🔸 O Supremo Tribunal Federal encerrou sem decisão a sessão que analisava o pedido de investigação do ministro Alexandre de Moraes por supostas relações com Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master. Flávio Dino pediu vista e terá até 90 dias para devolver o processo, mas indicou que pode esperar o fim das eleições. Também ficou pendente a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes para suspender o julgamento, reunir os procedimentos contra Moraes e André Mendonça e sortear um novo relator. O placar provisório até aqui ficou em quatro votos contra a questão de ordem e três votos a favor. O Jota detalha a sessão marcada por acusações, insultos e gritos entre os ministros. O decano Gilmar Mendes acusou Mendonça de explorar eleitoralmente o caso ao retirar o sigilo das mensagens antes do 7 de Setembro e usou as expressões “pixuleco” e “boneco eleitoral”. Mendonça respondeu que o colega estava sendo leviano: “Não aponte o dedo para mim, não está falando com qualquer um”. Gilmar retrucou que “quem não se dá o respeito, não merece respeito”. O Terra informa como votou cada ministro.
🔸 Num dos embates da sessão, Moraes acusou Mendonça de atuar em favor de interesses políticos ao conduzir as investigações sobre o Banco Master. O ministro defendeu que seu caso fosse analisado em conjunto com o procedimento que questiona a atuação de Mendonça. Segundo Moraes, os dois processos compartilham fatos e provas, e a separação poderia produzir decisões contraditórias. A CartaCapital relata que ele também acusou o colega de ter pressionado a Polícia Federal para incluí-lo nas investigações: “Porque está a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país”. Mendonça negou a acusação. O confronto começou quando Moraes perguntou quem teria medo da Polícia Federal e cobrou a convocação de policiais, advogados e outras testemunhas para esclarecer a produção dos relatórios usados contra ele.
🔸 Em vídeo: “Eu peço, de certa maneira, desculpa ao povo brasileiro”, disse Cármen Lúcia, como mostra o Metrópoles. Última a votar na sessão, a ministra afirmou estar em estado de profunda consternação e tristeza diante dos acontecimentos recentes no STF. Disse ainda estar “um pouco até envergonhada” com a situação e lamentou que, a menos de 20 dias da eleição, a atenção esteja voltada para questões do Supremo. “O poder judicial existe para tranquilizar, e geramos intranquilidade.”
🔸 Horas antes da plenária, houve o vazamento de mensagens que citam filhos de ministros da Corte. Os diálogos entre Vorcado e Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, mencionam pagamentos mensais de R$ 500 mil destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques, por intermédio da Consult Inteligência Tributária. Na sessão, Nunes Marques declarou-se impedido de participar do julgamento sob o argumento de que, como presidente do Tribunal Superior Eleitoral, não se sentia confortável diante dos possíveis efeitos do caso sobre as eleições. O Nexo lembra ainda que outros diálogos revelam que Vorcaro procurou Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, para pedir ajuda com um “caso” em novembro de 2024. Os dois fizeram uma videoconferência, o banqueiro enviou um documento para análise e combinaram encontros no Rio de Janeiro e em Brasília; Rodrigo também sugeriu que Vorcaro escrevesse à secretária de seu pai.
🔸 A escalada da violência e das intimidações no oeste do Pará tem restringido a atuação de quem denuncia conflitos fundiários, garimpo, avanço do agronegócio e violações socioambientais na região. Nos últimos anos, profissionais do Tapajós de Fato, veículo independente de Santarém, foram perseguidos, ameaçados de morte e obrigados a deixar suas casas. Uma comunicadora sofreu um ataque a faca; os pneus do carro da equipe foram rasgados; e uma cabeça de gato acompanhada de um bilhete que apontava o fundador do site, Marcos Wesley Pedroso, como a próxima vítima foi deixada perto do veículo. Em parceria, Repórter Brasil, Agência Pública e InfoAmazonia detalham as ameaças e informam que o Tapajós de Fato desistiu de cobrir as eleições de 2026. O veículo, que já havia suspendido a cobertura das eleições municipais de 2024, pretendia acompanhar candidatos e investigar suas relações com garimpo, agronegócio e grandes obras. “Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, diz o coordenador de projetos João Paulo Serra.
📮 Outras histórias
Em 191 anos de existência, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul teve apenas 38 mulheres como deputadas estaduais. Neste século, somente 24 mulheres estão entre os 179 parlamentares eleitos, cerca de 13% do total. Atualmente, elas ocupam 12 das 55 cadeiras da Casa, a maior presença feminina já registrada. Na segunda reportagem da série sobre a assembleia do estado, o Su21 explica que o avanço ocorreu de forma lenta: em 2002, apenas duas mulheres foram eleitas; em 2022, foram onze, entre elas Laura Sito (PT-RS) e Eliana Bayer (Republicanos-RS), as primeiras mulheres negras escolhidas para o cargo no estado. A desigualdade é ainda maior na representação racial e LGBTQI+. Embora 21% da população do estado se declare negra, apenas 4% dos deputados eleitos desde 2002 são pretos ou pardos. A Casa nunca teve um parlamentar indígena, amarelo ou abertamente LGBTQI+. Nas eleições deste ano, três mulheres indígenas e 12 candidatos que se identificam como LGBTQI+ disputam uma vaga de deputado estadual.
📌 Investigação
O Banco Master tentou transferir quatro vezes ao Banco de Brasília (BRB) o direito de receber uma dívida de R$ 387 milhões garantida por 231 lotes de um terreno comprado por R$ 3,2 milhões, valor quase 121 vezes menor. A operação envolvia um empréstimo concedido à SI 04 Empreendimentos Imobiliários, ligada ao empresário Max Lobato Sales. Segundo documento obtido pela Alma Preta e pelo ICL Notícias, as três primeiras tentativas foram frustradas porque o Master não cumpriu exigências do cartório de Campos do Jordão (SP); a última não avançou porque a Justiça tornou indisponíveis os bens do banco. A SI 04 afirma ter recebido somente R$ 58 milhões dos R$ 387 milhões prometidos e diz que o restante ficou retido pela Justiça após a crise do Master. A empresa sustenta que a operação contava com outras garantias, entre elas seu saldo em um fundo indicado pelo próprio banco, e que foi prejudicada pelo bloqueio dos lotes. Parte da área oferecida como garantia apresenta irregularidades e inclui uma zona de preservação permanente.
🍂 Meio ambiente
Aos 94 anos, o cacique Raoni Metuktire enfrenta um câncer agressivo e recebe cuidados paliativos em casa, em Peixoto de Azevedo (MT), junto à família e ao seu povo. Os médicos diagnosticaram um adenocarcinoma cuja origem não foi identificada. Diante da idade, das condições clínicas e dos riscos de tratamentos como quimioterapia e uma nova cirurgia, a equipe recomendou cuidados voltados ao controle da dor. O Conexão Planeta conta que a assistência reúne profissionais de saúde e pajés, respeitando a cultura, a língua e as referências espirituais do líder Mẽbêngôkre. Nascido na bacia do Xingu, onde o Cerrado encontra a Floresta Amazônica, Raoni atravessou quase um século de ataques aos povos indígenas e se tornou uma das principais lideranças na defesa dos territórios e da floresta. Em perfil na Sumaúma, a bióloga Nurit Bensusan recupera sua resistência à abertura de estradas durante a ditadura, a atuação pela inclusão dos direitos indígenas na Constituição de 1988, a luta contra a hidrelétrica de Belo Monte e a denúncia apresentada contra Jair Bolsonaro ao Tribunal Penal Internacional.
📙 Cultura
Escritora e ativista dos direitos humanos, Maria Amélia de Almeida Teles, a Amelinha Teles, tornou-se uma das principais vozes contra os crimes da ditadura militar e também uma referência do feminismo e da luta por memória, verdade e justiça. Militante do Partido Comunista do Brasil e integrante da imprensa clandestina, ela foi presa em 1972 com o então marido, César Augusto Teles, e torturada pelo então major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Seus filhos, de 4 e 5 anos, também foram sequestrados e levados ao local. Em 2008, após uma ação movida pela família Teles, Ustra tornou-se o primeiro agente da ditadura declarado torturador pela Justiça. O Catarinas destaca a atuação de Amelinha para revelar como a repressão empregou a violência de gênero contra as mulheres que enfrentaram a ditadura. Ela denunciou práticas como estupros, desnudamento forçado, choques nos órgãos genitais, abortos provocados e ameaças contra crianças, além da impunidade dos responsáveis. Amelinha morreu ontem, aos 81 anos, em São Paulo.
🎧 Podcast
Dar whey protein e creatina a uma criança de 3 anos soa como uma excentricidade das redes sociais, mas revela uma história antiga: a ideia de que crianças precisam de alimentos especiais, produzidos ou enriquecidos pela indústria. O primeiro episódio da série “Pratinho Cheio”, produção d’O Joio e O Trigo, volta ao fim do século 19 para mostrar como a alimentação infantil se tornou um problema de saúde pública – e um mercado. Em 1890, 213 de cada mil bebês morriam antes de completar um ano no Rio de Janeiro, então capital do país. A farinha láctea Nestlé, chegada ao Brasil em 1876, difundiu-se como uma alternativa barata e segura ao trabalho das amas de leite e ao leite de vaca, frequentemente contaminado. A historiadora Gisele Sanglard, da Fundação Oswaldo Cruz, explica que a expansão desses produtos consolidou “o mito de que o produto industrializado é melhor do que o in natura”.
🧑🏽⚕️ Saúde
Dois em cada três adolescentes homens que fazem sexo com homens nunca realizaram um teste de HIV, segundo estudo conduzido pela Universidade Federal do Ceará e instituições parceiras. A Agência Bori detalha a pesquisa que ouviu 287 jovens de 15 a 19 anos em Fortaleza (CE) e São Paulo (SP). Entre os entrevistados, 38% disseram não usar preservativo em todas as relações, 44% tiveram múltiplos parceiros nos três meses anteriores e 24% relataram práticas sexuais associadas ao consumo de álcool ou outras drogas. O consumo semanal de álcool, aliás, quase triplicou a frequência de relações sem preservativo, e mais de 90% dos adolescentes com parceiros fixos adultos relataram sexo desprotegido. “Um adolescente pode conhecer a importância do preservativo e, ainda assim, estar inserido em uma relação na qual possui menor poder de negociação ou em um contexto marcado por violência, estigma e desigualdades”, afirma Marto Leal, pesquisador do Departamento de Saúde Comunitária da UFC e autor principal do estudo.



