O crime organizado nas eleições e os psicólogos nas plataformas digitais
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🔸 Em decisão inédita, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) propôs a perda do cargo de Marco Buzzi, ministro acusado de assediar e importunar sexualmente duas mulheres. É a primeira vez que um ministro é condenado a essa sanção. O Jota explica que o afastamento é imediato, mas a perda definitiva do cargo ainda depende de ação a ser ajuizada pela Advocacia-Geral da União (AGU) no Supremo Tribunal Federal (STF). Dos 28 ministros presentes, todos reconheceram as infrações atribuídas a Buzzi. A divergência foi apenas sobre a punição: quatro magistrados defenderam a aposentadoria compulsória, e a maioria acompanhou a comissão responsável pelo processo administrativo e votou pela disponibilidade com proposta de perda do cargo. Buzzi é acusado de importunar sexualmente uma jovem de 18 anos durante um passeio em uma praia de Santa Catarina. Após a denúncia, uma ex-servidora do gabinete do ministro no STJ também relatou ter sofrido assédio sexual no ambiente de trabalho.
🔸 Às vésperas de a Lei Maria da Penha completar 20 anos, propostas para alterar a legislação de combate à violência contra a mulher avançam no Congresso e nas assembleias estaduais. As tentativas de mudança atingem não apenas a Maria da Penha, mas também a Lei do Feminicídio e a Lei da Importunação Sexual. Levantamento da Gênero e Número, em parceria com o Inteligov, mapeou 1.190 propostas legislativas relacionadas à violência contra a mulher – 694 no Congresso, entre 2023 e 2025, e 496 nas assembleias estaduais em 2025. A análise revela que o esvaziamento ocorre em duas frentes: a perda de espaço de políticas estruturantes e o avanço de projetos que priorizam o endurecimento penal ou colocam em dúvida a palavra das vítimas e transferem para elas a responsabilidade por sua própria proteção. É o caso da lei que autoriza a compra do spray de pimenta para defesa pessoal de mulheres. “São maneiras de culpabilizar quem é agredido e colocar toda a responsabilidade da violência nas mãos de meninas e mulheres individualmente”, diz Daniela Auad, professora da Universidade Federal de São Carlos, onde integra o Observatório Mulheres.
🔸 A propósito: apenas entre junho de 2025 e junho de 2026, o Congresso recebeu 89 propostas para alterar a Lei Maria da Penha. Um em cada quatro projetos foi considerado desfavorável aos direitos das mulheres. Segundo levantamento da QuitérIA, inteligência artificial da Elas no Congresso, plataforma da revista AzMina, os textos apresentados incluem propostas para estender a aplicação da lei para homens, dificultar a concessão de medidas protetivas ou repetir mecanismos já previstos na legislação. Apenas 5,6% dos projetos são voltados a campanhas de prevenção e educação, consideradas fundamentais para reduzir a violência doméstica e as altas taxas de feminicídio no país. Entre os parlamentares com mais propostas consideradas desfavoráveis estão Júlia Zanatta (PL-SC), Delegado Caveira (PL-PA), Romero Rodrigues (Podemos-PB), Jonas Donizette (PSB-SP) e Amom Mandel (Cidadania-AM). A reportagem destaca ainda projetos de Wilder Morais (PL-GO) e Flávio Bolsonaro, ex-senador e atual candidato à Presidência pelo PL, que transferem aos delegados a decisão sobre medidas protetivas de urgência.
📮 Outras histórias
Um bombeiro militar no Amazonas é responsável, em média, por uma área de 1.168 km² – quase o tamanho do município de São Paulo. E cada policial civil é responsável, em média, por uma área de 824 km², quase dez vezes a média nacional. A Revista Cenarium destaca que os números, parte de um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ilustram os desafios enfrentados pelas forças de segurança no maior estado do país, onde rios substituem estradas e as longas distâncias dificultam a presença permanente do Estado. A dimensão territorial do Amazonas exige uma logística diferente para as forças de segurança e influencia o combate ao tráfico de drogas. O estado faz fronteira com Peru, Colômbia e Venezuela e possui uma extensa rede de hidrovias usada pelo crime organizado. Segundo o levantamento, ao longo dos cerca de 6 mil km do Rio Amazonas existem apenas dois postos de controle.
📌 Investigação
A atuação do crime organizado nas eleições deixou de ser um fenômeno localizado e passou a ameaçar a integridade do processo eleitoral em diferentes regiões do país. Na revista piauí, o jornalista Allan de Abreu parte do caso de Santa Quitéria, município do Ceará onde, nas eleições de 2024, o Comando Vermelho (CV) expulsou cabos eleitorais, assassinou um empresário ligado à campanha adversária, distribuiu drogas em troca de votos e ajudou a reeleger o então prefeito Braguinha (PSB), posteriormente preso e cassado. Levantamento feito pela reportagem a partir de relatórios de inteligência policial e de processos judiciais indica que, nas cinco últimas eleições no Brasil, 80 candidatos a deputado, prefeito e vereador estavam formalmente sendo investigados sob a suspeita de manter ligação direta com o crime organizado – sejam facções criminosas, sejam milícias, no caso do Rio de Janeiro. “Estamos vendo o início de um fenômeno muito grave, que vai mudar para pior a qualidade da atividade política no país”, afirma o cientista político José Maria Pereira da Nóbrega Júnior.
🍂 Meio ambiente
A filantropia voltada ao enfrentamento das mudanças do clima bateu recorde em 2024. Segundo relatório da ClimateWorks Foundation, as iniciativas de mitigação climática receberam entre US$ 11,7 bilhões e US$ 18,4 bilhões em doações de fundações e indivíduos, cerca de 30% a mais do que no ano anterior. Desse total, as fundações responderam por US$ 6 bilhões. A doClima informa que, apesar do crescimento, cerca de 70% dos recursos destinados a um único país ou região foram para Estados Unidos e Europa. Para mudar esse cenário, o relatório recomenda que as filantropias direcionem mais recursos ao Sul Global, invistam em parceiros locais e apoiem iniciativas lideradas nos próprios territórios. A eletricidade limpa recebeu o maior volume de recursos em 2024, com US$ 840 milhões. Já a área de alimentos e agricultura foi a que mais cresceu, com alta de 63%. No Brasil, o financiamento climático aumentou 30% em relação a 2023 e chegou a US$ 105 milhões em 2024.
📙 Cultura
Trinta anos após a morte de Caio Fernando Abreu (1948-1996), sua obra ainda conquista novos leitores e ganha adaptações. A mais recente é uma versão em quadrinhos de “Onde Andará Dulce Veiga?”, romance que já havia sido levado ao cinema em 2008. Em artigo na Quatro Cinco Um, Jurandy Valença afirma que a atualidade do escritor vai além do valor literário. Ao tratar de temas como amor, sexualidade, identidade, marginalidade e solidão, o autor antecipou debates que hoje ocupam o centro da vida cultural e política brasileira. “Sua literatura segue revelando, a cada interpretação, a força de um vocabulário tão pessoal que, paradoxalmente, também nos pertence. Suas palavras parecem ter sido concebidas para o futuro, que, na verdade, é um presente contínuo”, escreve Valença, que entrevistou Caio Fernando Abreu em 1995, meses antes de sua morte.
🎧 Podcast
“A Amazônia fala. A Amazônia está falando de múltiplas maneiras. Está na voz dos povos que resistem, na voz dos povos que propõem, na voz da própria floresta, que reage diante do colapso ecológico.” Para o economista equatoriano Alberto Acosta, autor de “O Bem Viver: Uma Oportunidade para Imaginar Outros Mundos”, a floresta deve deixar de ser vista como um depósito de recursos naturais e passar a ser compreendida como um território de vida. Acosta é o entrevistado do oitavo episódio do “LatitudeCast”, produção da Amazônia Latitude. O autor revisita a própria trajetória, da época em que via a exploração de petróleo como caminho para o desenvolvimento até a formulação do conceito de Bem Viver. Para ele, experiências dos povos indígenas amazônicos mostram que é possível construir uma relação baseada no equilíbrio entre comunidades e natureza, e oferecem respostas mais concretas à crise climática do que os compromissos firmados nas grandes conferências internacionais.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Para muitos psicólogos, a plataformização do trabalho representa uma opção “menos pior” em um mercado já marcado pela precarização. É o que afirma Matheus Silveira de Souza, professor e mestre em Direito do Estado pela USP. Em artigo no Outras Palavras, ele explica que plataformas como a PsyMeet, criada para oferecer terapia online a preços populares, tabelam consultas em R$ 30 e levam psicólogos a atender até 40 pacientes por semana para conseguir uma renda maior. Em pesquisa que ouviu 210 psicólogos, muitos relatam que a plataforma usa o discurso de cobrança de valor social como forma de garantir terapia para pessoas em vulnerabilidade, mas não fiscaliza se os clientes estão de fato em uma condição financeira instável. Para Souza, as plataformas aprofundam um processo de precarização que já existia na profissão, já que, em planos de saúde, profissionais chegavam a receber R$ 15 por consultas de 30 minutos, muitas vezes com pagamento apenas 60 dias depois. “[Os planos de saúde] São a experiência de plataformas antes das plataformas”, afirma.



