🔸 As campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) devem intensificar os ataques para aumentar a rejeição do adversário no segundo turno. É o que afirmam cientistas políticos ouvidos pelo Nexo. Flávio terminou à frente, com 47% dos votos válidos, contra 45% do presidente. Para Bruno Bolognesi, professor da UFPR, o resultado mostra que as pesquisas desprezaram “a quantidade de votos envergonhados do bolsonarismo”. Agora, Lula enfrenta o desafio de ampliar sua votação num cenário em que os votos dos candidatos eliminados tendem a favorecer Flávio, embora não haja transferência automática. “A única saída que [a campanha de Lula] tem é fazer Flávio perder votos”, afirmou Bolognesi. No segundo turno, a segurança pública deve ganhar espaço e pode favorecer o discurso da direita. Para Flávio, o desafio será proteger sua imagem diante da falta de experiência na gestão pública e das relações com milícias e escândalos de corrupção. “Agora, a campanha vai ser negativa. Vai ter uma tendência geral de tentar aumentar a rejeição do outro”, afirma Nara Pavão, professora da UFPE.
🔸 A extrema direita avançou no plano de dominar o Senado e atacar o STF, mas ainda dependerá de aliados para aprovar o impeachment de ministros da Corte. PL, PP, Republicanos e Novo elegeram 27 senadores, que se somam aos 16 com mandato até 2030. O Intercept Brasil explica que, com 43 representantes, o grupo supera os 41 votos necessários para conquistar a presidência da Casa, mas fica abaixo dos 54 exigidos para destituir um ministro do Supremo. O comando do Senado é estratégico porque seu presidente decide se os pedidos de impeachment terão seguimento. A eleição da mesa diretora, em fevereiro de 2027, será o primeiro teste dessa força. Em 2025, Davi Alcolumbre (União-AP) não iniciou o processo contra Alexandre de Moraes, apesar de a oposição afirmar ter reunido 41 assinaturas. Sob uma presidência de extrema direita, esse desfecho pode mudar.
🔸 Falando em STF… “O tribunal perdeu, ao menos por ora, seu ativo mais valioso: a união do colegiado, que o permitiu se proteger das investidas da extrema direita”, escreve Rafael Mafei, em artigo na revista piauí. Advogado e professor de Direito na USP e na ESPM, ele lembra que os conflitos entre ministros comprometeram o prestígio do STF justamente quando seus adversários conquistaram mais poder para atacá-lo. A eleição presidencial vai definir como será essa pressão. O próximo presidente poderá indicar ao menos três ministros. Se Lula vencer, enfrentará um Senado disposto a interferir nas escolhas: “Em vez de chancelar o ministro escolhido pelo presidente, o Senado tentará fazer com que a escolha seja sua.” Se Flávio Bolsonaro ganhar, Mafei antecipa maior alinhamento entre Executivo e Legislativo, com o objetivo de “tornar o STF um tribunal mais fraco, que pense duas vezes antes de interferir em desmandos presidenciais, que não tenha força para investigar e punir políticos, que não atrapalhe a festa das emendas e que não derrube leis contrárias à Constituição”.
🔸 As bancadas negra e indígena encolheram e ocuparão, juntas, 26,9% da Câmara dos Deputados a partir de 2027, informa o Congresso em Foco, com base nas autodeclarações à Justiça Eleitoral. Foram eleitos 135 deputados pretos ou pardos, quatro a menos que em 2022, o equivalente a 26,3% das 513 cadeiras. A federação União Brasil–PP elegeu o maior número de representantes desse grupo, 32, evidenciando sua distribuição entre diferentes partidos. Em São Paulo, que tem a maior bancada da Casa, o número de eleitos negros caiu de dez para sete entre os 70 deputados do estado. A representação indígena recuou de cinco para três parlamentares.
🔸 Doze dos 17 parlamentares identificados como integrantes ou aliados da “Bancada das Bets” permanecerão no Congresso até 2030, segundo a Agência Pública. Onze foram eleitos no domingo, e o senador Romário (PL-RJ) está no meio do mandato. O grupo, que não existe formalmente, reúne políticos que favoreceram interesses das casas de apostas na regulamentação, tributação e expansão do mercado. Sua influência vai além das votações: envolve negociações com líderes partidários, alterações em projetos e encontros com empresários do setor. Quatro dos seis principais articuladores renovaram seus mandatos, entre eles o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). Já os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Ângelo Coronel (Republicanos-BA), dois dos principais nomes ligados ao setor, não conseguiram a reeleição.
📮 Outras histórias
Nas periferias de São Paulo, Lula manteve a maioria dos votos, mas perdeu espaço em áreas onde havia superado 60% em 2022, segundo a Agência Mural. O presidente recebeu 46% dos votos, ante 42% de Flávio Bolsonaro, e venceu em 34 das 57 zonas eleitorais. Em Piraporinha, na zona sul, sua votação caiu de 62% para 57,72%, e a do candidato bolsonarista passou de quase 27% para 32,53%. O movimento se repetiu em Grajaú, Parelheiros, Cidade Tiradentes e Valo Velho. O cientista político Tiaraju Pablo D’Andrea relaciona a vantagem petista à ligação histórica com movimentos sociais, culturais e o operariado: “Nas periferias, Lula é maior que o PT”. Para a cientista política Beatriz Mendes, da USP, esse vínculo mobiliza expectativas de melhoria das condições de vida, mas não significa adesão integral à esquerda, como demonstra a derrota de Fernando Haddad (PT) para o governo estadual. A Periferia em Movimento informa que Tarcísio de Freitas (Republicanos) registrou mais da metade dos votos válidos em diversas zonas eleitorais das periferias, como Pirituba, Jaçanã e Lauzane Paulista, Cangaíba e Itaquera. Haddad manteve maioria em redutos onde Lula também venceu, sobretudo nos extremos da cidade.
📌 Investigação
Um em cada cinco eleitores de Alagoas não compareceu às urnas no primeiro turno, a maior taxa de abstenção do Nordeste. Mais de 503 mil pessoas aptas a votar ficaram ausentes, o equivalente a 20,63% do eleitorado estadual, revela levantamento da Agência Tatu com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Bahia (19,97%) e Maranhão (19,73%) tiveram os maiores percentuais seguintes. Na outra ponta, o Ceará registrou a menor taxa da região, com 15,52%, seguido por Piauí (17,15%) e Sergipe (17,30%). No conjunto do Nordeste, cerca de 8 milhões de eleitores deixaram de votar. A Bahia liderou em números absolutos, com 2,26 milhões de ausentes, seguida por Pernambuco, com 1,31 milhão, e Ceará, com 1,09 milhão. Embora tenha registrado o menor percentual regional, o Ceará aparece entre os estados com mais faltosos devido ao tamanho de seu eleitorado.
🍂 Meio ambiente
O bolsonarismo comandará pelo menos sete dos nove estados da Amazônia Legal a partir de 2027. Além de manter Acre, Rondônia, Roraima, Mato Grosso e Tocantins, o campo político conquistou Pará e Amapá, onde Daniel Santos (Podemos) e Antônio Furlan (PSD), coligados ao PL, derrotaram os governadores aliados de Lula (PT). A Sumaúma detalha o avanço da extrema direita na região, alimentado pela influência eleitoral do agronegócio e pelo voto evangélico, grupo que representa 36,8% da população do Norte, ante 26,9% no país. Acre e Tocantins terão segundo turno entre candidatos bolsonaristas. No Amazonas, Omar Aziz (PSD), apoiado pelo PT, enfrentará Professora Maria do Carmo (PL), mas também tem posições contrárias à conservação: votou pelo chamado “PL da Devastação”, que enfraqueceu o licenciamento ambiental. No Pará, Daniel Santos, já autuado por desmatamento, prometeu anistiar parte das multas ambientais e combater demarcações e a retirada de ocupantes de terras indígenas e áreas protegidas.
📙 Cultura
O fotógrafo e gestor ambiental Clarindo Silva transformou a observação de aves em ferramenta de pesquisa e conservação da biodiversidade alagoana. Criado entre praias e manguezais, onde familiares catavam sururu como fonte de renda, ele começou a fotografar aves em 2017. Na pandemia, passou a trabalhar como auxiliar de campo pela Sociedade para a Conservação das Aves do Brasil, no monitoramento da choquinha-de-alagoas, criticamente ameaçada de extinção. Em entrevista à Revista Alagoana, Silva conta como seus registros contribuem para a ciência: ao lado do ornitólogo Arthur Andrade, fotografou o surucuá-de-murici, espécie recém-descrita, exclusiva da Estação Ecológica de Murici e cuja população, segundo ele, não supera 90 casais. As imagens também documentam a perda de habitats e a poluição: “Um exemplo marcante aconteceu em um local onde registrei uma sanã-carijó. Hoje, aquela área abriga um condomínio de luxo no litoral sul do estado”, lembra.
🎧 Podcast
“O Brasil tem uma Constituição que não torna os direitos humanos uma opção.” A afirmação é do filósofo e educador Paulo César Carbonari, entrevistado no último episódio da série especial “Democracia com Direitos”, parceria do podcast “Direitos Humanos em Ação” com o “Guilhotina”, produção do Le Monde Diplomatique Brasil. Integrante da Coordenação Nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos, ele reconstitui a origem da expressão “defensores de bandidos” atrelada à imagem de ativistas da área: nos anos 1970, a ditadura militar usou o rótulo para desacreditar organizações que denunciavam prisões, desaparecimentos e outras violações. “Então, literalmente, é uma construção política para afastar o povo dos direitos humanos, para fazer com que o povo achasse que direitos humanos era coisa ruim.”
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Ao menos 32 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas em 2026. São 13 para a Câmara dos Deputados, 18 para as assembleias legislativas e uma para a Câmara Legislativa do Distrito Federal, mostra a Agência Diadorim. Na Câmara, a representação mais que triplicou: as quatro deputadas eleitas em 2022 conquistaram novos mandatos e terão a companhia de nove novos parlamentares LGBTQIA+. Entre eles está Thabatta Pimenta (PV-RN), que chegou a comemorar a eleição há quatro anos, mas ficou sem uma vaga porque seu partido não alcançou votação suficiente para obter uma cadeira. Neste ano, ela foi eleita com 92,7 mil votos. O levantamento cruza candidaturas mapeadas por autodeclaração pela VoteLGBT com resultados oficiais da Justiça Eleitoral.



