A crise no combate ao trabalho escravo e o uso de IA em licenças ambientais
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🔸 Hoje, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, as operações de resgate estão suspensas. Uma paralisação de cerca de 400 auditores fiscais do trabalho vem travando as ações desde dezembro de 2025, mostra a Agência Pública. O impasse ocorre no momento em que o Brasil bateu recorde de denúncias em 2025, com 4.515 registros, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. A greve foi motivada por interferências do ministro Luiz Marinho em processos que resultariam na inclusão de empresas na chamada “lista suja” do trabalho escravo. Para os auditores, as revisões do ministro, chamadas de avocações, criaram uma “terceira instância recursal ilegítima”, enfraquecendo a Auditoria Fiscal do Trabalho. Como consequência, pelo menos quatro operações de resgate previstas para janeiro foram canceladas, e novas ações nacionais não devem ocorrer em fevereiro.
🔸 Alexandre de Moraes esteve ao menos duas vezes na mansão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em Brasília, em meio à crise financeira da instituição e a articulações políticas. O Metrópoles apurou que, no encontro do primeiro semestre de 2025, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) foi apresentado ao então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. À época, o Master buscava apoio do banco público para evitar a liquidação, em negociação que acabou barrada pelo Banco Central após reação negativa do mercado. Moraes também esteve na mansão de Vorcaro em novembro de 2024, quando acompanhou a apuração da eleição dos EUA que reconduziu Donald Trump à Presidência. A relação ganhou peso adicional com a revelação de um contrato de R$ 129 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia da esposa do ministro, em janeiro de 2024.
🔸 Diante do risco de mais avanço da direita no Senado em 2026, o presidente Lula (PT) decidiu priorizar a eleição de uma bancada forte neste ano e passou a articular uma espécie de “tropa de elite” do PT para disputar vagas na Casa. O Jota detalha a estratégia, que busca conter o ímpeto de diretórios estaduais do partido que defendem candidaturas próprias aos governos, desviando quadros competitivos do Legislativo. Para “dar o exemplo”, o presidente já fez movimentos concretos – determinou, por exemplo, que Gleisi Hoffmann dispute o Senado pelo Paraná, abrindo mão de uma reeleição quase certa à Câmara. Nos cálculos do PT, Lula só teria governabilidade com o apoio de ao menos 45 dos 81 senadores. Por isso, a meta é eleger entre 25 e 30 aliados em 2026, como forma de evitar que a oposição controle o comando do Senado e possa avançar em pedidos de impeachment contra ministros do STF.
🔸 Falando em eleições… A segurança pública será tema central do pleito, mas não sob a ótica de políticas públicas, escreve Cecília Olliveira, em artigo no Intercept Brasil. Ela afirma que “o medo se consolidou como o principal ativo político do Brasil contemporâneo” e, assim, o debate eleitoral tende a se afastar de projetos estruturais e se transformar em uma disputa sobre quem administra melhor o temor, com promessas de endurecimento, mais armas e menos controle como linguagem dominante das campanhas. “Nesse cenário, a milícia deixa de ser apenas um fenômeno criminal localizado e passa a ocupar um lugar central na compreensão da política brasileira”, afirma Olliveira, que destaca a “milicianização da política” – quando candidatos, partidos e governos passam a adotar o método miliciano de governar.
📮 Outras histórias
O governo do Amazonas vai renovar licenças ambientais com inteligência artificial, sem análise humana na etapa principal do processo. A mudança foi instituída por uma norma do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM), publicada em 22 de janeiro. O Vocativo mostra como funciona o novo modelo no estado: o sistema processa informações fornecidas pelo próprio interessado, cruza dados internos e, após a confirmação do pagamento da taxa ambiental, altera automaticamente o status do documento para “Licença de Operação Renovada”. Embora a norma mencione uma “validação humana posterior”, que deve ocorrer em até 30 dias após o pagamento da taxa, essa etapa não funciona como requisito, mas só como um mecanismo de monitoramento reativo. Com isso, a eficácia do controle ambiental passa a depender da capacidade do IPAAM de auditar um volume maior de processos gerados pela automação. Em tempo: o órgão é envolto em polêmicas, que incluem operações da Polícia Federal por emissão de licenças irregulares.
📌 Investigação
Sem licença para um projeto de exploração de ouro na região de Altamira (PA), a mineradora Belo Sun mudou de estratégia e agora busca fazer parte do cotidiano local. A empresa canadense tenta há 14 anos obter autorização para extrair 60 toneladas do minério numa área de 130 km de uma volta do rio Xingu, que seria uma das maiores minas de ouro a céu aberto do Brasil. Em meio à batalha judicial para passar o licenciamento para a esfera estadual, a mineradora aprofunda seus laços políticos na região. A Sumaúma revela que a companhia financiou o Festival de Cultura e Jogos Indígenas do Xingu, competição idealizada pela Prefeitura de Altamira que reúne 14 povos. O evento contou com representantes dos governos federal, estadual e municipal e exibia um enorme outdoor com o nome do projeto. A empresa ainda tem se esforçado para levar estudantes a conhecer sua sede em Altamira, e seus porta-vozes estão cada vez mais presentes na imprensa local.
🍂 Meio ambiente
A história do cão Orelha, animal comunitário que vivia na Praia Brava, em Florianópolis (SC), ganhou repercussão nacional e pode levar à criação da “Lei Orelha” no estado. O cachorro foi agredido por um grupo de adolescentes e precisou ser submetido à eutanásia depois de ficar em estado grave. A Polícia Civil abriu inquérito na Delegacia de Proteção Animal e, segundo a apuração, antes do ataque o mesmo grupo teria tentado afogar outro cachorro no mar. O Congresso em Foco informa que, depois do episódio, o deputado estadual Mário Motta (PSD) propôs um projeto de lei para criar mecanismos de responsabilização administrativa quando maus-tratos aos animais forem praticados por menores de idade. Em casos de lesão grave, o texto prevê que a multa para maus-tratos seja dobrada e triplicada se houver morte. A penalidade está prevista no Código Estadual de Proteção aos Animais e varia entre R$ 10 mil e R$ 20 mil. A proposta vai ser analisada pelas comissões da Assembleia Legislativa de Santa Catarina e, em seguida, irá a plenário.
📙 Cultura
Mais de 600 obras de arte afro-brasileira foram repatriadas neste mês e passaram a integrar o acervo do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador (BA). A coleção é composta por pinturas, esculturas, fotografias, xilogravuras, arte sacra, gravuras, estampas e outras tipologias. Segundo a Alma Preta, o conjunto foi reunido durante décadas, nos EUA, pela artista plástica Bárbara Cervenka e pela historiadora da arte Marion Jackson, que decidiram que as obras deveriam retornar de forma permanente ao país de origem. “O retorno dessas obras ao Brasil é fundamental para o enriquecimento do acervo e patrimônio artístico brasileiro, mas, principalmente, é de grande importância para o fortalecimento da nossa identidade e reconhecimento enquanto povo”, afirmou a ministra da Cultura, Margareth Menezes, em coletiva de imprensa na segunda-feira.
🎧 Podcast
Zilda Maria de Paula transformou o luto em uma rede de apoio mútuo e resistência política. Ela perdeu o filho Fernando Luiz de Paula no dia 13 de agosto de 2015 na maior chacina da história de São Paulo, com 29 mortos em Osasco e Barueri. Após o episódio, dona Zilda se tornou a principal figura por trás da Associação 13 de Agosto, que reúne mães e famíliares das vítimas do massacre. O “O Luto e a Luta: os 10 anos da Chacina de Osasco e Barueri”, produção da Ponte em parceria com a Central 3, o Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento da Universidade Federal de São Paulo e a Associação 13 de Agosto, revisita a trajetória individual de Zilda para revelar uma realidade coletiva, traduzida nos movimentos geográficos e sociais das classes trabalhadoras nas periferias de São Paulo.
🏃🏿♂️ Esporte
Em vídeo: a formação tática WM (3-2-2-3) no futebol foi a primeira a ser exportada globalmente e teve um reinado de cerca de três décadas. O nascimento desse estilo de jogo está ligado à mudança na lei do impedimento, em 1925, que reduziu para dois – e não mais para três – o número de defensores necessários para validar a posição de um atacante. O programa “Meio de Campo”, do Canal Meio, narra como surgiu o esquema tático e o papel inovador do técnico Herbert Chapman, que sistematizou o posicionamento dos jogadores e introduziu novidades como a numeração nas camisas. Essa formação influenciou profundamente o futebol brasileiro e vive um renascimento ao ser adaptada por técnicos renomados, como Pep Guardiola.




