🔸 A análise da equipe técnica do Tribunal Superior Eleitoral sobre o canal “Exército do Lula”, no WhatsApp, não identificou publicações que reproduzissem conteúdos já considerados falsos pela Corte. Segundo a CartaCapital, o relatório foi concluído ontem, após o exame de mensagens publicadas entre os dias 2 e 11. Administrado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), o canal reúne mais de 3 milhões de seguidores. A análise foi solicitada pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques. No último domingo, ele havia atendido a um pedido da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) e determinado a suspensão do canal pró-Lula. Nunes Marques contrariou o procedimento adotado pelo corregedor do TSE, Ricardo Villas Bôas Cueva, em outra ação contra o canal. Cueva havia dado cinco dias para Janones e Lula se manifestarem e para a campanha de Flávio detalhar as supostas irregularidades dos conteúdos e apresentar os arquivos citados como provas. Embora a equipe técnica do TSE não tenha encontrado desinformação, o relatório apontou fatores que poderiam ampliar a circulação de informações falsas contra Flávio, como o alcance do canal e o volume de encaminhamentos.
🔸 A propósito: o advogado eleitoral Fernando Neisser explica que enviar a mesma mensagem a milhões de inscritos voluntários num canal não caracteriza o disparo em massa proibido pelas regras eleitorais: “Como os integrantes do canal são inscritos, não há problema que milhões de pessoas estejam recebendo as mesmas mensagens, já que elas mesmas quiseram participar daquele espaço”. A Agência Lupa analisou 721 mensagens enviadas no “Exército do Lula” e não encontrou nenhuma desinformação sobre Flávio Bolsonaro nem sobre outros temas de campanha. Já o canal “Tropa do Flávio” enviou ontem a seus 1,4 milhão de integrantes uma imagem falsa gerada por IA. Ela mostrava uma trabalhadora negra supostamente limpando pichações contra Jair Bolsonaro em uma estação de metrô na Avenida Paulista após um ato pró-Lula, acompanhada da frase “No final a conta sobra pro trabalhador…”. O conteúdo viola as normas eleitorais que proíbem a divulgação de desinformação e exigem a sinalização do uso de IA.
🔸 A campanha do presidente Lula (PT) tenta virar o jogo com nova abordagem nas redes, atos pelo Brasil e engajamento de influenciadores e artistas. Depois do primeiro turno, a equipe montou um comitê de crise para redefinir a narrativa até o próximo dia 25. A Agência Pública ouviu aliados e teve acesso a um documento da bancada petista com propostas para a reação nas redes e nas ruas. A coordenação foi reformulada, e jovens parlamentares com forte presença digital foram convocados a Brasília. Um dos encontros do comitê reuniu dirigentes do PT, deputados federais e senadores. No documento “O Brasil com Flávio”, os parlamentares sugeriram enfatizar a economia e as consequências da proposta do adversário de remuneração por hora trabalhada. A estratégia foi definida em 8 de outubro, com a participação de influenciadores: atacar a imagem de Flávio de forma mais concisa e produzir conteúdos voltados ao engajamento. Lula começou a publicar vídeos selfie para convocar apoiadores às ruas e tratar de direitos trabalhistas, mas pediu equilíbrio entre os novos formatos e sua maneira habitual de dialogar.
🔸 “O que nós estamos vendo é um grande levante. Nós precisamos continuar na rua, precisamos convencer aqueles e aquelas que não puderam votar”, disse a deputada Benedita da Silva (PT-RJ) no ato pró-Lula que ocupou a Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, ontem. Segundo a Alma Preta, centenas de milhares de pessoas participaram da manifestação, um dia depois da mobilização na Avenida Paulista, em São Paulo – a maior entre os atos registrados naquele dia, que também ocorreram em Recife e Goiânia. Na capital fluminense, além da praia de Copacabana, outro ato reuniu apoiadores, sambistas e blocos carnavalescos nos Arcos da Lapa.

📮 Outras histórias
“Parecia que estavam olhando para o próprio território de uma maneira diferente”, conta a fotógrafa Grazi Caliman sobre a reação de crianças e adolescentes da Ilha do Combu ao se verem nas fotografias que produziram. Onze participantes receberam câmeras em oficinas realizadas em abril e registraram famílias, casas, trabalho e brincadeiras às margens do rio. As imagens deram origem à exposição “O Olhar que Mora Aqui”, que estreou na própria ilha e está em cartaz no Terminal Hidroviário Ruy Barata, em Belém. Em artigo na Amazônia Latitude, Thaís Fernandes, mestre em Comunicação, Linguagens e Cultura, parte da experiência para discutir o acesso à arte e o direito das infâncias ribeirinhas de imaginar o futuro. Na Amazônia Legal, vivem cerca de 9,1 milhões de crianças e adolescentes, quase um terço da população da região. Embora o Combu esteja a poucos minutos de barco do centro de Belém, a proximidade com museus, cinemas e galerias não garante acesso.
📌 Investigação
“Quais banqueiros brasileiros foram presos.” A pergunta foi uma das 151 que Daniel Vorcaro fez ao ChatGPT entre maio e novembro de 2025, segundo o histórico do celular apreendido pela Polícia Federal. A piauí mostra como as consultas acompanham o agravamento da crise do Banco Master, entre dúvidas sobre saúde, viagens e hábitos pessoais, como “Charuto engorda?”. Banco Central, crise do Master e mercado concentraram 57 interações. O banqueiro também pesquisou sobre integrantes da família real de Dubai com quem buscava negócios para salvar a instituição. Embora o Master tenha gasto R$ 543 milhões com advogados entre 2022 e 2025, Vorcaro recorria à plataforma para tirar dúvidas jurídicas. Em 30 de agosto, perguntou pelos requisitos para pedir o impeachment de um diretor do Banco Central, cerca de 40 minutos depois de enviar a mesma questão a um advogado por WhatsApp.

🍂 Meio ambiente
A Justiça restringiu a exploração madeireira no Seringal São Bernardo, uma das últimas grandes áreas de floresta no entorno de Rio Branco (AC), e determinou medidas de proteção às famílias seringueiras. O Varadouro teve acesso exclusivo a um relatório técnico de fiscalização do Instituto de Meio Ambiente do Acre (Imac), de 25 de setembro, que recomenda suspender todas as autorizações do empreendimento. Os fiscais identificaram 84 alertas de desmatamento e degradação, que abrangem cerca de 176 hectares fora dos perímetros autorizados para as intervenções, entre 2021 e 2026. Encontraram também um ramal de quase dez quilômetros que atravessa áreas embargadas pelo Ibama. A fiscalização aplicou cinco multas à Fazenda União, no total de R$ 235 mil. A Justiça também proibiu ameaças aos moradores, destruição de bens e cultivos e bloqueio de acessos. Denúncias de aplicação de substâncias químicas por drones motivaram a determinação de análises laboratoriais de água, solo, sedimentos e vegetação.
📙 Cultura
Elza Soares enfrentou o racismo, as restrições a seu repertório e períodos de dificuldades financeiras que a levaram a trabalhar em uma creche e a cogitar abandonar a música. Nos festivais da canção, sentia-se deslocada e ficava no fundo do palco. Em artigo no Farofafá, Pedro Alexandre Sanches retoma a trajetória da cantora a partir do livro “Insurreição na Garganta” (Edições Sesc), da jornalista Lígia Moreli. “Foi rotulada de sambista e muitas vezes impedida de escolher outros repertórios”, escreve a autora, que identifica na história de Elza as raízes do enfrentamento ao racismo e ao sexismo que marcaria seus últimos discos. “Mesmo que talvez ainda não se desse conta, Elza já defendia sua posição de feminista negra.” Em “Mulher do Fim do Mundo”, de 2015, a cantora tornou mais explícitas as denúncias da violência contra mulheres e a defesa da população negra, LGBTQIA+ e periférica.
🎧 Podcast
“Eu não posso controlar a seca, mas posso controlar por quanto tempo a minha planta resiste à seca”, explica o produtor rural Giuliano Beggio ao “A Natureza da Conversa”, produção d’O Eco. Ele detalha a experiência de uma propriedade de 400 hectares em Matão (SP) e mostra como aplicar a agricultura regenerativa à produção de commodities em larga escala. Com a transição no cultivo da cana-de-açúcar, iniciada em 2022, a produtividade passou de 86 para 125 toneladas por hectare em três anos, um aumento de 45%. Beggio conta que o trabalho começa pelo conhecimento das características do solo e das necessidades da planta, com análises que orientem a correção da acidez, a nutrição e o uso de insumos. “Eu tenho que olhar menos para as pragas, para as doenças e olhar mais para a planta. O que a planta precisa? Qual é o potencial produtivo? Por que ela está limitada no potencial produtivo?”, diz.

✊🏾 Direitos humanos
“Se exigimos respeito por uma imagem de Nossa Senhora Aparecida, precisamos demonstrar a mesma firmeza na defesa de um altar de Oxum”, escreve Péricles Andrade, professor da Universidade Federal de Sergipe. Em artigo no The Conversation, ele questiona o que classifica como “indignação seletiva” diante de ataques a símbolos religiosos – a destruição de imagens católicas causa repercussão imediata, mas invasões de terreiros e ameaças a lideranças de matriz africana costumam despertar menos comoção. “Quando uma imagem é quebrada ou um templo é invadido, não se destrói apenas um objeto – nega-se o direito de um grupo existir, cultuar e ver sua fé reconhecida socialmente”, afirma. Andrade lembra uma pesquisa da Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras realizada com 255 terreiros: quase metade registrou até cinco ataques em dois anos, e 78% dos entrevistados relataram violência contra integrantes de suas comunidades. “O Estado não precisa compartilhar uma fé para proteger aquilo que é sagrado para quem a professa”, destaca.
