🔸Depois de fugir para os EUA, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se declarou “presidente eleito” em uma carta divulgada por aliados ontem. Em seguida, trocou o termo para “líder do Brasil” em sua conta no X. Diversas versões circularam, mas apenas as duas últimas foram publicadas por ele na rede social. Na carta, o senador derrotado na eleição de domingo afirma: “Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil”. O Nexo mostra como a carta abre um novo capítulo do golpismo brasileiro e conversa com cientistas políticos sobre o caso. Flávio havia anunciado que pediria a anulação da eleição, alegando que o STF atropelou a Justiça Eleitoral ao estender a votação até as 19h diante da falta de transporte público em algumas cidades. A medida, porém, teve impacto limitado: apenas 34 mil votos foram computados após as 17h, enquanto a vantagem de Lula foi de 4,4 milhões. “É isso que o bolsonarismo precisa. De elementos conspiratórios e narrativas para manter essas pessoas mobilizadas. É uma estratégia na verdade muito banal para manter o público deles ativado, circulando informações e vídeos”, avalia o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, da Uerj.
🔸 Flávio chegou a Miami ontem pela manhã, depois de deixar o Brasil pela fronteira com a Argentina e fazer escala no Equador. A Agência Pública reconstitui o trajeto de fuga do filho de Jair Bolsonaro a partir de registros oficiais argentinos, que contradizem as informações divulgadas na terça-feira pela imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos de que o senador já estaria no país ou em voo para lá. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, Flávio entrou na Argentina apenas às 22h50 de terça, pela Ponte Internacional Tancredo Neves, entre Foz do Iguaçu (PR) e Puerto Iguazú, acompanhado da mulher, Fernanda, e das duas filhas. Às 23h30, a família embarcou em um jato da Baires Fly com destino declarado a Guayaquil, no Equador. Depois da escala, a aeronave seguiu para os EUA. Investigado no Supremo Tribunal Federal por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas, Flávio havia recebido ordem do ministro Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes à Polícia Federal. O jato usado pela família pertence à mesma empresa que transportou Javier Milei aos Estados Unidos após sua eleição, em 2023.
🔸 A fuga de Flávio ampliou a lista de familiares e aliados de Jair Bolsonaro no exterior em meio a investigações e condenações. O Congresso em Foco reúne os casos – Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem, Carla Zambelli, Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio, Paulo Figueiredo, Silvinei Vasques e Léo Índio – e diferencia suas situações: há quem tenha descumprido restrições judiciais, quem tenha saído antes delas, quem já morasse fora do Brasil quando passou a ser investigado e quem tenha sido capturado ao tentar fugir. Eduardo Bolsonaro, por exemplo, está nos EUA desde março de 2025, perdeu o mandato de deputado e foi condenado, em junho de 2026, a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, após articular sanções com o governo Trump para interferir no julgamento do pai. Já Carla Zambelli, na Europa, teve a extradição negada pela Justiça italiana no caso da invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça, pelo qual foi condenada a dez anos de prisão.
🔸 Uma mãe solo atípica afirma ter sido dispensada do trabalho em Belém (PA) após a vitória de Lula. Ela conta à Alma Preta que revelou sua preferência política ao ser questionada pelo proprietário do Bar Bodega Prime, onde trabalhava. Na terça, perguntou se deveria comparecer ao bar e recebeu a resposta: “Não, o Lula vai ajudar você. Ele não gosta de micro empresário”. Mãe solo de três filhos, ela trabalhava no estabelecimento havia cerca de três meses e dependia da renda para sustentá-los. “Eu sei que ele deixou de me contratar por isso, porque sei que sou uma boa funcionária. Inclusive, tenho várias mensagens dele me elogiando e tudo mais”, afirma. No Rio Grande do Sul, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa pediu ao Ministério Público estadual que apure denúncias de perseguição política contra trabalhadores e empresas, informa o Sul21. Depois da eleição, a comissão identificou campanhas de boicote a estabelecimentos e listas de pessoas classificadas por suas supostas preferências políticas, além de receber relatos de exposição pública, ameaças, constrangimentos e possíveis demissões.
🔸 A propósito: o Ministério Público do Trabalho recebeu cerca de 240 denúncias de assédio eleitoral nas primeiras 24 horas após a eleição de domingo. Em dois dias, o número mais que dobrou e chegou a 530 reclamações. As queixas envolvem manifestações de parlamentares, influenciadores e empresários que incentivam demissões e retaliações contra trabalhadores por causa do voto. O Jota mostra uma mudança no padrão dessas práticas: antes concentradas no período anterior à votação, com pressões para que funcionários escolhessem determinado candidato, agora elas incluem perseguições a quem apoiou Lula. “A empresa é dona do seu negócio e não do voto do seu empregado”, afirma o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira. Ele recomenda guardar prints ou gravações das publicações e denunciar pelo site mpt.mp.br.

📮 Outras histórias
Nas periferias de Salvador, a mobilização de caronas solidárias possibilitou que cidadãos pudessem exercer o direito ao voto no segundo turno das eleições. Enquanto 944 ônibus estavam parados em nove garagens da capital baiana, os pontos ficaram lotados, e o deslocamento aos locais de votação foi comprometido. O Entre Becos acompanhou a dificuldade de mobilidade e como se criou uma rede de solidariedade. “É o povo pelo povo e vai ser sempre assim”, afirma a comunicadora Giovanna Rimola, moradora do bairro de Nazaré. “A gente está aqui na rua para dar carona para as pessoas poderem votar, que é um direito de todo mundo, independentemente do candidato.” O descumprimento da decisão da Justiça Eleitoral de que os municípios deveriam garantir transporte público gratuito, com frequência equivalente à dos dias úteis, levou ao pedido de prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, por suspeita de crime eleitoral.
📌 Investigação
Facções criminosas ou grupos armados estão presentes em 768 dos 1.310 municípios amazônicos (59%) de seis países (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela). Em 33% desses municípios, há atuação de mais de um grupo. O “Amazon Underworld”, projeto transnacional do qual a InfoAmazonia faz parte, revela ainda que nove organizações criminosas operam atualmente em dois ou mais dos seis países pesquisados. O levantamento destaca que os interesses do crime e os corporativos se sobrepõem na Amazônia. Os negócios ilícitos dependem de um sofisticado sistema de interações, em que produtos ilegais são incorporados a cadeias de fornecimento legais: ouro extraído de forma legal ou ilegal chega às mesmas refinarias; gado criado em terras invadidas passa por intermediários aparentemente regulares antes de chegar aos frigoríficos; e grupos armados regularizam e vendem a empresas legais as terras que tomam à força.

🍂 Meio ambiente
As denúncias de violência contra indígenas após o resultado das eleições foram encaminhadas à Polícia Federal pelo ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena. “Desde ontem nós tomamos conhecimento dessas inúmeras denúncias gravíssimas, e desde ontem nós já estamos adotando várias providências”, afirmou em vídeo nas redes sociais. A Revista Cenarium detalha que, entre as medidas adotadas até o momento, está a articulação com outros ministérios para acompanhar os episódios denunciados. Um dos casos ocorreu em Tacuru (MS), em que indígenas Guarani Kaiowá teriam sido alvos de declarações ofensivas e ameaças de envenenamento da água, conforme áudios divulgados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib). “Já falei que tem que ‘ponhar’ veneno na água. Matar essas pragas na água”, afirmou um homem em gravação.
📙 Cultura
“Tudo que eu criei eu não criei só pra mim, nunca tive ambição de construir nada que não fosse pra minha comunidade”, afirma Ewerton Batista, o Mestre Ciborgue, um dos principais nomes da cultura afrobrasileira em Aracaju e responsável por introduzir o samba reggae em Sergipe. Filho, sobrinho e neto de ogans alagbés, homens responsáveis pela musicalidade e cuidados litúrgicos do terreiro e expressões de presença africana, seu primeiro contato com o universo percussivo foi com os tambores do Terreiro Laje Grande. A Mangue narra a trajetória do artista, cuja atuação na direção da banda Descidão dos Quilombolas e na formação musical e social de jovens na Caixa D’Água, na capital sergipana. “Meu mestre Ciborgue foi uma chave fundamental para a comunidade, marcada por um cenário de guerra. Foi um cara muito firme, muito rígido, ele estava querendo proteger a gente e isso foi muito importante. Quem entendeu os ensinamentos dele está muito bem. Nós, do Descidão, agradecemos até hoje”, diz mestre Dingo Bala, um dos alunos de Ciborgue.
🎧 Podcast
A financeirização global, impulsionada pelas crises cíclicas do capital, substituiu o lucro produtivo pela especulação e a valorização artificial de ativos. As big techs construíram seus impérios baseados nessa mudança. Sem consenso, há pesquisadores que apontam que o descolamento do capital fictício da economia real pode ser o fim do capitalismo e chamam o fenômeno de “tecnofeudalismo”. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, explora a origem do termo e por que ele está em debate, com o cercamento em plataformas, a precarização do trabalho e a “servidão digital”, em que o modelo de negócios das big tech transforma usuários e trabalhadores em fornecedores não remunerados de dados, atenção e conteúdo.

✊🏾 Direitos humanos
Nenhuma das 123 mortes da Operação Contenção, a mais letal da história do Rio de Janeiro, aparece nas 4.400 horas de gravações de câmeras corporais analisadas pela Human Rights Watch (HRW). O relatório da organização revela que, durante a chacina no Morro do Alemão e na Penha, em outubro do ano passado, houve 278 episódios de obstrução de câmeras corporais, dos quais há suspeita de manipulação intencional em 146. Em 132 casos, não foi possível determinar a intenção dos policiais com a prática, ainda que ela indicasse a possibilidade de violação de protocolos. Foram 35 situações de COPs removidas do uniforme durante a investida policial e 97 em que os equipamentos foram deixados nos veículos. A Ponte reúne os principais achados do documento e ressalta que a HRW pede uma investigação aprofundada sobre a possível manipulação dos equipamentos. Para o diretor César Muñoz, o relatório expõe que policiais encontraram formas de contornar os regulamentos e descumprir os protocolos internos.
