A disputa da anistia na direita e as igrejas inclusivas para pessoas trans
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🔸Sem propostas, os pré-candidatos Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) se organizam em torno da mesma pauta: a defesa da anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A CartaCapital explica que os dois adotaram esse discurso como eixo central das pré-candidaturas e passam a disputar o mesmo campo político, com foco em pautas simbólicas e de lealdade, mais do que em agendas programáticas. Caiado entrou diretamente na disputa pelo eleitorado bolsonarista ao prometer uma anistia “ampla, geral e irrestrita”, movimento que interfere na estratégia de Flávio, que vinha usando a defesa do pai como principal bandeira. O cenário segue indefinido: a campanha oficial não começou, os dois se concentram mais na narrativa e na ocupação de espaço do que na apresentação de propostas concretas.
🔸 “Como era previsível, o escândalo do Banco Master se misturou ao processo eleitoral. Na pororoca que define o atual momento do país, ficou difícil discernir onde acaba um e onde começa o outro. Tem razão quem desconfia que as investigações podem ser prejudicadas pela disputa política; tem ainda mais razão quem acredita que o andamento e os resultados das eleições serão impactados pelas investigações”, escreve Fernando Barros e Silva. Em artigo na revista piauí, ele mostra como o caso Master e as eleições passam a se influenciar mutuamente – e podem deixar como saldo um cenário de “terra arrasada”. “Já vimos isso antes”, afirma o jornalista, para lembrar que, em 2018, o ambiente de desconfiança institucional e descrédito político levaram à ascensão de Jair Bolsonaro em 2018.
🔸 Já são ao menos 11 possíveis candidatos à Presidência, entre nomes já confirmados pelos partidos e outros ainda não apresentados, mesmo antes das convenções partidárias. O Jota lista quem são eles, de Lula e Flávio Bolsonaro a Samara Martins, vice-presidente nacional do partido Unidade Popular (UP) e coordenadora nacional da Frente Negra Revolucionária, e Ciro Gomes, que retornou ao PSDB em 2025 com o objetivo de ser candidato a presidente nas eleições deste ano.
🔸 Expulsas de religiões e violentadas em espaços religiosos, pessoas trans têm criado igrejas, terreiros e comunidades inclusivas no Brasil. São espaços que permitem que identidade de gênero e espiritualidade coexistam, muitas vezes a partir de releituras de textos sagrados e rituais, conduzidas por lideranças trans. A Revista AzMina narra trajetórias como a da pastora Jacque Chanel, 61 anos, fundadora da primeira igreja trans do país, a Séforas, e da reverenda Alexya Salvador, 45 anos, que propõe interpretações teológicas inclusivas. Além das igrejas cristãs, a reportagem mostra experiências em religiões de matriz africana, como terreiros transcentrados. É o caso da Aldeia dos Malungos, em Mauá (SP), liderado por Mãe Luyza, que reúne pessoas cis e trans em rituais de umbanda e candomblé. Ao combinar prática religiosa e acolhimento, o espaço funciona como abrigo para pessoas trans expulsas de casa ou vítimas de violência.
🔸 Decisões judiciais em Santa Catarina têm negado ou limitado medidas protetivas a mulheres em situação de risco, contrariando a Lei Maria da Penha e o entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ), segundo o qual essas medidas devem ser concedidas com base no histórico de violência e no risco potencial. O caso da advogada Mayara de Andrade exemplifica o problema: mesmo após denunciar ameaças e perseguição de um homem já réu por tentativa de feminicídio, a Justiça e o Ministério Público consideraram suficientes medidas cautelares, mantendo o agressor em liberdade. O Portal Catarinas mostra outros casos com um padrão semelhante. Joana (nome fictício), por exemplo, teve o pedido de proteção negado após 30 anos de violência, mesmo relatando ameaças com arma do agressor. Já Lúcia conseguiu medida protetiva, mas com prazo de 180 dias e condicionada à abertura de ação judicial e acabou tendo que se mudar para se proteger.
📮 Outras histórias
Em bairros periféricos de Salvador, as encenações da Via Sacra mobilizam jovens e comunidades em torno da fé. Mas não só: as apresentações organizadas por paróquias locais aproximam o público da história bíblica e revelam talentos artísticos. A Entre Becos conversa com atores e plateia das encenações em bairros como Águas Claras, Cajazeiras, Canabrava e também em cidades próximas, como Lauro de Freitas e Dias d’Ávila. “A Paixão de Cristo nas ruas é acessível e gratuita. Todos podem participar desse momento que traz reflexão para diversos públicos”, afirma o estudante Alejandro Oliveira, 21 anos, que interpreta Jesus em Águas Claras. Esta, aliás, foi sua quinta edição da Via Sacra. A advogada Railana Santos, que vive em Canabrava e interpretou Maria em Lauro de Freitas, diz que o conhecimento da história fortalece a atuação e conecta com a vivência do público: “Assim como Jesus teve a sua caminhada até o calvário, com sofrimentos e quedas, o jovem da periferia também tem esses momentos”.
📌 Investigação
A Vale foi a maior investidora da Lei Rouanet entre 2021 e 2024, com mais de R$ 1,05 bilhão investidos em 708 projetos apresentados por 435 proponentes. A organização que mais recebeu os recursos, porém, foi o Instituto Cultural Vale, mantido pela empresa para investimentos em manifestações culturais. Foram R$ 112,34 milhões para a execução de 12 projetos do instituto que reforça a marca da mineradora. A Agência Tatu analisou os principais patrocinadores e beneficiários da lei de incentivo à cultura por meio da renúncia fiscal. O Itaú e a Petrobras completam o pódio de financiamento. Com o dinheiro investido em 489 projetos, o Itaú concentrou 92,8% de seus recursos na região Sudeste – 71,9% apenas em São Paulo. Já a Petrobras, que destinou o dinheiro para 155 projetos, e 55,3% de sua verba foi para o Rio de Janeiro.
🍂 Meio ambiente
Estratégica para a conservação da biodiversidade costeira, sobretudo das tartarugas marinhas, a Reserva Biológica de Santa Isabel, no litoral de Sergipe, pode ser recategorizada para Parque Nacional. Na prática, isso significa que será permitida a presença de visitantes na unidade de conservação. É o que pretende uma emenda ao projeto de lei nº 2.511/2019, em tramitação no Senado. A proposta foi apresentada pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) e alterada por Laércio Oliveira (PP-SE). O texto prevê ainda a perda de quase metade da área atual da reserva e retira a exigência de largura mínima de sua zona de amortecimento. A Mangue detalha a importância da única Reserva Biológica do estado, que protege cerca de 45 quilômetros contínuos de litoral. “É um dos raríssimos espaços em que há continuidade entre praia e restinga. Qualquer interferência ali gera impacto direto, seja pela perda de vegetação, seja pelo assoreamento de lagoas”, explica Myrna Landim, bióloga e professora aposentada da Universidade Federal de Sergipe.
📙 Cultura
“Hoje no Brasil temos um espaço inédito para produções LGBTQIAPN+. Mas claro que isso não é garantido. Durante o governo Bolsonaro essas produções foram censuradas, e, dependendo do resultado das próximas eleições, isso pode acontecer de novo”, afirma o cineasta Felipe Sholl, que lançou na semana passada o longa “Ruas da Glória”. Ambientado no centro do Rio de Janeiro, o filme acompanha uma paixão arrebatadora entre o jovem professor de literatura Gabriel e o garoto de programa Adriano. Em entrevista à Revista O Grito!, o diretor fala sobre o novo trabalho, em que criou uma história com elementos de sua vida pessoal, mas que também ganhou uma dimensão mais ampla ao focar na questão da aceitação da homossexualidade.
🎧 Podcast
Depois de submarinos nazistas afundarem navios na costa brasileira em 1942, o Brasil se viu obrigado a entrar na Segunda Guerra Mundial. Formou-se a Força Expedicionária Brasileira (FEB) que foi à Itália para apoiar os aliados a combater os países do Eixo. Quase 25 mil pracinhas passaram nove meses na maior guerra da história, sem qualquer preparação e condições extremas no campo de batalha. Na volta, foram recebidos com descaso, voltaram à vida civil sem emprego e sem as casas prometidas pelo governo. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, narra a missão da Força Expedicionária Brasileira e explica como sua atuação ajudou a moldar as Forças Armadas de hoje.
👩🏾⚕️ Saúde
A falta de acesso a atendimentos especializados e a testes neuropsicológicos caros leva a população periférica a ter o diagnóstico tardio do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Mesmo após a detecção, falta uma rede de acompanhamento. A Agência Mural mostra que é comum que essas pessoas sofram com capacitismo e tratamentos errados, como os para depressão, ansiedade e até transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. “Era contido nas internações durante crises de meltdown e, quando ficava muito sobrecarregado, tinha shutdown. Isso gerava uma disfunção executiva, as pessoas, inclusive família, achavam que era preguiça. Fui submetido a intensos tratamentos medicamentosos, que me causavam efeitos colaterais”, relata o ator, produtor cultural e influencer Kelvin França De Lamare, que só obteve o diagnóstico de TEA aos 21 anos, quando conseguiu pagar uma avaliação neuropsicológica. Atualmente ele usa o Instagram para conscientizar e combater estereótipos, especialmente sobre pessoas das periferias.




