Os detalhes da nova cela de Bolsonaro e os 'presos comuns' de Tremembé
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🔸 A prisão não é “uma colônia de férias”, afirmou Alexandre de Moraes ao transferir Jair Bolsonaro (PL) da Superintendência da Polícia Federal em Brasília para a Papudinha, como é conhecida a Sala de Estado Maior no 19º Batalhão da Polícia Militar. Na decisão, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) lembrou que a maioria das pessoas privadas de liberdade no Brasil enfrenta unidades superlotadas, com precariedade estrutural e restrição severa de direitos básicos. Moraes listou as críticas da defesa de Bolsonaro à cela em que ele estava – os advogados compararam o espaço a um “cativeiro”, disseram desconfiar da “origem da comida” e se queixaram da falta de uma SmartTV, entre outras. O Metrópoles mostra em imagens como é a nova cela do ex-presidente que liderou a trama golpista em 2022. Ele terá, por exemplo, chuveiro com água quente, cama de casal, horário de visita mais amplo e cinco refeições diárias.
🔸 Tratada como um espaço VIP, a Papudinha é para onde costumam ser enviados políticos e militares detidos. O defensor público Felipe Zucchini Coracini afirma que a realidade das alas VIP é diametralmente oposta à dos demais presos da Papuda. “Pela idade, em teoria, Bolsonaro poderia ser mandado para a ala dos idosos, mas isso nunca sequer foi cogitado", diz ele à Agência Pública. Nesse setor, a lotação máxima é de 177 presos, mas hoje estão lá 340 homens – apenas alguns dormem em camas, enquanto os demais usam colchões no chão. No relatório que fez sobre a ala de idosos, Coracini citou ainda refeições azedas, falta de higiene básica e celas sem ventilação. “É claro que a preocupação com Bolsonaro é legítima, mas ela deveria ser estendida a todos os detentos”, afirma.
🔸 O racionamento de água é a realidade há pelo menos um mês no Centro de Detenção Provisória (CDP) Marcos Amilton Raysaro, em Icém, no interior paulista. Em meio a temperaturas que chegam a 35 °C, familiares dos detentos afirmam que a falta de água impede a higiene básica, provoca acúmulo de fezes nas celas e tem causado adoecimento de presos, com relatos de febre e sintomas de virose. A Ponte reúne relatos de familiares que denunciam ameaças de punição a quem pede atendimento médico, o que dificulta a formalização de queixas. A situação viola a Lei de Execução Penal e é agravada pela superlotação: a unidade tem capacidade para 823 pessoas, mas, neste mês, abriga mais de 1.270.
🔸 Nas unidades prisionais femininas, falta dignidade menstrual: os estados gastam menos de R$ 3 milhões por ano com a compra de absorventes – cerca de 0,01% do orçamento total do sistema prisional. É o que mostra um levantamento do centro de pesquisa Justa, voltado à justiça e economia, com base em dados de 2023. A escassez leva detentas a improvisar com pedaços de colchão, panos sujos e tecidos para conter o fluxo menstrual, segundo relatos de ex-presas e pesquisadoras. O Notícia Preta detalha o documento e explica que não existe uma norma nacional que estabeleça a quantidade mínima de absorventes a ser distribuída. Em São Paulo, por exemplo, no ano de 2020, apenas cinco das 21 penitenciárias femininas do estado entregaram a quantidade mínima de absorventes definida pela Secretaria de Administração Penitenciária.
📮 Outras histórias
Quase oito anos após os tremores que revelaram o afundamento do solo de Maceió, causado pela mineradora Braskem, as primeiras condenações judiciais do caso saíram – e foram direcionadas não à empresa, mas às próprias vítimas. A Mídia Caeté informa que o Judiciário de Alagoas condenou integrantes de movimentos de vítimas por um interdito proibitório movido pela mineradora, relacionado a um protesto realizado em 2021 em frente à sede da empresa. O ato (pacífico) foi acompanhado por órgãos públicos e já havia se encerrado quando houve a atuação judicial. O caso evidencia o contraste entre a rapidez da condenação das vítimas e a lentidão na responsabilização da Braskem, que só foi indiciada em 2024 e denunciada pelo Ministério Público Federal em outubro de 2025.
📌 Investigação
Mais de 75% Terra Indígena Krenyê, no Maranhão, está dentro de um bloco concedido para a exploração de gás natural pela Eneva, uma das maiores produtoras privadas de energia do Brasil. “Uma sobreposição dessas é um estrangulamento de toda esperança, da liberdade, deles viverem ali em comunidade depois de um histórico de muito sofrimento”, afirma Rosimeire Diniz, missionária do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Embora a Constituição proíba a exploração de combustíveis fósseis em terras indígenas sem autorização do Congresso e sem a consulta a essas populações, o bloco PN-T-117 foi concedido pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 2017. Segundo a InfoAmazonia, a área faz parte da expansão da produção do Complexo Termelétrico Parnaíba, que abriga seis usinas de geração de energia elétrica abastecidas pelo gás extraído pela empresa. O bloco é o único ativo atualmente e pode começar a ser perfurado ainda neste ano. A Eneva detém ainda outros blocos de produção e exploração de gás, sobrepostos a territórios quilombolas e próximos ao Parque Estadual do Mirador.
🍂 Meio ambiente
Apenas 0,58% das emendas parlamentares individuais previstas no Orçamento, aprovado pelo Congresso para 2026, são para ações ambientais e climáticas. São R$ 154,03 milhões dos R$ 26,56 bilhões previstos, segundo o estudo “Emendas parlamentares na era dos extremos climáticos – na contramão do financiamento climático”, elaborado pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos a partir das informações do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2026. A Revista Cenarium destaca que na Amazônia Legal, estados considerados estratégicos para a política ambiental brasileira, como Acre, Amapá, Pará, Roraima e Maranhão, ficaram completamente fora das indicações parlamentares. Já o Amazonas deve receber R$ 400 mil em repasses, valor aquém do que os demais estados receberão: Rondônia (R$ 6,1 milhões), Tocantins (R$ 5,7 milhões) e Mato Grosso (R$ 5 milhões).
📙 Cultura
Depois de “O Agente Secreto” vencer o Globo de Ouro, começaram a circular nas redes sociais publicações desinformativas sobre a fonte de financiamento do longa. Os posts afirmavam que o filme seria fruto da Lei Rouanet e teria tirado recursos da educação e da saúde. Ao contrário do que dizem as publicações, a produção foi viabilizada por meio de investimentos privados e públicos internacionais e nacionais – este último por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), destinado a fomentar e promover o desenvolvimento da indústria audiovisual do Brasil. Ele existe desde 2006 e não tem vínculo com os recursos da Lei Rouanet. A Agência Lupa explica como funciona o FSA, cujo modelo é similar ao de diversos outros países cuja produção cinematográfica é reconhecida mundialmente, como a França, Reino Unido e Coreia do Sul. A reportagem ainda destrincha o investimento em “O Agente Secreto” e lembra que, em 2024, a indústria do audiovisual adicionou R$ 70,2 bilhões ao Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e gerou 608,9 mil empregos.
🎧 Podcast
Apesar de ser conhecido como “presídio dos famosos”, o Complexo Penitenciário de Tremembé recebe milhares de pessoas que não entraram no noticiário, mas o estereótipo dos crimes famosos distorce a percepção pública sobre a maioria da população carcerária – muitos em busca de ressocialização. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, acompanhou um dia de “saidinha” na penitenciária: na frente dos portões do setor feminino, algumas mulheres reencontravam suas famílias, mas outras pareciam perdidas. Diversos detentos saem às ruas sem dinheiro, sem instrução, com fome e vestindo a roupa mais estigmatizada do Brasil – o uniforme prisional.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Para ampliar a visão dos alunos sobre a África e reforçar a valorização da ancestralidade negra, a gestora de projetos educacionais Nathally Samara Rosa Miiller criou a disciplina eletiva “Expedição África: Uma viagem pelas raízes do Brasil”, voltada a estudantes da Escola em Tempo Integral Reunidas Duque de Caxias, em Caruaru (PE). Em artigo no Porvir, ela lembra que a iniciativa surgiu da percepção de que “muitos estudantes negros não se reconheciam como herdeiros da história e dos saberes africanos”. O projeto busca aprofundar a conexão entre o Brasil e as nações africanas que moldaram o país. “A disciplina propõe uma ‘viagem’ por nações como Angola, Moçambique e Nigéria. A cada aula, os estudantes são imersos na história, geografia e cultura de cada um desses países, desvendando as complexas influências que se manifestam em nossa cultura”, conta.




