Os bilionários brasileiros e os 30 anos do massacre de Eldorado do Carajás
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🔸O mundo atingiu um recorde de 3.428 bilionários em 2026, com patrimônio total de US$ 20 trilhões, o equivalente ao PIB da China. Entre eles, há 71 brasileiros que concentram mais de R$ 1,5 trilhão. São 16 a mais do que em 2025. A lista global é liderada pelo magnata Elon Musk, que caminha para se tornar o primeiro trilionário da história. Um dos fundadores do Facebook, Eduardo Saverin segue como o brasileiro mais rico, com R$ 185,6 bilhões. Em seguida aparece Vicky Safra, com R$ 140,1 bilhões, valor superior ao orçamento anual da cidade de São Paulo em 2026. Em entrevista à Agência Pública, o sociólogo Antonio David Cattani afirma que a concentração extrema de riqueza é “incompatível” com a democracia: “[Os bilionários] conseguem manipular as eleições, os governos, e escapar de todos os controles elementares que a democracia, bem ou mal, foi construindo nesses últimos anos. Isso, com o tempo, é um caminho para o desastre, que infelizmente vai afetar mais as pessoas vulneráveis, assalariados, aposentados e pequenos empresários”.
🔸 A tentativa do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) de indiciar ministros do STF no caso Master saiu pela culatra. Rejeitada e arquivada após forte reação de figuras como Gilmar Mendes e Dias Toffoli, a medida é como um veneno que virou remédio, avalia Rafael Mafei, em artigo na revista piauí. Advogado e professor de Direito na USP e na ESPM, ele explica que o movimento de Vieira teve caráter político e pouco respaldo técnico – ele concentrou acusações em poucos nomes e ignorou outros envolvidos no escândalo. Com isso, acabou fortalecendo a narrativa de perseguição ao STF e oferecendo ao tribunal espaço para reagir e sair da defensiva. “Contraintuitivamente, talvez os maiores beneficiários dessa confusão tenham sido Alexandre de Moraes e Toffoli. De tudo o que sabemos, esses são os ministros que realmente têm de se explicar por seus vínculos com Vorcaro, mas eles ganharam, com o relatório de Vieira, um bom pretexto para se dizerem alvo de perseguição política”, escreve Mafei.
🔸 A propósito: o Supremo Tribunal Federal vive um momento de fragmentação interna, rompendo com a estratégia recente de atuação unificada. O Jota mostra que, diante da crise de credibilidade, ministros passaram a defender soluções individuais para reformar o Judiciário, sem consenso sobre o caminho a seguir. Gilmar Mendes adota uma postura de confronto direto com críticos do tribunal, acionando a Procuradoria-Geral da República e pedindo investigações. Já Edson Fachin aposta em um Código de Conduta para regular a atuação dos ministros, baseado em autocontenção e pressão institucional interna. Flávio Dino, por sua vez, passou a defender publicamente uma reforma no Judiciário comandada pelo próprio poder.
🔸 “Se não tivermos feministas em todas as instituições, nada avança.” A afirmação é de Estela Bezerra, atual líder da Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres (SENEV) do Ministério das Mulheres. Em entrevista à Gênero e Número, ela lembra um paradoxo brasileiro: o país completa 20 anos da criação da Lei Maria da Penha, enquanto registra recordes de feminicídio. O problema, segundo ela, está menos na falta de leis e mais na dificuldade de implementá-las de forma efetiva e articulada. “O Legislativo hoje tem um perfil que não é conservador, é reacionário. Isso é diferente. Com conservador, dá para lidar. (...) Mas o próprio Congresso tem muitos agressores de mulheres. Muitos misóginos”, afirma. Ela defende a criação de metas “racializadas”, a atuação nos territórios e o fortalecimento de redes como saúde, assistência e equipamentos integrados, como a Casa da Mulher Brasileira.
📮 Outras histórias
Gilson José dos Santos aprendeu a modelar o barro com a mãe, ainda criança. Hoje artesão, aos 71 anos, ele produz réplicas da Igreja Matriz, nove templos, sobrados e casas coloniais da “Atenas Sergipana”, como a cidade de Laranjeiras (SE) ficou conhecida a partir do século 19 por sua importância cultural e econômica. O Meus Sertões narra a história de seu Gilson, cujo trabalho resgata a memória arquitetônica e social da cidade. Entre as peças mais procuradas estão a Matriz – marcada por divisões raciais no período colonial, chamada de “igreja dos brancos” –, a Igreja de São Benedito e a de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos. Além de artesão, Gilson é almirante de um grupo de Chegança há mais de 30 anos e encena tradições populares ligadas à cultura marítima.
📌 Investigação
Em meio à disputa pela guarda da filha, a comunicadora Jennifer Lamounier é alvo de mais de 20 processos judiciais, registros de ocorrência, ameaças, além de ter sua vida pessoal e a da criança, de 7 anos, exposta nas redes sociais. O autor é seu ex-marido, o jornalista Leonardo Stoppa. Em junho de 2023, Lamounier relatou à polícia que sofria violência psicológica e patrimonial e solicitou medidas protetivas contra Stoppa. “Ele fazia todo tipo de pressão e humilhação e colocava ela muito servil”, conta a advogada Edna Teixeira, que, antes de conhecer a comunicadora, era amiga do jornalista. O Catarinas destrincha o caso, que expõe como disputas sobre guarda de crianças se desdobram em uma escalada de violências de gênero, com o uso reiterado do sistema de Justiça, a exposição pública nas redes sociais e a construção de narrativas que desqualificam a vítima.
🍂 Meio ambiente
Trinta anos depois do massacre de trabalhadores sem terra em Eldorado dos Carajás (PA), apenas dois dos 155 policiais envolvidos foram condenados. Eles começaram a cumprir pena em 2012. O episódio, que deixou 21 agricultores mortos, tornou-se um marco da luta pela terra e da violência no campo. No especial “O massacre de Eldorado dos Carajás pelo olhar de João Roberto Ripper”, o #Colabora une as homenagens às vítimas ao trabalho do fotógrafo João Roberto Ripper, cuja documentação da perícia, do velório, do enterro e do drama das famílias ajudou na denúncia do massacre. A Repórter Brasil mostra que os sobreviventes ainda vivem os efeitos em suas vidas. É o caso de José Carlos Agarito Moreira, que carrega a bala da violência de 30 anos atrás alojada no olho. Ele se dedicou à roça por 20 anos, mas deixou a terra após o agravamento das sequelas. “A reforma agrária, pra mim, é luta, é conquista, pra gente conquistar uma terra, trabalhar e comer. Se não fosse a reforma agrária, tu acha que a gente tinha terra? Não tinha”, afirma o assentado.
📙 Cultura
“Quando estimulo uma criança com literatura, música, artes cênicas ou brincadeiras de rua, há uma probabilidade muito grande de ela aprender a lidar com o universo social de um jeito lúdico. Isso muda sua perspectiva de perceber, compreender e explicar a realidade”, afirma Hugo Monteiro Ferreira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco, coordenador do Núcleo do Cuidado Humano e diretor do Instituto Menino Miguel. Embora o contato com as artes na primeira infância tenha efeitos positivos ao longo da vida, o acesso à cultura no país ainda é limitado pela escassez de equipamentos públicos e pelas barreiras financeiras. A Revista O Grito! mergulha nas relações entre primeira infância e cultura e explora a realidade de diferentes projetos e escolas que focam nessa fase em Recife (PE). É o caso da Escola do Sítio, que oferece às crianças a vivência das culturas populares, como a brincadeira de boi, típica do Nordeste.
🎧 Podcast
“Uma humildade safada, uma humildade sacana. Isso era quase que um princípio ético, além de estético, do Manuel Bandeira”, afirma a escritora e professora Noemi Jaffe. No “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, Jaffe e a escritora e pesquisadora Elvia Bezerra conversam sobre a vida e os mistérios da poesia de Manuel Bandeira, marcada pelo mundano, carregado de erotismo, e o sublime, próximo ao religioso. Na celebração de 140 anos do nascimento do poeta, as escritoras refletem sobre a atemporalidade da obra bandeirariana. Autora de “A Trinca do Curvelo: Os Afetos de Manuel Bandeira”, Bezerra detalha três amores pouco conhecidos do poeta: a paraense Luci Soares, a enfermeira e poeta Dulce Ferreira Pontes e Lourdes Heitor de Souza, com quem ele traduziu o quinto volume do clássico “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust.
⛹🏽 Esporte
Conhecido como “Mão Santa”, o jogador de basquete Oscar Schmidt defendeu a seleção brasileira por 19 anos. Foi seu maior pontuador, com 7.963 pontos, e o segundo a vestir mais vezes a camisa verde e amarela em jogos, com 33 partidas disputadas. Nascido em 1958, em Natal (RN), foi incentivado pelo pai desde criança a praticar esportes e, aos 13 anos, deu seus primeiros passos no basquete. Entre conquistas e recordes, Schmidt se tornou o maior jogador desse esporte da história do Brasil. Além da seleção, foi multicampeão em equipes como o Palmeiras, Sírio e Flamengo, além de consolidar a carreira internacional na Itália e ter se recusado a jogar a NBA, liga americana e a maior do mundo. O Esporte News Mundo revisita a trajetória do atleta. Oscar Schmidt morreu na sexta-feira, aos 68 anos. Ele lutava contra um tumor na cabeça.




