🔸 A Globo decidiu cancelar o debate entre os candidatos à Presidência marcado para a noite de ontem, menos de uma hora antes da realização do programa, informa o Metrópoles. A emissora anunciou que recebeu duas intimações judiciais relacionadas ao evento que causam “insegurança jurídica” e representam uma “interferência indevida na liberdade” dos veículos de imprensa. Pouco antes de cancelar o debate, a emissora recebeu a informação da campanha de que Flávio Bolsonaro (PL) havia desistido de participar da sabatina. Ele, por sua vez, alegou “censura imposta ao evento pelo TSE”.
🔸 O filho de Jair Bolsonaro se referia à decisão da ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral, que proibiu a Globo de mostrar a cadeira vazia de Lula (PT) e de permitir que os demais candidatos dirigissem perguntas a ele no debate. O Jota explica que o presidente optou por não participar e conceder uma entrevista a um podcast no mesmo horário. Para a ministra do TSE, a exposição reiterada da cadeira vazia poderia produzir efeitos “que transcendem a simples informação ao eleitorado acerca do não comparecimento”. Houve ainda a decisão de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal. Ele autorizou Renan Santos (Missão) a participar do debate pouco antes do encontro. Segundo o Terra, o pedido foi apresentado pelo Solidariedade com base numa regra da própria emissora: em caso de desistência de um convidado, poderia ser chamado o candidato mais bem colocado na pesquisa Quaest entre os que não tinham presença garantida. Renan marcou 3% e liderava esse grupo.
🔸 Da negação do aquecimento global às declarações sobre o crescimento da economia, os discursos dos presidenciáveis acumularam erros e exageros durante a campanha. A Agência Lupa reúne checagens de debates, discursos e sabatinas dos seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas. Lula acertou ao citar os avanços na redução do desmatamento e o crescimento de 7,5% do PIB em 2010, mas errou ao afirmar que a economia só voltou a crescer acima de 3% após seu retorno à Presidência, em 2023. Flávio Bolsonaro mencionou corretamente os cerca de 83,9 milhões de inadimplentes, segundo o Serasa, mas negou o aquecimento global, atribuiu falsamente a criação do Pix ao pai e negou ataques às urnas eletrônicas, apesar dos registros de declarações suas que questionavam o sistema eleitoral.
🔸 “É curioso: essas são pessoas que não aceitam o risco de uma crise econômica, mas admitem sem estrilar o de uma crise democrática.” Em artigo na piauí, João Moreira Salles questiona os empresários e líderes do mercado financeiro que recebem Flávio Bolsonaro para jantares e encontros. Seu foco é quem teve acesso à educação e à informação, compreende os riscos autoritários da candidatura e, ainda assim, lhe confere legitimidade. “Ao reconhecer o rigor de sua análise sobre a situação econômica do Brasil, é justo perguntar por que suspende esse mesmo rigor diante dos riscos políticos da volta de um Bolsonaro ao poder.” Salles recupera a homenagem de Jair Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, defendida por Flávio, e percorre a trajetória do candidato, suas relações com personagens ligados às milícias e sua minimização da tentativa de golpe. Ele também critica Lula por não ter proposto um projeto de futuro, mas reconhece conquistas como a redução do desmatamento e a pacificação da questão militar. A distinção decisiva, para Salles, é que o atual presidente não ameaça a estabilidade democrática.
🔸 Os processos por violência política de gênero passaram de 15 em 2022 para 177 até meados de setembro de 2026, segundo o TSE. O Portal Catarinas mostra como ameaças de morte e violência sexual, perseguições e destruição de materiais de campanha atingem candidatas em diferentes estados. Em Jaraguá do Sul (SC), a advogada Fernanda Klitzke, candidata a segunda suplente de Décio Lima (PT-SC) ao Senado, foi agredida por policiais numa confraternização após uma agenda de campanha. A PM havia sido chamada depois de uma discussão sobre o volume do som. Fernanda conta que foi derrubada, chutada e atingida por munição de impacto controlado. “Uma candidatura que deveria estar discutindo propostas e o futuro de Santa Catarina precisou dedicar tempo e energia para lidar com as consequências de um episódio de violência”, diz a candidata.
📮 Outras histórias
“Quando me candidatei a vereadora, sabia que as chances de entrar na Câmara eram muito difíceis, porque Santo André nunca elegeu uma mulher negra.” Aos 23 anos, Thayssa Oliveira tenta agora chegar à Assembleia Legislativa de São Paulo pelo Movimento Pretas, candidatura coletiva do PSOL liderada por Mônica Seixas. Em parceria com o canal Amado Mundo, a Agência Mural ouviu sete candidatas das periferias sobre suas propostas e as dificuldades para conseguir recursos, estrutura e espaço em partidos majoritariamente comandados por homens. “As mulheres precisam ser olhadas em pé de igualdade dentro dos partidos e não mais como cotas”, afirma Eliana Fernandes (Solidariedade), mulher negra de Carapicuíba que disputa pela quinta vez um cargo político, agora para deputada federal. “Em todos os partidos nenhum preto vai ganhar nada de graça, tudo tem que ser muito conversado”, diz a ativista e influenciadora Sará Zará (Avante), candidata a deputada federal que já trabalhou como frentista, atendente de telemarketing, faxineira e trancista.
📌 Investigação
Treze empregadores com passagem pela Lista Suja do trabalho escravo doaram ao menos R$ 837,4 mil a 15 candidatos de nove partidos nas eleições de 2026. A Repórter Brasil cruzou prestações de contas entregues à Justiça Eleitoral até 16 de setembro com mais de duas décadas de registros da lista que reúne empregadores responsabilizados por submeter pessoas a condições análogas à escravidão. As contribuições alcançam diferentes campos políticos e cargos. A maior delas, de R$ 380 mil, foi feita por Rafael Bemerguy Sefer à campanha de reeleição do irmão, o deputado estadual Gustavo Sefer (PSD-PA). Rafael entrou no cadastro em abril de 2026, após o resgate de 17 trabalhadores na Fazenda Santa Maria, em Altamira (PA), onde havia alojamentos precários e falta de água potável. Já o empresário Simão Sarkis doou R$ 100 mil a Michelle Bolsonaro e R$ 100 mil a Bia Kicis, ambas candidatas do PL ao Senado. Sarkis foi incluído na Lista Suja em 2013, após o resgate de dez trabalhadores de uma fazenda em Paracatu (MG).
🍂 Meio ambiente
As irmãs Milagros e Lita Ferreyra, duas das empresárias mais poderosas da Amazônia peruana, são acusadas de comandar uma organização internacional de tráfico de animais silvestres. Em parceria com OjoPúblico e CasaMacondo, a Sumaúma reconstrói a trajetória das exportadoras, presas em julho após quase três anos de apuração de autoridades peruanas e estadunidenses. Segundo o Ministério Público do Peru, o grupo capturava tartarugas, bichos-preguiça, capivaras e outras espécies na floresta e usava documentos de criadouros legais para vendê-las como animais de estimação à China, aos Estados Unidos e a outros países. Milagros começou a trabalhar aos 9 anos, com peixes ornamentais, e ampliou o negócio por meio de parcerias com comunidades indígenas. Entre 2014 e 2023, o Peru exportou mais de 4,5 milhões de tracajás, pequenas tartarugas com manchas amarelas no casco. As empresas das irmãs responderam por mais da metade de toda a fauna exportada pelo país.
📙 Cultura
Um dos últimos cinemas de rua em atividade no Brasil, o São Luiz, no Recife, estreou um projetor a laser 4K e uma nova tela, com melhorias na imagem e no som. A primeira sessão com os equipamentos foi ontem, com a exibição de “A Odisseia”, de Christopher Nolan. O novo projetor e a tela se somam a um conjunto de ações que vêm transformando o São Luiz em um espaço cada vez mais dedicado à difusão, formação e preservação do audiovisual pernambucano. A Revista O Grito! lembra que o cinema tem quase mil lugares e foi inaugurado em 1952, às margens do Rio Capibaribe e junto à Ponte Duarte Coelho.. Entre 2023 e 2026, recebeu cerca de R$ 6 milhões em restauro e modernização. Em julho deste ano, o segundo andar do prédio passou a abrigar o Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano (CENA), espaço voltado à memória da produção audiovisual do Estado, reunindo parte do acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe).
🎧 Podcast
“Quando eu descobri que eu estava governando o país, mesmo sem estar no Planalto, eu entrei em verdadeiro desespero.” A professora e poeta Patrícia Tavares, do Rio de Janeiro, descobriu que sua carteira de trabalho digital registrava uma promoção a… presidente da República. Ela é uma das cinco pessoas entrevistadas no “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, que encontrou 2.216 registros com o cargo nos dados do governo desde 2003. Só naquele ano, aliás, o país teve 1.478 “presidentes”. A explicação oficial é um erro dos empregadores no preenchimento do código da ocupação. A partir dessa confusão, o podcast propõe uma brincadeira: o que esses “presidentes-surpresa” fariam se governassem de verdade? As respostas misturam propostas para educação, saúde e programas sociais com planos de posse que incluem milhares de balões, um show de Madonna e um salto de paraquedas.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
A proposta de criação de um Ministério da Segurança Pública, presente no debate eleitoral, abre uma discussão sobre o lugar da política migratória no Estado brasileiro. Em análise no MigraMundo, Paulo Illes, presidente da Rede Sem Fronteiras e ex-dirigente da área de migrações do Ministério da Justiça, defende que a reorganização vá além da transferência de departamentos: “O Brasil precisa de um desenho institucional capaz de tratar migração, refúgio e apatridia como temas de cidadania, acolhimento e proteção de direitos”. Ele explica que a Lei de Migração de 2017 afastou a ideia do migrante como ameaça e estabeleceu princípios de não criminalização, combate à xenofobia e igualdade de acesso a serviços. Para concretizá-los, “a solução mais consistente seria criar, no Ministério da Justiça, uma Secretaria Nacional de Políticas para Migrantes, Refugiados e Apátridas”. Ele completa: “Essa secretaria não deveria ser apenas uma elevação burocrática do atual Departamento de Migrações. Sua função seria coordenar a política nacional e seu plano, integrar respostas humanitárias”.



