O calor extremo nas favelas do Rio e como minimizar os apagões em SP
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🔸 As mulheres negras são a maioria das vítimas de homicídio doloso e feminicídio no Brasil. Segundo levantamento do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Fórum de Segurança Pública, elas representam 75% das mulheres assassinadas no país. O Notícia Preta destaca que, no caso dos do total de vítimas de agressões cometidas por companheiros em casa e estupros, as mulheres negras compõem 50% dos casos em que a cor foi registrada. E o cenário pode ser ainda mais grave, já que mais de um terço dos estados brasileiros não divulga de forma completa a raça das vítimas ou registra o campo como “não informado”.
🔸 “Considerando nossa luta histórica desde o pós-escravidão, vejo duas coisas. De um lado, o racismo de reação continuará: quando nos reposicionamos, ele reage. De outro, vamos nos fortalecer”, afirma a professora e pesquisadora Rosane Borges, autora do recém-lançado livro “Imaginários Emergentes e Mulheres Negras: Representação, Visibilidade e Formas de Gestar o Impossível”. Em entrevista à Gênero e Número, ela afirma que o reposicionamento das mulheres negras na democracia não elimina o racismo, mas provoca reações, e defende que a ausência de mulheres negras em espaços como o Supremo Tribunal Federal compromete a pluralidade democrática. Para ela, a luta passa por reorganizar imaginários, ocupar instituições e projetar conquistas futuras a partir do enfrentamento do racismo estrutural no presente. “Se não disputarmos o imaginário, o racismo vence.”
🔸 O calor extremo no Rio de Janeiro aprofunda desigualdades históricas, com impactos mais severos nas favelas. No Complexo do Alemão, na zona norte da capital, 95% dos moradores entrevistados afirmam ter acesso irregular ou precário à água, cenário crítico em ondas de calor. A pesquisa é do Observatório do Calor, iniciativa do Voz das Comunidades que mede as temperaturas no território. Em 28 de dezembro de 2025, os termômetros marcaram 41,5ºC, com sensação térmica ainda mais alta, agravada por moradias mal ventiladas, excesso de concreto e falta de arborização. “Aqui no morro, o sol cozinha. Na Zona Sul, com árvore e praia, é outro clima. A gente paga com a saúde o privilégio de quem mora lá embaixo”, diz Dona Maria, de 67 anos, moradora do Morro do Adeus.
🔸 O Ministério Público Federal instaurou um inquérito para apurar os impactos da violência armada na vacinação infantil em territórios do Rio marcados por conflitos. A Alma Preta explica que a investigação tem como base um estudo do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a Redes da Maré, que mostra como a vacinação cai durante confrontos no Complexo da Maré, zona norte da cidade. Nos dias em que unidades de saúde ficaram fechadas, a média foi de 20 doses aplicadas, contra 187,3 doses em dias sem operações – queda próxima de 90%. Mesmo com funcionamento parcial, houve redução na imunização, associada à dificuldade de deslocamento e ao clima de insegurança.
🔸 O número de mortes violentas de pessoas LGBTQIAPN+ caiu 11,7% em 2025 com relação ao ano anterior, mas ainda manteve a média de uma morte a cada 34 horas. Segundo o Observatório 2025 do Grupo Gay da Bahia (GGB), o país registrou 257 mortes violentas dessa população em 2025. Os homens gays representaram 60,7% das vítimas, seguidos por mulheres trans e travestis, com 24,9%, grupo que, apesar de menor em número populacional, enfrenta um risco 19 vezes maior de assassinato. A Revista Cenarium ressalta que Manaus liderou o índice proporcional de mortes de pessoas LGBTQIAPN+ entre as capitais brasileiras, atrás de cidades como Rio de Janeiro e São Paulo. “Identificar Manaus, Maceió e Cuiabá como as capitais mais violentas proporcionalmente não é um exercício de culpabilização dessas cidades. É, antes, um mapa de prioridade para a ação do Estado e da sociedade civil”, afirma o professor Luiz Mott, fundador do GGB.
📮 Outras histórias
Com 40 anos de história, a pista de bicicross do Parque da Jaqueira, em Recife, foi demolida pela concessionária Viva Parques, vencedora de uma licitação para administrar três parques da capital pernambucana por 30 anos. A destruição foi feita mesmo após o Ministério Público do estado recomendar que a pista, que atendia principalmente jovens das periferias, deveria ser mantida. A Marco Zero conta que a demolição ocorreu durante o recesso das promotoras do caso, que, por isso, não puderam recorrer. No parecer para manter o equipamento no parque, o Ministério Público afirmava que o polo gastronômico previsto pela concessionária “representa uma alteração fundamental na vocação do espaço público”. Desde o início da concessão, as intervenções comerciais no Parque da Jaqueira estão se intensificando. A pista de caminhada e corrida, por exemplo, recebeu pintura de patrocínio de uma casa de apostas, ainda que nenhuma melhoria significativa tenha sido feita.
📌 Investigação
Norte e Nordeste lideram as mortes por choques elétricos no país em 2024. No Norte, foram registrados 139 casos de choques, dos quais 112 foram fatais – equivalente a 80%. Já o Nordeste concentra o maior número absoluto de acidentes e mortes do país, com 341 ocorrências e 268 óbitos, o que representa 79% do total. A Agência Tatu analisa os dados do Anuário Estatístico de Acidentes de Origem Elétrica 2025, com os registros do ano anterior, elaborado pela Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel). O monitoramento revela um crescimento de 28% no número absoluto de mortes por choque elétrico, passando de 592 em 2013 para 759 em 2024. A maioria das ocorrências fatais foi registrada em áreas de geração, transmissão, distribuição e postes (38,5%), áreas residenciais (32,5%) e canteiros de obras (7,5%).
🍂 Meio ambiente
Em meio ao aumento da intensidade de chuvas e vendavais, a cidade de São Paulo convive cada vez mais com apagões. As chuvas extremas (acima de 80 mm em um dia) passaram de uma a duas ocorrências por ano no meio do século passado para 15 na última década. Só em dezembro, 4,4 milhões de moradores ficaram no escuro com a passagem de um ciclone extratropical, que derrubou árvores, postes e estruturas. O Reset ouviu especialistas que apontam medidas simples e efetivas para a manutenção da rede elétrica. Para o professor e diretor do Innova Power, hub de inovação de sistemas elétricos da Universidade de São Paulo (USP), há três pilares para melhorias: previsão e preparação da cidade, novos equipamentos para a rede e digitalização para identificar falhas com mais rapidez. Segundo o pesquisador, sensores e monitoramento em tempo real permitiriam identificar falhas automaticamente, antecipar impactos de tempestades e direcionar equipes com mais agilidade. “Hoje, quando falta luz na sua casa, você precisa pegar o telefone e ligar para avisar. Falta dado em tempo real para tomar decisões”, diz Salles.
📙 Cultura
Depois de anos sem adquirir e distribuir novos livros para bibliotecas públicas gaúchas, o governo do estado buscou editoras locais para um projeto que pretende ampliar o acesso de leitores à literatura produzida no Rio Grande do Sul. O Sul21 detalha a iniciativa, que tem apoio da Política Nacional Aldir Blanc. “[O mercado editorial] é um mercado que está sempre às voltas com redução do número de leitores. Pesquisas quase sempre apontam para uma queda. A gente tem uma concorrência muito grande com as telas. A concorrência pela atenção e pelo tempo das pessoas”, afirma Tito Montenegro, sócio e editor da Arquipélago Editorial, uma das selecionadas para participar do edital. “A atualização do acervo das bibliotecas públicas é um passo fundamental para que esses espaços atraiam o interesse da população e, assim, consigam cumprir seu papel de estimular a leitura.”
🎧 Podcast
“Não acho que a gente tem uma proporção de importância entre forma e o conteúdo que seja saudável para o meio literário”, afirma o escritor gaúcho José Falero. No “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, ele reflete sobre a crítica literária no Brasil atualmente e o predomínio do conteúdo sobre a forma na literatura contemporânea. “Toda vez que as pessoas vêm falar comigo sobre ‘Os Supridores’, por exemplo, elas destacam o fato de serem protagonistas subalternizados, gente precarizada. Percebe que é o conteúdo que as pessoas analisam? Como todo aquele que se propõe a escrever um texto literário, eu me esforcei para construir um trabalho estético ali, e isso nunca é destacado”, diz.
✊🏾 Direitos humanos
“Os órgãos públicos costumam adotar o percentual mínimo de cotas e, ainda assim, não há fiscalização efetiva. Na prática, esse direito não é garantido”, afirma João Maurício Assis, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos das Pessoas com Deficiência da OAB-PE. As barreiras sistêmicas enfrentadas por pessoas com deficiência para atuar no serviço público brasileiro se revelam tanto na insegurança jurídica e no descumprimento de editais quanto perícias médicas excludentes, explica o Eficientes. No dia 23 de dezembro, por exemplo, a Prefeitura do Recife publicou a nomeação da vaga destinada a pessoas com deficiência (PcD) para a Procuradoria do Recife, a ser ocupada por Lucas Vieira Silva, embora o único candidato classificado para a vaga PcD fosse Marko Venício dos Santos Batista. O impasse teve origem em um processo administrativo sigiloso, no qual Lucas, aprovado pela ampla concorrência, solicitou o reconhecimento como pessoa com deficiência com base em um diagnóstico de autismo obtido após o período de inscrição e de homologação dos documentos.




