O balanço da Copa 2026 e a relação entre futebol e violência contra a mulher
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🔸A Espanha conquistou o bicampeonato da Copa do Mundo ontem com um gol de Ferran Torres, jogador do Barcelona, na prorrogação. O Esporte News Mundo lembra que, assim como Andrés Iniesta definiu a vitória sobre a Holanda em 2010, Torres marcou o gol do 1 a 0 sobre a Argentina na final de 2026. Assim, a Espanha reforçou uma curiosa tradição: seus dois títulos mundiais vieram com gols de atletas do clube catalão. Aos 26 anos, Ferran Torres viveu uma trajetória improvável até o posto de herói. Apesar dos 21 gols marcados pelo Barcelona na última temporada, o atacante convive com críticas pelo desperdício de oportunidades e começou a final no banco de reservas. Formado nas categorias de base da seleção espanhola e campeão da Eurocopa de 2024, ele fez uma Copa discreta, mas entrou na decisão para marcar o gol que garantiu o segundo título mundial da Espanha.
🔸 A Copa 2026 teve em média de 2,98 gols por partida – a maior desde 1958 –, a estreia da pausa obrigatória para reidratação e a campanha histórica de Cabo Verde, que disputou sua primeira Copa e chegou às oitavas de final. O Nexo reúne alguns dos principais aspectos do torneio, que também foi marcado pelo protagonismo dos grandes craques, pela interferência política de Donald Trump e pela consolidação do YouTube como principal plataforma de transmissão no Brasil. Para os brasileiros, este Mundial também será lembrado pela eliminação precoce do Brasil para a Noruega, o avanço do mercado de apostas esportivas durante a competição e a ascensão da CazéTV, que transmitiu todos os 104 jogos da Copa e bateu recordes de audiência no YouTube.
🔸 Para ouvir: a Copa masculina expõe estruturas de violência e misoginia no futebol. “O homem que soca a parede para não socar a cara da mulher, isso não é normal. Quebrar um aparelho de TV, a gente não pode naturalizar isso”, afirma a jornalista e escritora Milly Lacombe. Em entrevista ao “Pauta Pública”, podcast da Agência Pública, ela destaca que o torneio também revelou uma cultura de agressividade, hierarquia e defesa incondicional de ídolos, que se manifesta, por exemplo, nas ameaças a jornalistas que criticam jogadores. Ao projetar a Copa do Mundo Feminina de 2027, no Brasil, ela aposta em um cenário diferente: “O Brasil vai ser levado de arrasto por um tipo de paixão que faz tempo que a gente não se permite sentir por uma seleção”. Para Lacombe, o Mundial pode representar um divisor de águas para o futebol feminino.
🔸 A propósito: as derrotas do “time do coração” elevam em média 6% os registros de violência doméstica nas seis horas seguintes ao apito final. Um estudo das economistas Isadora Bousquat Árabe (London School of Economics e FEA-USP) e Paula Carvalho Pereda (FEA-USP) cruzou resultados de jogos com boletins de ocorrência em São Paulo e no Rio de Janeiro, a partir de 2.105 partidas do Campeonato Brasileiro disputadas entre 2015 e 2019. “Quando a gente fala de gatilho emocional, basicamente vem a decepção. A pessoa fica muito brava. Se você está ali na mesma casa, com álcool, tudo que já está propenso a explodir… isso não vai ser a causa, mas vai ser o gatilho”, explica à Gênero e Número a pesquisadora Isadora Árabe. Os dados indicam que o futebol não cria um agressor, mas intensifica um ciclo de violência já existente. Partidas decisivas são ainda piores: em clássicos disputados na cidade do torcedor, os registros sobem 11%; nas rodadas finais do Brasileirão, 17%.
🔸 Mesmo depois de o STF considerar inconstitucional a lei catarinense que restringia as cotas raciais nas universidades estaduais, o estado voltou a discutir um projeto que limita o alcance das políticas de ações afirmativas em Santa Catarina. De autoria do deputado Alex Brasil (PL-SC), a proposta estabelece que as cotas e demais ações afirmativas não poderão ultrapassar 20% das vagas nas instituições públicas estaduais de ensino técnico e superior e condiciona o acesso às cotas raciais a critérios de vulnerabilidade socioeconômica. A revista Afirmativa lembra que, ao derrubar a lei anterior, o Supremo entendeu que ela havia sido aprovada sem a devida análise da eficácia da política pública e destacou os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil no combate ao racismo.
📮 Outras histórias
Na zona sul de São Paulo, a Escola Feminista Abya Yala forma agentes populares de saúde a partir da combinação entre saberes ancestrais, práticas de cuidado coletivo e debates sobre saúde mental. A Periferia em Movimento detalha a iniciativa, voltada a mulheres e dissidências de gênero periféricas. O curso reúne participantes de diferentes perfis para trocar experiências e resgatar conhecimentos transmitidos entre gerações. “Foi se tornando ao longo do tempo um coletivo. O nome ‘escola’ vem desse formato que as reuniões acontecem”, explica a idealizadora Helena Silvestre. Uma das participantes é Carol França, moradora do Jardim Rosana e agente de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis. Depois de ingressar no projeto, ela passou a incorporar práticas populares ao trabalho, sugerindo, por exemplo, babosa para feridas e aroeira para alergias, sem substituir os tratamentos convencionais. “A troca que eu tenho com essas mulheres melhora a minha vida em absolutamente todos os aspectos”, afirma.
📌 Investigação
Em quase dois anos de ataques a tiros, emboscadas, torturas e assassinato, a responsabilização pelos ataques contra indígenas avá-guaranis no Oeste do Paraná praticamente não avançou na Justiça. Apenas um caso se transformou em processo judicial. O Plural reconstrói a escalada do conflito fundiário na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, onde comunidades passaram a retomar áreas sobrepostas por cerca de 165 fazendas, e mostra que muitos casos nem sequer resultaram em inquéritos. Entre as vítimas está Elizio Galeano, baleado no rosto em janeiro de 2025 enquanto voltava do mercado para casa. A sequência de ataques deixou dezenas de indígenas feridos, um homem paraplégico e culminou, em julho de 2025, no assassinato e na decapitação de Everton Lopes Rodrigues, de 21 anos, ao lado de uma carta com ameaças à comunidade indígena.
🍂 Meio ambiente
As mudanças climáticas causadas pelo homem podem transformar as vegetações tropicais, até 2050, em uma escala comparável à de 3,3 milhões de anos de mudanças naturais. A conclusão é de um estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do qual o pesquisador Ubirajara Oliveira é membro. Em artigo no The Conversation Brasil, ele detalha o trabalho e explica que a Amazônia pode perder mais de um terço de suas florestas até 2050 e que regiões estáveis por milhões de anos, como o Arquipélago Malaio, podem ter a cobertura florestal reduzida em mais de 40%. “Transformações que levaram milhões de anos podem se repetir em décadas. Mudanças lentas causaram extinções. Se comprimirmos mudanças de magnitude semelhante em poucas décadas, as consequências podem ser incomparavelmente maiores”, alerta o pesquisador.
📙 Cultura
A Copa deste ano marcou “o momento em que a Globo sentiu o peso do YouTube no esporte”, avalia Sandro Nascimento, em coluna no Na Telinha. Segundo ele, a decisão da emissora de abrir mão da transmissão de parte dos jogos na TV aberta ajudou a impulsionar a CazéTV, que exibiu todas as partidas e “furou a bolha do público jovem”. Nascimento afirma que a cobertura da TV Globo foi “engessada” e não conseguiu empolgar. Para ele, a disputa vai além da audiência. “Essa Copa mandou um recado claro: ou a Globo abraça o YouTube de forma agressiva (...), ou o Mundial de 2026 será lembrado como o momento exato em que o império do esporte mudou de mãos”, conclui.
🎧 Podcast
Para a população LGBTQIAPN+, envelhecer também é uma questão de direitos e de pertencimento. A professora aposentada e ativista Dora Cudgnola, 73 anos, afirma que viver mais não basta se a sociedade não estiver preparada para acolher essa população. “A gente vem observando que a velhice vem aumentando. Só que nós não vemos uma cidade preparada para essa população”, diz. No “Cena Rápida”, produção do Desenrola e Não Me Enrola, ela conta como é envelhecer sendo uma mulher lésbica, vinda do distrito da Penha, na zona leste de São Paulo. Dora fala ainda sobre como aprendeu a encontrar felicidade na solitude e defende que os jovens LGBTQIAPN+ possam chegar à velhice com mais tranquilidade. O episódio ouve ainda Célia Moura, arte-educadora e vice-presidente da Eternamente Sou, que atua no fortalecimento e acolhimento de pessoas LGBTQIAPN+ 50+.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
Empreendedores negros são maioria entre os donos de pequenos negócios no Brasil, mas seguem enfrentando barreiras para acessar investimento e criar startups. Embora representem 52% dos empreendedores do país, 71% dos fundos de venture capital não têm nenhuma pessoa negra em suas equipes de investimento. A Emerge Mag mostra como a falta de diversidade entre investidores, o acesso desigual ao crédito e modelos de capacitação distantes da realidade periférica ajudam a explicar esse cenário. As trajetórias de Léo Oliveira, fundador da startup Humanos & IA, e de Íris Barbosa Barreira, presidente do Instituto Pactuá, mostram como profissionais negros precisaram construir seus próprios caminhos para ocupar espaços de liderança e inovação. “Mesmo entregando resultados melhores, nem sempre eu era promovido. Foi necessário criar estratégias, networking e visibilidade”, afirma Léo. Para Íris, “quando o sistema fecha portas, a gente aprende a construir as nossas”.



