🔸“Jogavam coisas na escola, jogaram fogos de artifício em mim, jogaram lixo na minha casa”, conta a orientadora educacional Juliana Andozio, que permitiu uma aluna trans usar o banheiro feminino da instituição onde trabalhava em Florianópolis (SC). A Agência Pública esmiúça a tática de políticos de extrema direita que instrumentalizam gravações não autorizadas de alunos para atacar educadores e engajar eleitores. O professor de História Jadir Anchieta foi afastado e demitido após ter aulas expostas na internet em uma ação para faturar cliques e votos. “A sala de aula não é um campo de polícia ideológica”, declarou o desembargador do Tribunal de Justiça de Santa Catarina ao anular a demissão do docente. O coordenador do Observatório Nacional da Violência Contra Educadores, Fernando Penna, alerta para a autocensura e a transformação das escolas em espaços de embate ideológico em períodos eleitorais. Em 2026, ele projeta que a direita mobilizará todas as estratégias que já deram retorno para voltar ao poder.
🔸 “A violência sofrida pela recorrente não se limitou à dimensão privada e doméstica. Ela se projetou sobre o exercício dos direitos políticos da candidata, impedindo-a de gerir livremente os recursos públicos de sua campanha e, por consequência, de exercer plenamente sua candidatura”, diz trecho do relatório do desembargador Sergio Francisco Carlos Graziano Sobrinho, relator do Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina. O Portal Catarinas detalha a decisão histórica que aprovou, por unanimidade, as contas de uma candidata a vereadora pelo MDB coagida pelo ex-companheiro a repassar recursos de campanha para ele, nas eleições de 2024 no município de Fraiburgo. O relator aplicou o Protocolo para Julgamento com Perspectiva de Gênero para afastar a responsabilidade da vítima. A Corte determinou que o agressor devolva R$ 7,1 mil ao Tesouro Nacional.
🔸 Violentadas pelo sargento da Polícia Militar Joel Rodrigues do Amaral, Carolaine Pantoja e Alice Barbosa denunciam abusos em abordagens truculentas em Muaná (PA). A Alma Preta reúne as acusações de agressão e ameaças contra o agente, que tem mais de cem mil seguidores no TikTok e no Instagram, plataformas em que publica vídeos das ações hostilizando pessoas de fora da cidade. “Quando chegou na viatura, ele me deu três tapas no rosto. Depois me jogou lá no camburão”, diz Alice sobre o dia em que xingou o policial após ter sido puxada pelo cabelo. Ela segue prestando depoimentos, e a denúncia foi formalizada na Corregedoria e no Ministério Público. “Não é fácil denunciar. A gente sofre represálias e acaba sendo tratada como se estivesse errada. Mas é preciso ter coragem”, relata Carolaine. No caso dela, a promotoria de Justiça Militar ofereceu denúncia criminal contra Amaral em 2024 pelo crime de lesão corporal leve. Uma nova audiência está marcada para outubro.
🔸 Um tiroteio fechou trechos da Avenida Brasil e suspendeu as aulas de 17 escolas na zona norte do Rio de Janeiro ontem. O Voz das Comunidades mostra que a segunda fase de uma megaoperação policial com mais de 200 agentes e blindados mobilizou comunidades de Vigário Geral e Parada de Lucas. Segundo a Polícia Militar, o objetivo da ação é enfraquecer grupos armados na área conhecida por Complexo de Israel. A violência provocou pânico e paralisou serviços essenciais no território. Além das escolas, unidades básicas de saúde interromperam visitas domiciliares em áreas vulneráveis. A primeira fase da operação ocorreu na sexta-feira, nas comunidades de Cidade Alta, Pica-Pau e Cinco Bocas, também com paralisação dos serviços e impacto na rotina nas comunidades. Um motorista de ônibus foi baleado no ombro em Parada de Lucas enquanto se deslocava para o trabalho.
🔸 “O simples ato de andar na rua com seu filho, que deveria ser um momento de alegria e normalidade, tornou-se uma fonte de ansiedade e apreensão”, afirma a defesa de uma vítima do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras com reconhecimento facial da Prefeitura de São Paulo. O Núcleo revela que falhas em bancos de dados criminais da ferramenta geram prisões indevidas de cidadãos inocentes. O levantamento localiza quatro processos judiciais de pessoas detidas ilegalmente – a maioria delas é negra – após alertas gerados por mandados de prisão desatualizados. Entre novembro de 2024 e novembro de 2025, 211 pessoas foram abordadas, levadas à delegacia e depois liberadas. 67% dos casos ocorreu por falta de baixa em mandados de prisão antigos e, em 28% deles, a abordagem ocorreu por inconsistências do próprio algoritmo. “Não dá para o Poder Judiciário no seu processo de decisão em relação a casos que envolvam prisões injustas ou abordagens injustas não entender que essas situações não podem ser entendidas como mero aborrecimento”, defende o advogado Pedro Diogo Carvalho Monteiro, do Laboratório de Políticas Públicas e Internet.
📮 Outras histórias
O primeiro banco genético de Cannabis sativa do Brasil fica em uma universidade pública na Zona da Mata mineira. Em 2024, o projeto – que teve início 24 anos antes – ganhou respaldo jurídico para sua implementação. “Celebramos hoje o início de uma jornada cheia de possibilidades”, afirmou Derly Henriques da Silva, agrônomo e professor da Universidade Federal de Viçosa, durante a inauguração do Banco de Germoplasma, que abriga 68 variedades genéticas da planta – a meta é ter 500. A Tribuna de Minas destaca que o potencial da cannabis vai além do uso medicinal e pode ser explorado pelas indústrias têxtil e alimentícia, na construção civil e na agricultura. Segundo o professor, há 24 experimentos agronômicos em andamento em distintas áreas do conhecimento. “Tudo começa conhecendo a variedade das plantas e os diferentes potenciais que podem ter para diferentes interesses”, explica.
📌 Investigação
Mais de 5 milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia Legal foram encontrados à venda em redes sociais e marketplaces. O Facebook concentra o maior número de anúncios. A série “Grilagem.com”, da Carta Amazônia, revela como grileiros lucram com invasões de terras protegidas na região, com engenheiros e agrimensores usando o Cadastro Ambiental Rural (CAR) para ajudá-los a validar suas invasões. Além disso, a engrenagem é respaldada pelo setor financeiro: embora o Conselho Monetário Nacional tenha proibido a concessão de crédito a imóveis que apresentam algum tipo de sobreposição a territórios indígenas, o Itaú Unibanco concedeu, em junho de 2025, um empréstimo de R$ 5 milhões a um empreendimento em propriedade ligada ao senador Jaime Bagattoli (PL-RO), a que está parcialmente sobreposta à Terra Indígena Rio Omerê, em Rondônia.
🍂 Meio ambiente
Responsável pela investigação contra o data center BEL1, em Belém, que segue sem pedido de licenciamento ambiental, o promotor de Justiça Márcio Silva Maués de Faria, do Ministério Público do Pará, afirma que as empresas “não ligam para empecilhos governamentais locais”. “Nesse componente da mudança climática, nós temos uma lei estadual que precisa ser observada. Precisa ser demonstrado que não vai ter impacto climático na atuação”, afirma. O empreendimento da Elea Data Centers está previsto para o segundo trimestre de 2027. Em entrevista à InfoAmazonia, o promotor questiona a prioridade do projeto, com alto consumo energético, diante dos desafios regionais: “Na Ilha das Onças, logo em frente, há pessoas que não têm energia elétrica, não têm água potável”, diz. “Você vai autorizar um empreendimento que vai consumir o equivalente a milhares de residências?”.
📙 Cultura
“O meu silêncio também é político. Então, eu prefiro falar”, afirma a cantora Teresa Cristina sobre o espaço do samba no contexto político. À Revista O Grito! a sambista fala sobre as inquietações que geraram “Tudo que Eu Tenho”, seu primeiro álbum autoral. A obra traz composições próprias depois de 30 anos dedicados à interpretação de outros artistas. A cantora exalta a importância de ser uma compositora de samba em um segmento dominado por homens, no qual “as mulheres são vistas por uma lente muito carregada” e relata a felicidade de “ser uma mulher à disposição do discurso, do diálogo, da fala”. Ao abordar as eleições, ela expressa gratidão ao Nordeste pelos votos decisivos no último pleito: “Quando eu crio uma frase de indignação ou de contestação, ela tem um sotaque nordestino.”
🎧 Podcast
Narcisismo, maquiavelismo e psicopatia em líderes são a “tríade sombria” que atravessa a forma de organização social ao longo dos milênios. A “Rádio Escafandro”, produção da Rádio Guarda-Chuva, mergulha nesses traços de personalidade e como eles se manifestam. Segundo Ana Paula Noronha, professora da Universidade de São Francisco, os narcisistas são focados na autoexibição e em sua própria grandiosidade; os psicopatas revelam extrema frieza diante do sofrimento alheio; e os maquiavélicos agem de forma manipuladora e indiferente às regras sociais. “O esforço do Maquiavel é tentar mostrar que o príncipe depende sobretudo de algumas características da sua personalidade”, explica o cientista político Paulo Henrique Cassimiro, professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Para ele, essas características constituem a “economia da maldade”. Já o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional do Rio de Janeiro, explica o funcionamento similar dessa tríade em sociedades indígenas, que evitam o acúmulo de poder.
👩🏾⚕️ Saúde
“Não existe, hoje, terapia capaz de deter ou reverter a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ): o cuidado é de suporte, voltado ao controle dos sintomas e ao conforto do paciente”, diz a bioquímica Tuane Vieira sobre a rara enfermidade que acomete o especialista em aviação e influenciador digital Lito Sousa, que tornou público seu diagnóstico na semana passada. “E, pela primeira vez na história da doença, candidatos a medicamento, que atacam diretamente seu mecanismo, estão sendo testados em pacientes”, completa. Em artigo no The Conversation Brasil, a pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro analisa até onde a ciência pode ir atualmente. Causada por “prions” – proteínas anormais que desencadeiam uma degeneração cerebral fatal –, a DCJ esporádica não tem cura. Vieira descreve os estudos com novas moléculas desenhadas para impedir a agregação proteica: “o cenário mudou, começamos a testar maneiras de interferir”.



