A demarcação indígena travada e o cientista brasileiro no conselho do Papa
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🔸Um relatório da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) revela o avanço estruturado do lobby da mineração sobre terras indígenas na Amazônia. O documento, apresentado em meio ao Acampamento Terra Livre, em Brasília, mostra que existem ao menos 1.300 requerimentos minerários sobre terras indígenas na Amazônia. Destes, 390 têm sobreposição integral com esses territórios, um indicativo da pressão crescente sobre áreas protegidas pela Constituição. O Eco detalha o estudo, que denuncia uma articulação política e jurídica para flexibilizar direitos territoriais. Segundo o relatório, empresas e instituições financeiras usam o discurso da transição energética para justificar a exploração de minerais estratégicos. A análise também afirma que há um “sofisticado aparato de captura institucional” nos três Poderes, com influência de frentes parlamentares no Congresso e, no Judiciário, críticas concentradas ao Supremo Tribunal Federal (STF).
🔸 Apesar do avanço nas demarcações de terras indígenas no governo Lula – com 20 processos destravados em 2025 –, a maioria dos casos segue paralisada, sobretudo no Ministério da Justiça e Segurança Pública. Na Amazônia Legal, 57 territórios ainda aguardam tramitação, e quase metade dos processos depende da fase de declaração pela pasta. A InfoAmazonia destrincha o estado das demarcações no país. Quatro meses após anúncios feitos na COP30, apenas cinco processos avançaram, e seis permanecem estagnados. Nenhuma das terras homologadas foi regularizada. Para especialistas, a tese do marco temporal é o principal entrave. “A não demarcação de terras indígenas e a morosidade do Estado adoecem os povos indígenas. Colocam essas populações em situação de vulnerabilidade e em risco de vida. Também limitam o acesso a direitos e ao reconhecimento”, afirma a liderança Angela Kaxuyana.
🔸 A propósito: a pressão das lideranças indígenas em Brasília levou ao cancelamento de uma audiência na Câmara dos Deputados que discutiria projetos de hidrovias voltados ao escoamento de commodities na Amazônia. A decisão foi tomada na véspera do julgamento da Ferrogrão no STF, informa o Notícia Preta. A audiência reuniria representantes do governo e do agronegócio para debater obras nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins, mas foi criticada por não incluir participação equilibrada de povos indígenas nem especialistas com visões divergentes sobre o modelo logístico do Arco Norte.
🔸 Fevereiro de 2026 foi o mês com maior número de mulheres mortas por ações policiais em São Paulo em pelo menos 14 anos, com três vítimas registradas, revela a Ponte. Trata-se de um recorde na série histórica desde 2013. Dados da Secretaria de Segurança Pública indicam aumento da letalidade policial contra mulheres na gestão de Tarcísio de Freitas, que concentra 39% dos casos registrados no período recente. A reportagem lembra os casos de Ana Laura Pelarigo, 20 anos, Jayane Marcielly Silva Oliveira, 24 anos, e Karina Aparecida Ribeiro de Souza, 38 anos. Os familiares delas contestam as abordagens e apontam falhas no preparo dos agentes.
📮 Outras histórias
A reforma da Usina do Gasômetro, em Porto Alegre, colocou abaixo o projeto original do Teatro Elis Regina, um espaço cultural considerado inovador, idealizado em 1994 pela arquiteta Sylvia Moreira. As obras recentes desfizeram o que já havia sido feito, cerca de 70% do projeto. “Demoliram tudo o que estava pronto, o urdimento, camarins, as escadas. No dia em que eu vi a foto, não acreditei. Não tem nada”, afirma ao Sul21 a arquiteta. As fotos a que ela se refere foram divulgadas e mostram o teto do teatro praticamente cru, sem a estrutura de madeira que dava tratamento acústico e sem os urdimentos, estruturas usadas no teatro para fixar e movimentar cenários e iluminação. Responsável pelo projeto da reforma, o arquiteto Tiago Holzmann diz que o plano inicial preservava o teatro, mas foi alterado pela construtora durante a execução, sem acompanhamento técnico.
📌 Investigação
As plataformas digitais se tornaram engrenagens centrais do poder político. A massificação dos smartphones, o surgimento de ambientes virtuais fechados e a ascensão dos algoritmos de recomendação elevaram o poder das empresas que controlam a internet a um novo patamar. Essas ferramentas alavancaram o crescimento da desinformação online e foram instrumentalizadas por aspirações antidemocráticas. O “Ctrl+Fake: A Desinformação Como Projeto de Poder”, documentário do Aos Fatos, mergulha nas origens da internet e nos acontecimentos que levaram ao cenário atual. No episódio de estreia, a jornalista Tai Nalon, fundadora da organização, explica como conceitos como fake news, censura e liberdade de expressão foram capturados pela big techs e analisa a relação dessas empresas com políticos autoritários, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
🍂 Meio ambiente
Drones e aviões voam pela área rural no Maranhão em uma paisagem marcada por extensos blocos de monocultivos, onde o agronegócio sufoca os pequenos agricultores. Segundo a Amazônia Latitude, a pulverização aérea de agrotóxicos tem provocado impactos contínuos sobre os cultivos de mandioca, arroz e feijão e sobre a saúde de agricultores familiares e comunidades tradicionais. “Em algumas comunidades, a produção já não existe mais, porque ano após ano a gente é vítima desse veneno e nossa produção chega a zero”, afirma Maelson da Silva Bezerra, presidente da associação que representa o território do povoado de Guarimã, na porção leste do estado, que reúne 61 comunidades quilombolas.
📙 Cultura
“Estamos fazendo o papel que deveria ser do Estado: levar cultura de graça para o povo. Em pleno 2025, ainda há quem nunca tenha ido ao cinema. Isso revela o tamanho da desigualdade brasileira”, afirma Ton Lopes, coordenador de arte e cultura do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST) de São Paulo. Desde 2024, o projeto Cinema Sem-Teto promove exibições recorrentes de filmes em ocupações do movimento e conecta o direito à moradia ao direito à cultura. A Emerge Mag conta como a iniciativa impacta o cotidiano de populações historicamente excluídas. “Trazer o cinema para dentro das ocupações faz as pessoas se reconhecerem nas histórias”, diz Karina Holanda, uma das organizadoras do Cinema Sem-Teto na ocupação Elza Soares, na região centro-sul da cidade de São Paulo.
🎧 Podcast
Leitora de cordel, a escritora Gizelda Morais foi uma das primeiras doutoras de Sergipe. Sua atuação literária na prosa e na poesia teve um efeito combativo durante a ditadura militar e tratou de temas sensíveis, como o genocídio indígena, o racismo e a finitude humana. O “Mariscada”, produção da Mangue, conversa com o historiador e pesquisador Wagner Lemos, sobre o legado da autora. Ele destaca o papel da arte e do ensino como ferramentas de resistência e consciência social, elementos que sobressaem na obra de Gizelda. “No fim de sua vida, ela me deu um manuscrito de quando tinha 14 anos, e era um poema de cunho social. A visão de quem não esqueceu seu lugar e sua origem.” O pesquisador ainda critica o apagamento da memória cultural no estado e a importância de valorizar intelectuais locais em vida.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
“Sou um cientista, não sou um líder religioso. Mas enxergo que é muito importante que todo o mundo religioso veja que a fé tem que ser percebida também como uma maneira de salvar o planeta”, afirma o cientista climático Carlos Nobre, nomeado pelo Papa Leão 14 para compor o Conselho de Desenvolvimento Humano Integral. Ele é o único brasileiro entre os 11 especialistas de diferentes áreas escolhidos pelo Vaticano. Em entrevista ao Nexo, o pesquisador explica o papel do grupo, que deve incluir aspectos culturais, filosóficos, econômicos e até religiosos, e a importância da agenda climática para a Igreja Católica. “Tive uma enorme felicidade quando fui convidado para participar do Sínodo da Amazônia em 2019, lá no Vaticano. Foi muito bom. O Papa convidou líderes indígenas, comunidades locais da Amazônia, cientistas, especialistas dos setores econômico e cultural, e ali expomos todo o risco que a Amazônia corre.”




