🔸Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) não participaram do primeiro debate presidencial de 2026, promovido pela Band, ontem, em São Paulo. O Metrópoles conta que a emissora preparou o confronto esperando as presenças deles e de Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Embora tenha sido convidado, Pablo Marçal (PRTB) foi impedido de participar pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Antagonista explica que Zema desistiu do encontro porque, “diante da ausência de Lula e de outros concorrentes, a alteração de data [que passou de 16 para 23 de agosto com a expectativa de que o petista participasse] perdeu o seu propósito inicial”, segundo a assessoria do candidato.
🔸 “Um vídeo que simula um eleitor que não existe e atribui a esse personagem fictício uma declaração de voto não é apenas propaganda: é a fabricação de um fato social que nunca ocorreu”, explica o advogado Leandro Petrin, especialista em direito eleitoral. O Aos Fatos revela que vídeos criados com inteligência artificial simulam depoimentos de eleitores no TikTok e já acumulam 7,4 milhões de visualizações. A reportagem identificou ao menos 50 na plataforma que apoiam candidaturas de Lula e Flávio. Segundo especialistas, a legislação proíbe a prática e o aviso de que é gerado por IA não é uma licença para circulação desse tipo de conteúdo. “É uma irregularidade eleitoral, seja em formato de áudio ou de vídeo, seja para criar a imagem [ou a voz] de uma pessoa fictícia ou de uma pessoa real”, afirma Marcos Rafael Coelho, secretário-judiciário do Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul.
🔸 As periferias ganharam maior espaço nos planos de governo em 2026. As menções ao termo passaram de 11, em 2022, para 44, neste ano. Levantamento da Agência Mural mostra como as referências aparecem entre os presidenciáveis. Enquanto o plano de Lula prioriza investimentos em saneamento, cultura e internet 5G nesses territórios. Já o programa de Flávio não cita diretamente as periferias, mas fala em áreas degradadas e comunidades, onde promete promover a urbanização e promete retomar áreas dominadas por facções criminosas. O candidato Hertz Dias (PSTU) é o que mais menciona os termos “periferia” e “periférico”, com pelo menos 12 referências. Para ele, a violência institucional busca conter descontentamentos por meio do “encarceramento em massa” e do “genocídio da juventude, principalmente negra e periférica”.
🔸 A propósito: 51% das candidaturas presidenciais e estaduais ignoram totalmente o tema LGBTQIA+ em seus programas de governo registrados no TSE. A Agência Diadorim detalha que 99 dos 195 documentos mapeados não trazem nenhuma menção relevante à pauta. Outros 79 apresentam ao menos uma proposta específica, 15 trazem promessas genéricas e apenas dois citam o tema. Dos 12 candidatos à Presidência, oito não fazem nenhuma menção relevante em seus planos de governo. Candidatos como Edmilson Costa (PCB), Hertz Dias, Lula e Samara Martins (UP) apresentam propostas de acolhimento social e inserção no mercado de trabalho a essa população. A distribuição por região tem o Nordeste na liderança, com propostas específicas em 29 dos 66 planos; Sudeste (12 de 28); Sul (9 de 22); Centro-Oeste (11 de 28) e Norte (14 de 40).
🔸 A proposta de que as multas aplicadas em condenações por racismo financiem ações de igualdade racial em vez de irem para o fundo penitenciário foi aprovada pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Segundo a Alma Preta, o texto, de autoria do ex-deputado federal Alexandre Frota (PDT), propõe os recursos financeiros dessa origem, além de indenizações civis e prestações pecuniárias, sejam direcionados ao Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Sinapir) do estado onde ocorreu a condenação. Atualmente, o Código Penal destina o dinheiro ao fundo penitenciário. O projeto prevê ainda que as prestações pecuniárias, quando não destinadas à vítima ou aos dependentes, poderão ser utilizadas por entidades públicas ou privadas que atuem no enfrentamento ao racismo. A proposta ainda será analisada pelas Comissões de Finanças e Tributação e de Constituição e Justiça. Em sequência, precisará ser aprovada na Câmara, no Senado e passar pela sanção presidencial para virar lei.
📮 Outras histórias
“Há 11 anos tentam nos barrar, em pequenos detalhes, boicotando de várias formas”, afirma o cozinheiro Julio Ritta sobre os obstáculos na distribuição de marmitas para mais de 7 mil pessoas em situação de rua em Porto Alegre (RS). Em entrevista ao Matinal, o ativista e organizador da ONG Cozinheiros do Bem relata que, no final de julho, a ação do projeto foi impedida pela Guarda Municipal com escudos e armas calibre 12. “Frente a tantas lutas, embates, prova de que conseguimos, temos que justificar a entrega de comida para quem tá na rua. Difícil é enfrentar esse boicote, essa tentativa de burlar nosso projeto e fazer com que a gente não entregue mais comida.” Ritta destaca ainda que a omissão municipal quanto à população vulnerável cresceu no depois da pandemia e das enchentes de 2024. “Os custos são altos, a exaustão maior ainda, mas entendemos que enquanto houver pessoas precisando meter a mão em uma lata de lixo para comer, nossa ação é necessária”, diz.
📌 Investigação
Quase metade (42%) dos 2.727 requerimentos minerários para explorar terras raras no Brasil é de empresas estrangeiras, sobretudo as sediadas na Austrália, nos Estados Unidos e no Canadá, revela a Repórter Brasil. O avanço dos projetos ameaça ao menos 283 áreas protegidas, gerando conflitos territoriais com comunidades tradicionais e povos indígenas que denunciam a falta de consulta prévia. “A mineração sempre deixa rastros”, diz Gilvan Magalhães, liderança do Quilombo Família Magalhães, no norte de Goiás, onde um projeto de mineração da empresa canadense Aclara Resources se sobrepõe ao território quilombola, formado por 30 famílias. “Ela [a mineração] causa desmatamento e afeta o bioma. Esperamos que a empresa enfrente esses problemas e pague por aquilo que não conseguir reparar.”
🍂 Meio ambiente
Mais de 20 milhões de pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro devem ser afetadas pelas secas extremas nas próximas décadas. É o que mostra um estudo da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos publicado na “Revista Brasileira de Recursos Hídricos”. A Agência Bori detalha que, na parte mais elevada da Bacia do Rio Paraíba do Sul, estiagens de oito meses podem triplicar de duração e se estender por até dois anos contínuos até o fim do século. “A porção alta da bacia funciona como a caixa d’água que temos em casa. Quando uma seca atinge essa área, é como se essa caixa demorasse muito mais para ser reabastecida. Aos poucos, os impactos se espalham para outras partes da bacia, afetando o abastecimento das cidades e a geração de energia”, explica o engenheiro civil Lucas Pereira de Almeida, um dos autores do estudo. Os pesquisadores ressaltam também o risco do chamado “ciclo hidro-ilógico”, que apaga a memória coletiva de crises passadas e atrasa o planejamento preventivo do governo.
📙 Cultura
Cinco músicas de artistas brasileiros lançadas neste ano de Copa do Mundo com temática de futebol revelam o sentimento de identidade nacional. Em artigo na revista piauí, o sociólogo Jonas Medeiros analisa as letras das canções e o contexto do país. “Podemos tomar esses singles como termômetros da vida nacional em 2026 – momento em que, não bastasse a perene crise política marcada pelo fortalecimento da extrema direita, o país alcançou seu maior jejum de títulos da Copa desde que o torneio foi inventado.” Ao examinar obras de artistas como Rincon Sapiência, Don L, MC Kekel, Amanda Magalhães e Fabio Brazza, o pesquisador destaca como o sincretismo sonoro entre o samba, o rap, a bossa e o funk revela a passagem de uma ordem conciliadora para um cenário de conflito aberto e ruptura social nas periferias urbanas assim como “produz diferentes imagens de nação, disputando o seu sentido político”.
🎧 Podcast
“Jamais na minha vida ia imaginar a possibilidade de uma coisa dessa acontecer”, conta a cabeleireira Larissa Nery, de Belo Horizonte (MG), ao descobrir que uma fotografia sua disponibilizada em um banco de imagens gratuito foi usada em 22 registros eleitorais fraudulentos na Índia. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, reconstrói essa história: “Quando chegou a noite, eu já tinha uns 2 mil seguidores a mais [...] e muito repórter me chamando e me ligando”. Na segunda parte do episódio, o pesquisador Viktor Chagas, professor da Universidade Federal Fluminense, que pesquisa há anos como a extrema-direita se organiza nas redes sociais, fala sobre o uso coordenado de memes políticos nas plataformas e o “astroturfing” – tática de dissimulação de apoio popular espontâneo. “Quando se trata de um ambiente absolutamente opaco, como um serviço de mensageria, como o WhatsApp, você tem ainda menos elementos, digamos assim, para discernir o que é um comportamento orgânico do que é um comportamento sintético”, explica.
🙋🏾♀️ Raça e gênero
“Um dos lugares mais solitários do mundo para uma pessoa negra é a docência acadêmica. Melhor: um dos lugares mais solitários do mundo para uma mulher negra é a docência acadêmica”, afirma a jornalista Fabiana Moraes. Em artigo no Intercept Brasil, ela discute a exclusão racial e de gênero no ensino superior e critica os mecanismos históricos e institucionais que tornam os espaços de poder acadêmico hostis para pessoas negras. Ao tratar da morte do sociólogo Jason Arday, professor negro mais jovem de Cambridge, vítima de perseguição na Inglaterra, Moraes traça um paralelo com a realidade brasileira, onde pretos e pardos somam 55,5% da população, mas docentes pretos são somente 3,2% na graduação, e pardos somam 19,6%. Segundo a jornalista, o fatiamento e a judicialização das cotas barram a posse de intelectuais negros e a “representação sem presença é miragem” – nas palavras de José Eduardo Ferreira Santos, cofundador do Acervo da Laje, de quem ouviu essa frase.



