O cerco à produtora de 'Dark Horse' e o papel das domésticas na literatura
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🔸O deputado Mario Frias (PL-SP) destinou R$ 1 milhão em emenda parlamentar ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG ligada à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Mas, na prática, revela o Intercept Brasil, R$ 700 mil acabaram subcontratados para uma editora de Dayvid Moreira Medeiros – denunciado em agosto de 2024 pelo Ministério Público da Paraíba (MPPB), por contratação irregular sem licitação, fraude em licitação e desvio de dinheiro público – e também para a empresa de uma funcionária de outra editora dele. A reportagem lembra que Karina Ferreira da Gama já estava sendo investigada sobre o recebimento de recursos públicos por meio de emendas parlamentares e contratos governamentais. Ontem, a ONG dela foi alvo de busca e apreensão na investigação sobre um contrato de R$ 108 milhões anuais firmado com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), para a instalação de pontos de Wi-Fi na capital paulista.
🔸 A propósito: a Polícia Civil cumpriu sete mandados relacionados a supostas fraudes de Karina Gama. Entre os endereços, está a sede da Go Up, produtora de “Dark Horse”. O Metrópoles explica as investigações em torno do contrato da empresária com a prefeitura paulistana. Segundo a polícia, o instituto de Gama cobrava R$ 1.800 por ponto de internet instalado, valor 3,3 vezes superior ao da empresa pública municipal de tecnologia. As apurações também indicam descumprimento das metas previstas no contrato: dos 5 mil pontos de Wi-Fi prometidos, apenas 3,2 mil teriam sido instalados. Já a prefeitura antecipou R$ 26 milhões em pagamentos sem a correspondente prestação do serviço.
🔸 O presidente Lula (PT) disse que vai indicar novamente Jorge Messias, advogado-geral da União, para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), mesmo após o Senado rejeitar seu nome em abril. “O Senado pode derrotar alguém se ele não tem competência jurídica. O que não pode é simplesmente derrotar por derrotar. Portanto, eu vou indicar o Messias outra vez”, afirmou Lula. O Nexo conversa com os pesquisadores Marjorie Marona, da UFRJ, e Rogério Baptistini, da Universidade Mackenzie, para avaliar quais são as perdas e ganhos da aposta de Lula. “O custo que mais merece atenção é um custo que Lula está pagando com sua própria base, quando ele insiste num nome que não resolve uma lacuna histórica grave: o STF tem 132 anos (...), e nenhuma mulher negra jamais ocupou uma cadeira no Supremo”, destaca Marona. Ao insistir em Messias, Lula também corre o risco de aprofundar o desgaste com o presidente do Senado, David Alcolumbre (União-AP).
🔸 O desgaste entre Lula e Alcolumbre, aliás, pode influenciar a PEC do fim da escala 6x1, que chega nesta semana à Casa. Segundo a CartaCapital, o clima entre os dois permanece frio. Nos bastidores, parlamentares avaliam que a proposta se tornou mais um teste da capacidade de articulação entre o Planalto e o Senado. Além do texto aprovado pela Câmara, que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas sem corte salarial, os senadores analisarão outras propostas. A principal é uma PEC liderada por Rogério Marinho (PL-RN), que prevê uma transição mais lenta e maior flexibilidade na distribuição das horas de trabalho ao longo do ano. Há ainda um texto mais antigo de Paulo Paim (PT-RS), já aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e aguardando votação em plenário. O governo tenta evitar mudanças significativas no texto aprovado pelos deputados, já que qualquer alteração obrigaria a PEC a retornar à Câmara.
📮 Outras histórias
“Ninguém comprou o rio.” A frase repetida por moradores do bairro Robalo, na Zona de Expansão de Aracaju (SE), sintetiza o conflito em torno do acesso ao rio Santa Maria. Pescadores, marisqueiras e comunidades locais afirmam que a implantação do loteamento de alto padrão Villaredo Aruana transformou um acesso utilizado há décadas em uma área sujeita a portaria, vigilância e controle de entrada. A Mangue Jornalismo conta que, numa assembleia em maio, moradores relataram constrangimentos causados por abordagens de vigilantes e pela exigência de identificação para acessar uma área que consideram pública. “O acesso dos pescadores e marisqueiras para uma região muito extensa é por ali. É um acesso tradicional de décadas, talvez de mais de um século”, destaca o presidente da Associação dos Moradores do Robalo, José Firmo.
📌 Investigação
De 190 canais sobre política brasileira no YouTube monitorados, 20 mencionaram o Polymarket – plataforma que atua como intermediadora de usuários que apostam no desfecho de eventos reais, como decisões políticas, indicadores econômicos, partidas esportivas, premiações culturais e até incidentes de guerra – entre abril e maio. O Núcleo identificou que em 44 vídeos a plataforma foi usada como uma forma de diagnosticar uma possível intenção de voto mesmo não sendo uma pesquisa eleitoral. Na maioria dos casos, são influenciadores e jornalistas do espectro da direita e da extrema-direita discutindo o cenário eleitoral envolvendo os pré-candidatos à presidência, sobretudo Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Um dos vídeos ultrapassou a marca de 400 mil visualizações. Sites como Polymarket e Kalshi foram proibidos no Brasil no fim de abril.
🍂 Meio ambiente
Indígenas da Terra Indígena Waimiri Atroari, no Amazonas, denunciam ter encontrado animais mortos nos rios que cortam seu território e suspeitam que a causa sejam os rejeitos da Mineração Taboca, maior produtora de estanho refinado do Brasil. Segundo a Repórter Brasil, o Ibama apontou que há “indícios de ilícito ambiental”: “As evidências visuais obtidas via sensoriamento remoto confirmam que a frente de lavra e a degradação ambiental associada avançam em direção ao limite imediato da TI Waimiri Atroari”, informa um documento enviado em 19 de maio ao Ministério Público Federal no Amazonas. Segundo os indígenas, grandes manchas de lama com “odor forte” e “coloração barrenta” teriam atingido, no início de abril, um igarapé que atravessa a área de mineração e deságua no Alalaú, o principal rio do território. Semanas depois, dois botos, duas tartarugas e uma arraia foram encontrados mortos, sem sinais de ataques de predadores naturais.
📙 Cultura
“Apesar de serem praticamente invisibilizadas na nossa história literária, e de quase nunca surgirem como personagens dignas de enredo, nomeação ou pontos de vista próprios, as trabalhadoras domésticas sempre figuraram em descrições de espancamento por patrões em contos e romances históricos”, afirma a jornalista e escritora Mariana Filgueiras, autora do livro “Quirinas: A Trabalhadora Brasileira Como Protagonista na Literatura Brasileira Contemporânea”. A obra traz um levantamento inédito e a análise de 37 personagens trabalhadoras brasileiras na história da ficção nacional, de 1859 até 2024. No Conversation Brasil, Filgueiras revisita essa trajetória histórica e destaca a “revanche” dessas trabalhadoras: “Desde 2018, já foram lançados mais de dez romances com empregadas como protagonistas”. Em 2024, “Louças de Família”, de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura e se tornou o primeiro romance brasileiro com uma empregada doméstica protagonista a ganhar uma premiação assim.
🎧 Podcast
Grupos conservadores ocupam câmaras municipais para promover estratégias de planejamento familiar baseadas na observação biológica, os “métodos naturais de contracepção”. Eles distorcem dados científicos para potencializar um discurso que ataca os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres. O “Ciência Suja”, produção da NAV Reportagens, mostra como a criação do Dia Municipal dos Métodos Naturais em Belo Horizonte (MG) faz parte de um movimento maior contra a autonomia feminina e a educação sexual. A partir da defesa desses métodos, esses grupos também atacam uma série de políticas públicas de acesso a contraceptivos modernos, como pílulas, preservativos, DIU e outros métodos mais eficazes para prevenir a gestação indesejada.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Em quadrinhos: para as mulheres Mẽbêngôkre, seus vestidos são símbolos de resistência e preservação de memórias ancestrais. Essas peças são caracterizadas pelo uso de panos estampados e pela presença de grafismos. “É da nossa cultura. Quando a gente veste esse vestido, todo mundo sabe que somos Xikrin ou Kayapó”, afirma a liderança indígena Ngrenhkarati̇ Xi̇krin. A Sumaúma narra em HQ a origem dos vestidos das mulheres desses povos a partir da perspectiva de quem usa, costura e estuda as peças. As vestimentas vieram com a colonização, em que missionários cristãos foram ensinar o cristianismo e vestir os indígenas. Quando chegaram, os vestidos eram lisos e da mesma cor, mas as mulheres Mẽbêngôkre subverteram a imposição com o tempo e criaram suas próprias peças com os grafismos tradicionais de seus povos.




