Olá, bom dia!
A Brasis que chega hoje até você é especial: esta é a milésima edição da newsletter da Ajor. Começamos essa história em setembro de 2022, com o propósito de levar a mais leitores a pluralidade do jornalismo digital brasileiro e dar visibilidade à produção das associadas à Ajor, que hoje reúne mais de 150 organizações em todas as regiões do país.
A cada edição, buscamos histórias que nos ajudem a compreender o Brasil a partir de seus diferentes territórios e realidades. São reportagens bem apuradas, que dão espaço a personagens, ouvem especialistas e apresentam novas perspectivas sobre assuntos importantes para a sociedade. Um jornalismo plural, crítico e investigativo, comprometido com a diversidade e a defesa dos direitos humanos. É uma honra reunir essa produção tão valiosa e abrir caminhos para que ela encontre mais leitores.
A quem nos acompanha desde o início e a quem acaba de chegar, meu muito obrigada pela confiança. Celebrar esse marco com vocês é uma alegria. Há muitas histórias ainda por contar, descobrir e compartilhar. Que venham outras mil edições.
Boa leitura!
Audrey Furlaneto
Editora da Brasis
🔸 O TSE determinou que a Meta comprove, em 24 horas, a adoção de medidas para garantir tratamento isonômico às campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), e elevou a multa diária por descumprimento para R$ 1 milhão até o fim do segundo turno. Segundo o Sul21, a decisão veio após a empresa não apresentar, no prazo inicial de 72 horas, informações sobre a acusação de restringir seletivamente conteúdos da campanha petista e de aliados. A Meta deverá explicar seus sistemas de recomendação, apresentar dados de alcance dos anúncios das duas candidaturas e informações sobre investigações de redes de perfis inautênticos e identificação de conteúdos produzidos ou alterados artificialmente.
🔸 O presidente Lula afirmou ontem que pretende entregar à Justiça Eleitoral uma autorização para a abertura dos sigilos fiscal, bancário e telefônico dele e de seus cinco filhos, e desafiou Flávio Bolsonaro a fazer o mesmo. Segundo o Congresso em Foco, o senador Camilo Santana (PT-CE) esclareceu que a medida depende de reciprocidade: os dados de ambos se tornariam públicos caso Flávio aceitasse o desafio. “Eu vou entregar isso amanhã no Tribunal Eleitoral, na expectativa de que o candidato adversário apresente a proposta para abrir o seu sigilo, das suas empresas e das suas famílias”, disse Lula. A iniciativa ocorre após a escalada de acusações entre os candidatos no debate do último domingo.
🔸 Falando em debate… “É muito equivocado, por exemplo, um formato onde os mediadores não têm um papel tão importante. O ideal é que tivesse equipes de checagem de fato no momento do debate, porque exige uma responsabilidade pública nesse sentido”, afirma Bhreno Vieira, doutorando em Ciência Política pela UFPE. O Portal Terra conversa com cientistas políticos sobre o formato. Para Mayra Goulart, professora da UFRJ, uma vez que os candidatos são de campos políticos muito distintos, há uma dificuldade de reproduzir na TV uma troca construtiva de temas e oposição das ideias. “Quando os candidatos partem de realidades completamente diferentes, muitas vezes as respostas deixam de ter a função de esclarecer e passam apenas a reforçar convicções já existentes”, afirma Goulart.
🔸 A propósito: a ausência de checagem ao vivo nos debates eleitorais não decorre da falta de interesse dos checadores, mas da resistência de candidatos, do recuo dos organizadores, de interesses comerciais e de dificuldades jurídicas. Em editorial, a Lupa informa que, desde sua fundação, em 2015, a agência negocia com emissoras e organizadores formatos como letreiros na tela, intervenções entre blocos e resumos de falsidades logo após os programas. As conversas frequentemente emperram quando chegam às campanhas, de diferentes partidos e posições ideológicas, que resistem à presença dos checadores.
🔸 “Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara”, afirma Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara, morta aos cinco anos em fevereiro de 2021, em Niterói (RJ). Ela assistiu ao debate em que Lula perguntou seguidas vezes ao adversário sobre a morte da criança. A Agência Pública ressalta que, na sequência do confronto entre os presidenciáveis, a hashtag #PesquiseOCasoAnaClara se tornou um mantra nas redes sociais. O motivo: Flávio é o advogado que manteve o policial Bruno Dias Delaroli, réu pelo assassinato da menina, fora da prisão até agora. O julgamento, inicialmente previsto para abril de 2026, foi adiado para maio de 2027. Cristiane recebeu apoio nas redes, mas também sofreu ataques de apoiadores de Flávio e relata ameaças na região onde vive. Ela conta que foi despejada da casa onde morava de favor porque o proprietário é bolsonarista. Aos 27 anos, enfrenta crises de pânico e depressão, faz faxinas e procura emprego fixo.

📮 Outras histórias
No Mercado Municipal de Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri (MG), peças de carne bovina penduradas em ganchos preservam um ritual atribuído aos tropeiros que percorriam a região há mais de um século: a carne de sol serenada. O BHAZ detalha a origem da tradição e explica que a diferença entre a serenada e a carne seca está no tempo de cura e na intensidade da salga e da desidratação. “Esta é uma região muito antiga de rotas de viajantes e tropeiros que precisavam fazer viagens longas e levar o alimento bem conservado. É muito típica da nossa terra essa cura da carne de sol e a exposição dela para pegar os sabores”, conta a chef de cozinha Mariana Machado, 42 anos. A tradição permanece pelo trabalho de famílias que mantêm as bancas há gerações. Na Banca 98, Mariana compra cerca de 100 quilos de carne de sol por semana para produzir hambúrgueres artesanais.
📌 Investigação
Clubes de tiro oferecem descontos em armas, munições e serviços com referências ao número de urna de Flávio Bolsonaro, apesar da proibição de propaganda eleitoral por pessoas jurídicas. O Núcleo identificou anúncios no Instagram em diferentes estados, com ofertas de rifles calibre .22, abatimentos de 22% e benefícios condicionados à derrota de Lula. Algumas publicações foram apagadas após o contato da reportagem. “Juntar o incentivo à compra de arma com propaganda eleitoral é uma ilegalidade explícita”, afirma Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz. Um dos casos é o Clube de Tiro, Caça e Colecionismo Bala de Prata, ligado ao procurador do Pará Flavio Luiz Rabelo Mansos Neto. Em 13 de outubro, o estabelecimento começou a impulsionar um anúncio com desconto de 22% na filiação e na obtenção do certificado de registro para colecionadores, atiradores e caçadores. Em verde e amarelo e com a frase “Brasil acima de tudo!”, a promoção tem validade até o segundo turno, em 25 de outubro.

🍂 Meio ambiente
Sete ex-ministros do Meio Ambiente e quatro ex-presidentes do ICMBio assinam um manifesto em defesa das unidades de conservação, do instituto e das políticas ambientais. Embora a carta não cite Flávio Bolsonaro nominalmente, segundo o Conexão Planeta, o candidato prometeu rever o papel do Ibama e do ICMBio, eliminar “amarras ambientais”, acelerar o licenciamento, expandir a mineração e apoiar o fraturamento hidráulico, conhecido como fracking. O ICMBio administra 348 unidades de conservação no país. “As unidades de conservação e o ICMBio não pertencem a um governo. São patrimônio do Estado Brasileiro e da sociedade”, afirmam os signatários. Entre eles estão os ex-ministros Marina Silva, Rubens Ricupero, Carlos Minc e Izabella Teixeira, além de Cláudio Maretti, ex-presidente do ICMBio.
📙 Cultura
A Globo tem apresentado seu conteúdo aos anunciantes como um ambiente mais seguro para marcas e consumidores do que as plataformas das big techs. O Notícias da TV mostra que os planos comerciais para 2027 destacam índices de “saudabilidade”, associados à confiança do público e à proteção contra a vinculação de publicidade a notícias falsas e fraudes. A estratégia inclui o GloboPop, plataforma digital com a qual a empresa busca retomar o controle sobre a distribuição e a curadoria de seus conteúdos, hoje dispersos em redes de terceiros, como Meta e Google. Nos planos, a Globo apresenta o Fantástico como “blindado em reputação de marca”, com 97% de “saudabilidade”, e o GloboPop como um ambiente “100%” seguro para marcas. A aposta é que a confiança do público no jornalismo valorize os patrocinadores: a cota do Jornal Nacional para 2027, por exemplo, custa R$ 360,7 milhões.
🎧 Podcast
“É uma baita forma de desorganizar o sistema único de saúde e de produzir iniquidade”, afirma o ex-ministro da Saúde Arthur Chioro ao avaliar o financiamento do SUS por emendas parlamentares. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, mostra como o crescimento das emendas retira recursos do planejamento integrado do SUS, favorece desperdícios e pode aprofundar desigualdades. A participação delas no orçamento do Ministério da Saúde passou de 4,9% em 2016 para 10,8% em 2025. No Amapá, responderam por 42% dos recursos destinados ao SUS entre 2016 e 2025, a maior proporção do país. Sem articulação com o planejamento regional do SUS, esses repasses podem gerar estruturas desnecessárias e falta de serviços em outras localidades. Uma cidade pode receber dinheiro para construir uma UTI quando precisa ampliar o tratamento de câncer ou o atendimento do Samu, por exemplo.

✊🏾 Direitos humanos
Joyce cresceu como a única pessoa com albinismo em sua família e círculo social, sofreu bullying na escola e chegou a pintar o cabelo para esconder suas características por pressão de outras pessoas. “Minha relação com o espelho não foi fácil… sempre querendo me mudar para poder parecer uma pessoa sem albinismo”, lembra. O contato com organizações como a Associação das Pessoas com Albinismo no Brasil (Apalbr) ajudou a romper esse isolamento. O Eficientes explica que a história de Joyce também está relacionada à desinformação e ao capacitismo: o albinismo é uma condição genética caracterizada pela ausência ou redução de melanina, e não uma doença contagiosa. “Pessoas com albinismo frequentemente enfrentam apelidos pejorativos, estigmatização, isolamento social, bullying escolar e preconceito no ambiente de trabalho”, afirma a Apalbr. A proteção da pele esbarra no custo de produtos e na dificuldade de acesso ao acompanhamento médico. “O acesso a protetores solares, roupas com proteção UV e acompanhamento dermatológico não é luxo, mas necessidade médica essencial”, afirma a dermatologista Natália Nascimento.
