🔸 “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente Lula (PT) na abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, em Nova York, ontem. A 12 dias do primeiro turno das eleições, ele concentrou a fala na defesa da soberania nacional e criticou a interferência de potências em processos eleitorais – sem citar Donald Trump. Lula respondeu também às medidas dos EUA sobre facções criminosas brasileiras: “Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”. O Nexo detalha o discurso deste ano e relembra como foram os demais desde 2023, quando o presidente retornou ao Planalto. No primeiro, após a tentativa de golpe de 8 de Janeiro, a defesa da democracia dividiu espaço com o combate à fome. Em 2024, às vésperas da COP no Brasil, Lula criticou o negacionismo. Em 2025, condenou o unilateralismo depois que os EUA impuseram tarifas ao Brasil em reação à condenação de Jair Bolsonaro (PL). Agora, com a disputa contra Flávio Bolsonaro (PL), aliado de Trump, a soberania ganhou força: o presidente afirmou que não permitirá ataques internos ou externos à vontade popular.
🔸 Lula também lembrou que o Brasil tem minerais críticos e terras raras necessários à transição energética, mas disse que o país cobrará contrapartidas de quem quiser acessá-los. A exploração desses recursos, afirmou o presidente, deverá gerar valor no país, transferir tecnologia e abastecer setores estratégicos brasileiros. “Nossas riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro – e é em benefício dele que serão exploradas”, disse. Segundo a Eixos, a fala reforça a intenção do governo de fazer o Brasil participar das etapas de processamento e transformação dos minerais, em vez de apenas exportá-los como matéria-prima. O discurso ocorreu menos de uma semana após a sanção da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.
🔸 Em tempo: o presidente afirmou que 2025 teve o maior número de conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial. A informação é verdadeira: o Instituto de Pesquisa pela Paz de Oslo registrou 65 conflitos em 35 países, recorde da série iniciada em 1946. O Aos Fatos acompanhou ao vivo o discurso do presidente na ONU e checou oito afirmações dele. Todas receberam o selo “verdadeiro”. A checagem acrescentou contexto à fala de Lula de que ele retirou o Brasil do Mapa da Fome. O país saiu pela primeira vez em 2014, no governo Dilma Rousseff (PT), voltou no triênio 2019–2021 e deixou novamente a lista em 2025, durante o atual mandato.
🔸 De volta à crise do STF… Um contrato de advocacia de R$ 427 milhões expôs a atuação de pessoas chamadas em mensagens de Daniel Vorcaro de “Turma do KN”. Assessores do ex-banqueiro usavam a expressão para se referir ao desembargador Newton Ramos e à mulher dele, a advogada Camilla Ramos. As iniciais “KN” remetem ao ministro Kassio Nunes Marques, de quem o casal é próximo. O escritório de Camilla atuava em ações que poderiam render R$ 8,5 bilhões em precatórios ao Banco Master. Os honorários de R$ 427 milhões dependiam do êxito nesses processos, revela o Metrópoles. Nunes Marques votou a favor de uma tese que beneficiava as usinas ligadas a esses precatórios, e Camilla comemorou seu voto em mensagem a Vorcaro. Outras conversas mostram pedidos de hospedagem atribuídos ao ministro. Ele, por sua vez, nega ter pedido algo ao ex-banqueiro ou votado a favor dele e do Master.
🔸 Os temporais já afetaram 527 mil pessoas em 146 municípios do Rio Grande do Sul, segundo o balanço da Defesa Civil divulgado ontem. Mais de 3 mil moradores tiveram de deixar suas casas e cerca de 2,5 mil residências foram danificadas. As chuvas e os vendavais causaram quatro mortes e deixaram três pessoas desaparecidas. Os danos se espalharam por diferentes regiões. Em Pelotas, a Defesa Civil contabilizou mais de 330 mil pessoas afetadas pelos ventos intensos; na vizinha Rio Grande, houve 250 destelhamentos. Em Sapucaia do Sul, na região metropolitana de Porto Alegre, 456 pessoas estavam desalojadas e oito desabrigadas. Agora, informa o Sul21, os olhos se voltam aos rios do Estado, que novamente registram níveis elevados ou já acima da cota de inundação em alguns pontos. Em São Sebastião do Caí, o rio Caí chegou a 14,16 metros, acima da cota de inundação de 10,50 metros. O rio Taquari chegou a alcançar 20 metros em um ponto de medição.
📮 Outras histórias
“Comecei a votar muito cedo, o voto das mulheres, quando comecei a votar, tinha importância, mas ninguém valorizava.” Moradora de Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, Tânia Silva, 76 anos, lembra que votou pela primeira vez em 1968, durante a ditadura militar. Perto dela, moram Ingrid de Jesus, 27 anos, e Gislene de Jesus, 51 anos. Mãe e filha moram na mesma casa e concordam que o voto feminino é um direito básico que deveria ser garantido a todas as cidadãs. O Desenrola e Não Me Enrola destaca que, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, as mulheres são 54,9% dos 193,4 mil eleitores de Cidade Tiradentes. Gislene, conhecida como Lena, mantém o título eleitoral em Minas Gerais e justifica a ausência nas eleições há 28 anos. Ela se diz desacreditada da política: “Eu sei que é errado [justificar o voto] porque por mais que a gente se revolte com essa sujeirada, a gente tem que tentar colocar alguém um pouco melhor, né?”.
📌 Investigação
Uma juíza determinou o uso de tornozeleiras eletrônicas por quatro lideranças indígenas que denunciam ameaças em meio à disputa por terras com empresas de dendê no Pará. A decisão atinge indígenas dos territórios Turiwara e I’xing, no Vale do Acará. A magistrada também proibiu as lideranças de entrar em contato com funcionários da empresa de segurança Stive. Segundo o Varadouro, o processo começou após um episódio ocorrido em fevereiro. Os indígenas contam que vigilantes armados entraram no território Turiwara e fizeram imagens com drones. Eles foram retidos de forma pacífica por três dias na aldeia Tete y Kukun, enquanto a comunidade aguardava a chegada do Ministério Público Federal e da Polícia Federal. A Polícia Civil acusa as lideranças de extorsão mediante sequestro. Uma das pessoas incluídas na decisão, a cacica Yuna Miriam Tembé, afirma que nem estava no local. Já o cacique Paulo Turiwara diz temer que a tornozeleira permita localizar lideranças já ameaçadas e exponha ainda mais a comunidade: “Do jeito que esses empresários já querem nos matar, pagar um policial para fazer isso não custa nada”.
🍂 Meio ambiente
Estabelecer metas climáticas já não basta: o próximo governo terá de mostrar resultados. Esta é a mensagem de entidades de diferentes setores da economia e da agenda socioambiental que entregaram propostas aos candidatos à Presidência para o período de 2027 a 2031. O Reset analisa os documentos de quatro organizações: o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, o Instituto Talanoa e o Observatório do Clima. As propostas convergem em pontos como o combate ao desmatamento, a implementação do Código Florestal, o financiamento climático e a preparação para secas e desastres. A maior divergência está no petróleo. Talanoa e Observatório do Clima defendem o fim de novos leilões de exploração e uma mudança no modelo de negócios da Petrobras. O Observatório quer impedir também a abertura de novas frentes petrolíferas, como na foz do Amazonas. CEBDS e Coalizão propõem uma transição mais gradual, sem pedir o fim da exploração em novas áreas.
📙 Cultura
Um movimento formado por mais de 150 mulheres questiona como o Rio Grande do Sul distribui os recursos públicos para a cultura. O Peleia Braba aponta que os Centros de Tradições Gaúchas (CTGs) têm acesso a prêmios exclusivos do governo estadual e também podem concorrer nos editais abertos a outros segmentos. Em entrevista à Matinal, a produtora cultural Cris Cubas, uma das criadoras do movimento, afirma que “não se trata de negar recursos aos CTGs, onde também existem mulheres, pessoas pretas e demandas reais, mas de questionar escolhas de governo que reforçam financeiramente um segmento já historicamente favorecido”. O movimento questiona ainda a ideia de que o homem branco, rural e dono de terras represente sozinho a identidade gaúcha. “Essa narrativa hegemônica invisibilizou completamente o fato de que o Rio Grande do Sul foi edificado, fundamentalmente, por mãos negras e indígenas – e de mulheres”, diz Cris.
🎧 Podcast
A Amazônia deve ser pensada como “um lugar que nos projeta muito mais a um passado ancestral do que a um futuro ideal”, afirma o geógrafo Bruno Malheiro ao “LatitudeCast”, produção da Amazônia Latitude. Professor da Universidade Federal do Pará, ele fala dos castanhais, da terra preta e de plantas como o cupuaçu para mostrar que a biodiversidade amazônica guarda milhares de anos de conhecimento e de manejo dos povos indígenas. Daí vem sua proposta de pensar a região como o “avesso da utopia” – um lugar que já existe, construído por relações entre povos e natureza, e que não precisa esperar por um projeto de desenvolvimento para ganhar valor. Ao falar do que ainda lhe dá esperança, o professor volta aos povos que defendem seus territórios: “Eu ainda nutro a esperança desses rebeldes, dessa rebeldia territorial”.
✊🏾 Direitos humanos
“Quem está comigo é o neurodivergente que precisa contar as moedas para pagar a passagem.” Gregory França (PT), 24 anos, mora no Parque São Lucas, na zona leste de São Paulo, e concorre a deputado federal. Por conhecer as dificuldades financeiras de quem o apoia, decidiu não abrir uma vaquinha. Segundo ele, seu partido destinou cerca de R$ 19 mil à campanha, mas só R$ 400 chegaram às suas mãos. O restante foi usado em serviços jurídicos e propaganda na televisão. A Agência Mural mostra como candidatos com deficiência das periferias paulistas lidam com a falta de recursos para as campanhas. Não há reserva mínima do fundo eleitoral para essas candidaturas. Juarez Pereira (MDB), 43 anos, mora no Jardim São Luís, na zona sul, usa cadeira de rodas e está em sua sexta campanha. Ele diz que a escassez de verbas dificulta a contratação de equipe e a produção de material. Mas há diferenças entre as candidaturas: Gabriel Brito (PSD), influenciador com mais de 1 milhão de seguidores no TikTok, recebeu R$ 160 mil; Diego Pernoca (PSD), vereador de Poá, na Grande São Paulo, recebeu R$ 510 mil.



