A Copa como palanque eleitoral e o ofício das raizeiras do Cerrado
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🔸A Procuradoria-Geral da República (PGR) rejeitou a segunda proposta de delação de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Segundo a PGR, o material não trouxe informações novas e continha relatos baseados em informações que o banqueiro teria apenas “ouvido dizer”, sem detalhar valores ou apresentar elementos mais consistentes. O Metrópoles informa ainda que o procurador Paulo Gonet se manifestou contra o pedido de prisão domiciliar feito pela defesa do banqueiro e analisou que o Supremo Tribunal Federal (STF) deve apontar um local que seja adequado ao cumprimento da pena. Hoje, Vorcaro está preso na Superintendência da Polícia Federal.
🔸 Falando em Vorcaro… antes de assumir o Master, o banqueiro ficou com o nome sujo no Serasa (empresa privada de análise e informações de crédito) em 2014 por causa de uma dívida de mais de R$ 1 milhão com um escritório de advocacia. Documentos obtidos pela Alma Preta, em parceria com o ICL Notícias, revelam que empresas da família Vorcaro contrataram serviços jurídicos para um empreendimento imobiliário em Belo Horizonte (MG), mas deixaram de quitar o contrato. A dívida, inicialmente de R$ 800 mil, foi renegociada e parcelada, mas apenas a primeira parcela, de R$ 500 mil, foi paga. O escritório tentou bloquear bens da família, sem sucesso. Vorcaro alegou que os advogados não cumpriram adequadamente o serviço contratado e agiram de má-fé ao manter seu nome negativado.
🔸 No argumento inicial de “Dark Horse”, a vilã do filme sobre Jair Bolsonaro (PL) era a imprensa. A Agência Pública teve acesso a um documento interno da produção, escrito por Mario Frias Filho e usado como base para o desenvolvimento do roteiro. Nele, a imprensa aparecia como uma das principais antagonistas da história, representada pela personagem fictícia Iara Lima, uma jornalista ligada ao Partido Comunista que teria participado de uma suposta conspiração para esconder os responsáveis pela facada sofrida por Bolsonaro em 2018. Segundo o argumento, jornalistas, advogados e magistrados fizeram uma campanha de desinformação para proteger o autor da facada, Adélio Bispo – narrativa que contraria as conclusões de três investigações da Polícia Federal de que ele agiu sozinho. O roteiro final, porém, suavizou a versão de Mario Frias e transformou a personagem da jornalista em uma aliada na busca pelos supostos mandantes do atentado.
🔸 O Congresso derrubou uma norma que organizava o atendimento de meninas vítimas de violência sexual nos serviços de aborto legal do país. Os parlamentares suspenderam a resolução n°258, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), aprovada em 2024. A Gênero e Número explica que, embora não altere o direito ao aborto legal previsto na legislação brasileira, a medida pode criar novas barreiras de acesso ao procedimento. “A resolução facilitava a vida de profissionais de saúde, da assistência social, da educação e do sistema de justiça. Como consequência, evitava que existisse diferença de condutas de cuidado e de proteção entre um serviço e outro”, diz Lígia Maria Aguiar, enfermeira de um serviço de aborto legal no Distrito Federal. A reportagem lembra que, somente em 2024, mais de 12 mil meninas de até 14 anos deram à luz no Brasil. Destas, apenas 158 tiveram acesso ao aborto legal.
🔸Ocupados em aproveitar a Copa do Mundo como palanque político, parlamentares e os principais pré-candidatos à Presidência usaram a estreia do Brasil no Mundial para reforçar pautas, criticar adversários e mobilizar apoiadores. O Congresso em Foco mostra como eles transformam o evento esportivo em vitrine para as eleições. No campo governista, Randolfe Rodrigues (PT-AP) compartilhou um vídeo que relacionava a Democracia Corinthiana à defesa da democracia. Já o presidente Lula (PT) pediu empenho aos jogadores e associou o esforço da equipe à representação do povo brasileiro. Na oposição, o empate em 1 a 1 com Marrocos virou gancho para críticas ao governo e ao PT. Nikolas Ferreira associou a seleção marroquina a símbolos petistas. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por sua vez, reforçou a identificação da camisa amarela e da bandeira nacional com o bolsonarismo.
📮 Outras histórias
O ofício de raizeiras e raizeiros do Cerrado foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O órgão destacou a importância dos saberes ancestrais de comunidades quilombolas, indígenas, de assentamentos rurais e de periferias urbanas de pelo menos seis estados brasileiros. A prática vai além da produção de remédios caseiros e envolve desde a identificação e o manejo sustentável de espécies do Cerrado até a coleta e a preparação de xaropes, garrafadas e chás, além da transmissão de conhecimentos ancestrais, realizada principalmente por mulheres. O Meus Sertões destaca que o reconhecimento também tem um significado político e jurídico. O dossiê apresentado ao Iphan relata casos de criminalização de raizeiras acusadas de fabricar remédios ilegalmente e aponta que a falta de proteção institucional colocava a atividade em situação de invisibilidade e risco de desaparecimento. Com o registro, o ofício passa a contar com proteção do Estado.
📌 Investigação
Fundamentais para o combate à insegurança alimentar em territórios vulnerabilizados, as cozinhas solidárias dependem, em grande parte, do trabalho voluntário, sobretudo feminino. O Joio e O Trigo visitou as iniciativas e encontrou mulheres cantarolando enquanto refogavam quilos de cebola, fazendo brincadeiras entre si e com os frequentadores, e atentas à mínima mudança de comportamento ou de frequência dos conhecidos. Ao mesmo tempo que a existência de cozinhas solidárias e outras iniciativas coletivas de gestão de cuidados são uma alternativa a essa organização nuclear e patriarcal da sociedade, também traz um paradoxo: se esse trabalho for voluntário e integral, essas mulheres servem como uma reserva de cuidado para a sociedade e concentram mais responsabilidades sobre si.
🍂 Meio ambiente
As florestas públicas não destinadas da Amazônia ficam em estado de alerta com a possibilidade de um novo El Niño intenso entre 2026 e 2027, combinado às decisões políticas da corrida eleitoral. É o que mostra o 4º Boletim do Observatório de Florestas Públicas, divulgado neste mês pela Amazônia de Pé em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). O documento aponta que esses territórios estão entre os mais vulneráveis ao desmatamento, às queimadas e à grilagem de terras. A Revista Cenarium mostra como a publicação relaciona a proteção dessas áreas ao cenário eleitoral de 2026 e ao agravamento da crise climática global. Para os autores, a união entre eventos extremos mais frequentes e escolhas políticas que afetam a governança ambiental poderá determinar o nível de proteção dessas florestas nos próximos anos.
📙 Cultura
Entre a manipulação dos militares da ditadura e a desconfiança dos torcedores, a seleção brasileira da Copa de 1970 deu ao brasileiro a possibilidade de abraçar um orgulho legítimo. As nuances e conflitos do tricampeonato são narradas na minissérie “Brasil 70: A Saga do Tri”, criada por Naná Xavier e Rafael Dornellas. No Farofafá, o jornalista Eduardo Nunomura resenha a produção, baseada em fatos reais.“As cenas gravadas em campo, com os atores, literalmente, com a bola no pé e fazendo as mesmas jogadas imemoriais são de tirar o fôlego. A câmera pulsa, balança e chacoalha o espectador tal como ocorre dentro de campo”, afirma. ”Se em terras brasileiras a paixão era mediada pela tensão política, no México o amor dos torcedores foi puro e imediato. Órfãos de sua própria seleção, os mexicanos adotaram o Brasil como o seu time do coração, criando uma atmosfera mística no Estádio Azteca.”
🎧 Podcast
“A bioeconomia não é uma gramática utilizada pelas populações que vivem na Amazônia. É um termo criado para utilizar a biodiversidade e transformá-la em economia, numa economia com oportunidade de crescimento. A prova dessa origem foi o apelo a grandes empresas ao desenvolverem as cadeias produtivas daquilo que existe na Amazônia como produção da biodiversidade, mas claro, numa escala econômica”, afirma Edna Castro, pesquisadora e professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA). O “LatitudeCast”, produção da Amazônia Latitude, recebe Castro, autora de um dos capítulos do livro “Utopias Amazônicas”, em que destrincha as engrenagens do neoextrativismo na região e o avanço do “colonialismo verde”.
✊🏾 Direitos humanos
A primeira surpresa da Copa 2026 aconteceu ontem, com o empate da Espanha contra Cabo Verde. O país africano estreou na competição contra uma das favoritas ao título e resistiu, com destaque para a atuação do goleiro Vozinha, 40 anos. O Terra resume a partida, frustrante para os espanhóis e louvável para os cabo-verdianos. O bom jogo de Vozinha foi o principal assunto nas redes sociais no Brasil. Puxado por um mutirão da CazéTV, o Instagram do atleta passou de cerca de 50 mil seguidores para mais de 1,7 milhão, com uma invasão de comentários de apoiadores brasileiros. Aliás, a conexão de Vozinha com o Brasil começa muito antes: seu nome, Josimar José Évora Dias, foi escolhido pelo pai em homenagem ao ex-lateral da seleção brasileira na Copa de 1986. Já o apelido veio por ter sido criado pelos avós. Convocado por Cabo Verde pela primeira vez em 2012, disputou quatro edições da Copa Africana de Nações e soma 89 partidas pela equipe. É o segundo jogador que mais vezes vestiu a camisa do país e um dos grandes ídolos cabo-verdianos.




