Os vencedores do Oscar e o reconhecimento facial em escolas
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🔸 Indicado a quatro categorias no Oscar 2026, o filme brasileiro “O Agente Secreto” não levou estatuetas na cerimônia de premiação. O longa de Kleber Mendonça Filho perdeu para “Uma Batalha Após a Outra” em Melhor Elenco, para “Valor Sentimental” em Filme Internacional, para Michael B. Jordan, premiado como Melhor Ator por “Pecadores”, e para “Uma Batalha Após a Outra”, na categoria de Melhor Filme. Este, aliás, foi o grande vencedor do ano, com seis estatuetas. O Metrópoles traz a lista completa dos premiados de 2026 e lembra que Adolpho Veloso, que também representava o Brasil em Melhor Fotografia pelo trabalho em “Sonhos de Trem”, perdeu para “Pecadores”.
🔸 Há um aspecto menos comentado sobre “O Agente Secreto”: “sua relação com a ciência, especificamente sobre fazer ciência no Brasil”, escreve Matias López, professor da Escola de Ciência Política, na Universidade Diego Portales (UDP), no Chile. Em artigo no Conversation Brasil, ele analisa como o longa trabalha a reconstrução da memória científica e política do país de 1977. Ao acompanhar pesquisadores universitários, o filme mostra como cientistas e acadêmicos foram alvo de perseguição do regime, além de expor a relação entre autoritarismo, interesses empresariais e produção científica. Para López, a obra dialoga com debates atuais, como os ataques à ciência e as tentativas recentes de ruptura democrática.
🔸 Em vídeo: um dos polos cinematográficos pioneiros do Brasil, Recife teve a primeira exibição de um filme em 1902. Sete anos depois, era inaugurada a primeira sala de cinema da capital pernambucana. Já a produção audiovisual na cidade começou na década de 1920. O Nexo traça um panorama da história do cinema em Recife e explica como as conquistas do filme de Kleber Mendonça Filho – vencedor de mais de 70 prêmios pelo mundo – podem ter impacto na produção local.
🔸 “Pecadores”, segundo maior vencedor da noite, ganhou quatro estatuetas. O longa de Michael B.Jordan foi o mais indicado da história do Oscar, concorrendo em 16 categorias. Com elenco e direção majoritariamente negros e narrativa que une experiências e subjetividades da diáspora, o filme se tornou símbolo de avanço no reconhecimento do cinema negro, depois de críticas históricas à falta de diversidade em Hollywood. Trata-se de “uma vitória de parte do cinema negro nos EUA”, avalia Tatiana Carvalho Costa, presidente da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (APAN). “Não é uma vitória, ainda, do cinema negro independente por lá e nem nas diásporas afro-atlânticas”, completa. A Alma Preta lembra que o cinema negro brasileiro enfrenta dificuldades estruturais, como a falta de financiamento e a concentração do mercado audiovisual. Mais de 80% das salas de cinema e 90% dos catálogos das principais plataformas no Brasil são ocupados por produções estrangeiras, o que reduz o espaço para filmes nacionais.
🔸 Seis em cada dez famílias em situação de déficit habitacional no país são chefiadas por mulheres. Segundo levantamento da organização da sociedade civil Habitat para a Humanidade Brasil, o Brasil registra atualmente cerca de 5,97 milhões de domicílios nessa situação e outros 27,6 milhões com algum tipo de inadequação habitacional, como infraestrutura precária, superlotação ou insegurança fundiária. O Notícia Preta destaca que o cenário se agrava no recorte racial: mulheres negras podem levar até sete gerações – cerca de 184 anos – para comprar a casa própria, mesmo em um cálculo extremamente restritivo, no qual sobrariam apenas R$ 31,62 por mês para poupar.
📮 Outras histórias
“A gente paga IPTU para quê?” A pergunta resume a revolta de moradores dos bairros Lagoa das Flores e Jurema, em Vitória da Conquista (BA), que enfrentam alagamentos frequentes e infraestrutura precária apesar de pagar até R$600 de IPTU. O Conquista Repórter mostra que ruas sem asfalto, ausência de rede de esgoto e falhas no sistema de drenagem fazem parte da rotina dessas comunidades. Morador da Lagoa das Flores, o agricultor Evandro Santos Silva conta que perdeu móveis após enchentes em 2019 e 2020 e questiona a cobrança do imposto: “Apesar da situação difícil, a gente paga imposto tão caro. Para quê? Nossa contribuição está indo para onde?”. Em outro extremo da cidade, no bairro Jurema, dona Edite de Jesus, 88 anos, viu a casa ser invadida pela água três vezes. “Eu ganho só um salário [mínimo] para comprar o remédio, o alimento e ainda pagar IPTU. Mesmo que eu fique sem nada, faço questão de pagar. Mas a gente paga e não vem nada de volta pra gente”, lamenta.
📌 Investigação
Mais de 1.700 escolas públicas do Paraná usam o aplicativo LRCO Paraná para assinalar presença ou ausência dos estudantes. Este é um software de reconhecimento facial em que um professor tira a foto da sala de aula e o sistema automatizado faz a identificação das presenças. Uma ausência falsa, porém, pode significar mais que um incômodo burocrático a ser solucionado: pode ameaçar o acesso de famílias a programas sociais, uma vez que a frequência escolar é um dos critérios de elegibilidade do Bolsa Família, por exemplo. O Núcleo destrincha o uso da tecnologia nas escolas paranaenses e mostra que o software desenvolvido na Europa foi rejeitado por diversos países da União Europeia. Um dos motivos apontados por decisões judiciais é que crianças não podem consentir de forma significativa com vigilância biométrica em sala de aula, segundo o Regulamento Geral de Proteção de Dados, principal lei de privacidade da União Europeia.
🍂 Meio ambiente
Lideranças do povo Huni Kuĩ denunciam invasões e desmatamentos dentro da Terra Indígena (TI) Kaxinawá do Seringal Independência, no município de Jordão (AC). Os primeiros relatos surgiram há um ano, e imagens de fevereiro e do início de março mostram a continuidade do roubo de madeira e ampliação da área de pasto. Segundo O Varadouro, os indígenas relatam a derrubada de espécies como mogno, cedro, miratoá e balso, visadas pela indústria madeireira, além de contabilizarem ao menos 200 cabeças de bois no território. Um dos fazendeiros que já abriu pastagem dentro da TI está tentando se apossar da área registrando-a no Cadastro Ambiental Rural (CAR). “A gente achava que os fundos das nossas terras, aqui no Seringal Independência, entre [os rios] Muru e Tarauacá, estavam protegidos, os nossos mananciais, nossas madeiras, nossa pesca, nossa caça, mas ao contrário, tava sendo invadido”, afirma a liderança Siã Huni Kuĩ.
📙 Cultura
Um envelope com poemas, anotações e rascunhos inéditos de Paulo Leminski foi devolvido à família do poeta 44 anos após ter sido esquecido em um avião da Varig, em 1982. O Farofafá conta que o material foi encontrado na época por um gerente da companhia aérea, Ernani Edson de Paula, que guardou o envelope sem saber seu valor. Décadas depois, sua filha, Caroline de Paula, abriu o conteúdo e procurou o jornalista Célio Martins, que confirmou a autenticidade junto à família de Leminski. Os manuscritos – que incluem poemas inéditos e uma tradução para o inglês da canção “Esotérico”, de Gilberto Gil – serão entregues oficialmente aos familiares numa cerimônia na Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba.
🎧 Podcast
Autor de biografias sobre o cantor Renato Russo e o forró, Carlos Marcelo lançou recentemente o romance “O Escutador”, que busca fazer um jogo entre realidade e ficção, cruzando fronteiras literárias. O livro acompanha um jovem autor recém-chegado à Belo Horizonte dos anos 1950 e coloca a própria narrativa em dúvida a partir de relatos de personagens históricos da literatura brasileira. O “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, recebe o jornalista e escritor para uma conversa sobre o processo criativo de sua nova obra. “Eu escrevi sobre um roqueiro, escrevi sobre um gênero musical, escrevi um romance policial em Noronha. Desta vez eu resolvi contar a história de um livro. Então, é a biografia de um livro”, diz. “Quando lemos um livro, seja ele de não ficção ou de ficção, o que queremos é ouvir uma voz – e que essa voz converse com a gente. É um pacto entre leitor e escritor. Entrar num livro é o mais antigo dos jogos.”
🙋🏾♀️ Raça e gênero
A ditadura não foi um período de vácuo de debate racial no país, ao contrário do que afirma o senso comum. Uma pesquisa publicada na revista científica “Sociedade e Estado” revelou que foram apresentadas no Congresso mais de 30 propostas sobre o tema. As que reconheciam as desigualdades raciais e propunham direitos à população negra eram classificadas como “acomodacionistas” – e, embora permitidas, o regime militar garantia que fossem arquivadas, explica a Agência Bori. A única lei aprovada no período foi justamente uma de perfil “integracionista”, que reforçava a ideia de que “somos todos iguais”, alinhada ao discurso oficial que reafirmava o mito da democracia racial. “Era o padrão da época: fazer para dizer que fez, mas sem aplicação real”, afirma Ana Júlia França Monteiro, autora do estudo.




