As candidaturas de policiais e militares e a despedida de Laura e Glória
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🔸Mais de 1,2 mil policiais e militares disputam cargos políticos nestas eleições. Essas candidaturas, concentradas sobretudo em partidos de direita e extrema direita, impulsionam agendas corporativistas e discursos punitivistas. Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os policiais militares representam 46,14% do total registrado (1.229 candidaturas), seguido por policiais civis (9,76%), bombeiros militares (7,49%), militares reformados (7,49%) e membros das forças armadas (6,67%). A Agência Pública explica como a militarização da política prioriza o policiamento ostensivo, em vez de investigação de crimes. Para Thiago Amparo, advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas, a estratégia consolida uma perigosa lógica de “política do inimigo, de um lado o policial, de outro os bandidos, os criminosos”. “Estamos diante não só de uma ascensão das candidaturas em geral e não só do alinhamento de candidatos policiais à direita. Estamos falando de uma construção de uma identidade do que é ser policial: que é aquele policial mais combativo, a favor de políticas repressivas violentas e que está dentro dessa lógica do ‘nós versus eles”, analisa.
🔸 O plano de atrair data centers de IA para o Brasil virou unanimidade entre os presidenciáveis. Com base nos planos de governo apresentados pelas cinco candidaturas mais competitivas, o Aos Fatos avalia os impactos desses empreendimentos. Na prática, os data centers geram poucos empregos permanentes – estimados pela Universidade Federal do Rio de Janeiro entre 30 e 50 postos por unidade – e consomem grandes volumes de recursos hídricos e elétricos. Para facilitar a vinda dessas estruturas, a maioria dos presidenciáveis defende afrouxar leis ambientais e tributárias, alinhados à pressão de big techs que alegam que os “requisitos regulatórios onerosos podem sufocar dramaticamente a inovação”, conforme diz Margareth Kang, gerente de políticas públicas da Meta. Temas como regulação de IA e moderação de conteúdo nas redes também foram analisados nos planos de governo.
🔸 O novo programa de reeleição de Lula mudou o foco para a população LGBTQIA+, sem explicitar compromissos com saúde, educação e identidade. Agora, a prioridade se volta ao enfrentamento à violência digital, aos crimes de ódio e à discriminação no mercado de trabalho. A Diadorim compara as propostas de governo apresentadas em 2022 e 2026. O novo documento se sustenta em uma lógica de transversalidade, determinando que orientação sexual e identidade de gênero conduzam o planejamento geral de políticas do Estado. O programa também defende avançar na regulação democrática das redes sociais e plataformas digitais para impedir a disseminação de desinformação, campanhas de ódio e outras comunicações consideradas nocivas à democracia. Um desses pilares é a elaboração de uma Política Nacional de Letramento Digital para combater a desinformação e promover a proteção da privacidade na internet. No entanto, são apresentadas medidas gerais, sem foco específico na população LGBTQIA+.
🔸 “Eu não acredito na Justiça. São mais de seis anos nessa luta, e eu vi muita injustiça nesse tempo. Mas a gente tem a verdade. E a verdade tem que prevalecer”, diz Maria Cristina Quirino, mãe de uma das vítimas do Massacre de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Na segunda-feira, a Justiça decidiu que 12 policiais militares vão a júri popular pelos assassinatos de nove jovens durante a dispersão violenta de um baile funk em 2019. A Ponte narra a luta e a desconfiança de mães como Maria Cristina diante do histórico paulista de absolvições de policiais no Tribunal do Júri. A decisão acolheu indícios de homicídio doloso duplamente qualificado, mas retirou a qualificadora de que as vítimas estavam impossibilitadas de se defender. A Justiça entendeu que não existem provas de que os policiais agiram para surpreender ou inviabilizar uma reação delas, gerando indignação entre os parentes, que denunciam o encurralamento dos jovens.
📮 Outras histórias
Manaus está entre as dez cidades mais hostis ao corpo humano no planeta. É o que indica estudo publicado na revista “Sustainable Cities and Society”, que avaliou 205 metrópoles pelo mundo. O Vocativo detalha que a capital do Amazonas está na nona posição entre as cidades com maior exposição ao perigo térmico. Segundo a pesquisa, Manaus atingiu a marca de 0,96 em uma escala de zero a um no indicador de exposição física, impulsionada pelo estresse provocado pela combinação de altas temperaturas e umidade extrema, que dificulta a evaporação do suor. Ao cruzar esses dados com o risco social e a falta de recursos estruturais para resfriamento, o resultado muda, e a cidade se posiciona no 26º lugar de risco composto, com pontuação de 0,66.
📌 Investigação
“Quando eu vi retirando as coisas da escola, meu coração partiu. Eu senti um desprezo [deles], como se a comunidade não tivesse valor nenhum”. O desabafo de Raimunda da Silva Coimbra, da Chapada Diamantina, sintetiza a dor de famílias quilombolas na Bahia e no Piauí que veem suas escolas fechadas de forma repentina. A Repórter Brasil revela que a desativação de salas de aula avança de forma silenciosa e viola leis federais que exigem estudos de impacto e consulta prévia às comunidades. A reportagem identificou ao menos 38 escolas quilombolas fechadas e 241 que estiveram em algum momento paralisadas nos últimos dez anos. “Vão se criando condições para esse fechamento. A gestão começa a dificultar o acesso à alimentação e ao transporte, deixa degradar as condições físicas da escola, troca professores, atrasa material didático”, afirma Tiago Rodrigues Santos, pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo Baiano. As lideranças comunitárias relatam que o encerramento de turmas enfraquece tradições e ameaça a permanência dos moradores em seus territórios.
🍂 Meio ambiente
A instalação do primeiro data center de IA na Amazônia é alvo de um inquérito do Ministério Público do Pará. O órgão investiga possíveis impactos ambientais e sociais, como aumento da temperatura, consumo de água, demanda energética e poluição sonora do empreendimento. Chamada de BEL1, a estrutura será instalada na área portuária de Miramar, em Belém. O Terra reúne os dilemas que cercam o projeto, previsto para operar em 2027. “Comunidades tradicionais residentes nas ilhas próximas, ribeirinhos e pescadores, já vulnerabilizados economicamente por condições históricas, estarão suscetíveis a impactos negativos decorrentes das atividades do empreendimento”, diz o promotor de Justiça Márcio Maués. Embora existam normas ambientais, energéticas e de licenciamento que se aplicam a esses empreendimentos, especialistas cobram uma legislação específica a grandes estruturas de processamento de dados, fiscalização e transparência.
📙 Cultura
Com sete anos de diferença, as atrizes Laura Cardoso e Glória Menezes são grandes nomes da dramaturgia e da TV brasileiras, com décadas de carreira. A primeira atuou em mais de 60 novelas, uma das com mais títulos no país. Entre eles estão “Mulheres de Areia” (1993), “A Viagem” (1994), “Chocolate com Pimenta” (2003), “Caminho das Índias” (2009) e o remake de “Gabriela” (2012). O Notícias da TV narra sua trajetória, que incluiu prêmios e reconhecimentos, como cinco troféus da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA ), três Prêmios Grande Otelo, dois Prêmios Shell e dois Troféus Imprensa. Já Glória estreou na televisão em 1959 e conquistou projeção nacional. No cinema, foi a estrela de “O Pagador de Promessas” (1962), clássico de Anselmo Duarte venceu a Palma de Ouro em Cannes e foi indicado ao Oscar. A atriz fez atuações aclamadas em sucessos do horário nobre como “A Próxima Vítima” (1995), “Torre de Babel” (1998), “Senhora do Destino” (2004) e “A Favorita” (2008). Laura Cardoso morreu na noite de segunda-feira, aos 94 anos, e Glória Menezes partiu ontem, aos 91.
🎧 Podcast
A fotografia entrou na vida de Bob Wolfenson aos 15 anos, não como escolha, mas como refúgio para curar a dor da morte do pai: “Fui jogado nesse trabalho. [...] Eu não era vocacionado para tal, mas atingi a vocação. Eu fui ao encontro da vocação.” No “Isso Não É Uma Sessão de Análise”, produção da Trovão Mídia, o fotógrafo revisita suas memórias, desde a infância de origem judaica no bairro paulistano do Bom Retiro até a carreira marcante na fotografia brasileira. Wolfenson reflete sobre paternidade, luto, gênero, e ainda compara o set fotográfico com o set psicanalítico, “num certo sentido, de algum tipo de constante; ou seja, a câmera, o sujeito lá na minha frente, isso é constante. [...] O resto é variável, o resto é um encontro do que obedece a natureza dos encontros”.
👩🏾⚕️ Saúde
“Eu estava me sentindo um pouco triste e queria desabafar, mas não queria incomodar meus amigos. Por isso, mandei mensagem para o chat, que não é uma pessoa, não tem rotina, não tem uma vida e está disponível a qualquer momento”, afirma Thais Oliveira Matias, estudante de 26 anos, sobre as conversas que costuma ter com um chatbot apelidado por ela de “Charles”. A Agência Mural mostra que a busca por conforto emocional tem levado jovens de periferias de São Paulo a tratarem ferramentas de inteligências artificiais como confidentes. No entanto, especialistas alertam para o perigo de substituir o tratamento real. “As IAs generativas são apenas máquinas que fazem cálculos estatísticos para chutar com muita precisão qual a palavra seguinte numa frase. Elas não entendem nada e não se importam de verdade com ninguém”, afirma o psicólogo Luís Gonçalves, da Associação Brasileira de Psicologia Social. “Como querem que continuemos a conversa, elas nunca vão nos contrariar, nos confrontar ou nos desafiar, como fazem os terapeutas de verdade.”



