexual: no Amazonas, 14% dos estudantes relataram já ter sofrido abuso, muitas vezes dentro da própria família. Também chama atenção a gravidez na adolescência, que atinge 14,2% das meninas sexualmente ativas no estado – o dobro da média nacional –, com forte impacto da desigualdade: alunas de escolas públicas têm oito vezes mais chances de engravidar.
📌 Investigação
O Ceará lidera há seis anos o desmatamento de restingas no país. Entre 2019 e 2024, a perda nacional desse ecossistema foi de 4.785 hectares, dos quais 3.101 hectares (65%) foram no estado. A restinga é uma vegetação de Mata Atlântica em torno das praias, onde floresce a salsa da praia, além de ser o local em que as tartarugas-marinhas e as corujas-buraqueiras fazem seus ninhos. Em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, a Eco Nordeste revela dados exclusivos da supressão das restingas cearenses e destrincha o cenário de destruição. A maior parte do desmatamento acontece devido à especulação imobiliária e à expansão dos empreendimentos voltados para o turismo. “Grandes complexos de resort, por exemplo, com gramados e campos de golfe, vão destruir a restinga ao trocar a vegetação nativa, cheia de biodiversidade e de serviços ecológicos, por áreas de grama cultivada, aguada, que não têm a biodiversidade nativa nem suas funções ecológicas”, afirma Marcelo Moro, professor do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Ceará (UFC).
🍂 Meio ambiente
Comunidades quilombolas que compõem a Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe – que abrange Ceará, Pernambuco e Piauí – passaram a receber ameaças de morte e de agressão física depois da titulação do território, em novembro de 2025. A disputa por terra e recursos hídricos estão no centro dos conflitos. O Eco conta como a Serra dos Mulatos, quilombo localizado no município de Jardim (CE), enfrenta assédios e ameaças, atribuídas a uma família latifundiária da região. “A família nunca usou essa terra para plantio ou manejo de gado. Sempre foi utilizada como um acesso aos recursos hídricos. Eles temem que, com a titulação das terras, fiquem impedidos de usufruir e explorar a água como eles faziam, que era de maneira irregular, já que eram fontes públicas. E, agora, o território é quilombola”, afirma José Fontenele, advogado do Escritório de Direitos Humanos e Assessoria Jurídica Popular Frei Tito de Alencar, da Assembleia Legislativa do Ceará.
📙 Cultura
“Antes dos conhecimentos acadêmicos, minhas fontes são os mestres e as mestras do circo, eles são os detentores do conhecimento. Mulheres e homens que se criaram debaixo da lona, sendo criados numa cultura de tradição oral que resiste ao tempo.” Helga Guedes coordena o programa Sou de Circo no Centro de Memória do Circo, em São Paulo. Sua trajetória no circo começou cedo: filha de Teófanes Silveira – Patrimônio Vivo de Alagoas e Mestre das Artes Brasileiras –, ela foi criada entre os trailers e o picadeiro da companhia familiar A Turma do Biribinha. À Revista Alagoana Guedes fala sobre a tradição do circo brasileiro e comenta a medida do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) que reconheceu o saber circense como bem cultural do Brasil no início deste mês: “É como uma reparação por tudo que vivemos de preconceito, desrespeito e desvalorização. Foi um grande presente, mas não é o suficiente, precisamos que esses benefícios que vem com o reconhecimento comecem a acontecer e alcancem aqueles que vivem há gerações sob a lona do circo”.
🎧 Podcast
“Eu sempre achava que não ia dar para ser poeta, que [isso] não era uma profissão”, afirma a poeta, jornalista, tradutora e pesquisadora Fernanda Bastos, uma das curadoras da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) nas edições de 2022 e 2023. Ao lado do companheiro Luiz Mauricio Azevedo, poeta, crítico literário e pesquisador, ela fundou a editora Figura de Linguagem. No “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, o casal conversa com a escritora Bruna Beber sobre como é dividir a casa com outro poeta e o que a vida conjugal traz para a escrita um do outro. “Eu não conseguiria sem ela, acho que rola isso. Não consigo pensar uma relação amorosa sem esse nível de mistura, de mistureba, uma miscelânea entre as fraldas do Francisco com a análise sociológica da Peppa Pig. É uma coisa muito louca”, diz Luiz.
👩🏾⚕️ Saúde
Vendidos como “redução de danos” ou “biodegradáveis” pela indústria do tabaco, os filtros não protegem os fumantes, incentivam uma inalação mais profunda da fumaça e estão ligados a um tipo mais agressivo de câncer, o adenocarcinoma pulmonar. O Joio e O Trigo mostra que a proibição de filtros de cigarro foi uma pauta inédita apresentada pelo Brasil na Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, organizada pela Organização Mundial da Saúde. “O filtro foi [amplamente] introduzido na virada das décadas de 1950 para 1960 nesse discurso de ‘redução de danos’, que é o mesmo usado para os cigarros eletrônicos, de ser uma forma de se fumar um cigarro ‘mais saudável’”, explica o epidemiologista André Szklo, pesquisador do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “Na prática, não se viu nada disso, porque esse filtro não filtra de fato, deixa passar uma série de compostos químicos e permite a inalação de partículas mais finas.”.




