🔸 A PEC que acaba com a escala 6x1 foi aprovada pelo Senado em dois turnos na noite de ontem. O resultado representa uma vitória para o presidente Lula (PT), que buscava concluir a votação antes do segundo turno presidencial, em 25 de outubro. A CartaCapital informa que o texto, mantido sem alterações em relação à versão aprovada pela Câmara, reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, garante dois dias de descanso remunerado e proíbe a redução salarial. A mudança será gradual, com uma primeira redução para 42 horas e, depois, para 40. A votação dos dois turnos na mesma sessão foi viabilizada por um calendário especial articulado pela base governista, com requerimento de Teresa Leitão (PT-PE) para dispensar o intervalo regimental. Flávio Bolsonaro (PL) votou a favor após semanas de críticas, sob a justificativa de que esse era o desejo da maioria dos trabalhadores. O candidato continua, porém, defendendo maior flexibilidade na negociação das jornadas. Pouco antes do fim da votação, o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, mandou a Meta restabelecer o funcionamento do canal “Exército do Lula” no WhatsApp.
🔸 Falando em WhatsApp… O canal “Tropa do Flávio” publicou em média mais de duas mensagens falsas ou enganosas por dia desde sua criação. O Aos Fatos identificou 17 conteúdos desinformativos entre 7 e 13 de outubro, a partir de levantamento do instituto Democracia em Xeque. Vinculado à campanha de Flávio Bolsonaro, o canal tem mais de 1,7 milhão de inscritos. As publicações enganosas somavam quase 92 mil reações; sete distorciam ou tiravam de contexto falas de Lula, para sugerir, por exemplo, que ele teria declarado não acreditar em Deus. A frequência subiu para quatro posts enganosos por dia entre 11 e 13 de outubro, período de manifestações pela reeleição do petista. O levantamento não inclui conteúdos apagados, como uma imagem gerada por IA de uma mulher limpando supostas pichações no metrô após o ato na Paulista. As mensagens também circularam em outras redes, e o canal reproduziu desinformação de Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO).
🔸 A IA da Meta no WhatsApp, aliás, gera imagens com referências a Flávio Bolsonaro, mas bloqueia pedidos equivalentes sobre Lula. Usuários do aplicativo vêm relatando a diferença desde a noite de terça-feira. O Núcleo mostra que esse comportamento se reproduziu em testes: o chatbot criou uma estampa de camiseta com os dizeres “Flavio, PL e o número 22”, mas recusou a versão com “Lula, PT e o número 13”. Na maioria das tentativas, o uso do nome completo “Flavio Bolsonaro” também levou ao bloqueio. Ontem, a ONG de direitos digitais CTRL+Z denunciou o caso à Corregedoria da Justiça Eleitoral. Para a organização, o problema “não representa apenas uma falha de comportamento do sistema”: impede que usuários criem e divulguem conteúdo legítimo sobre Lula em uma ferramenta gratuita e amplamente distribuída, “enquanto o conteúdo equivalente relativo ao seu adversário é produzido sem obstáculos”.
🔸 “Uma publicação pode alcançar milhares de pessoas sem alterar a preferência do eleitor. Uma conversa pode mudar uma opinião sem modificar o voto. E uma campanha pode mobilizar os próprios apoiadores já convencidos, sem conquistar novos eleitores.” A avaliação é da cientista política Débora Campos Ribeiro, pesquisadora da UFSC, sobre os limites do “vira-voto”. O Nexo conversa com especialistas sobre as possibilidades de o movimento ajudar Lula a reverter a vantagem de 2,2 milhões de votos de Flávio Bolsonaro no primeiro turno. A estratégia ganhou força em 2018, quando artistas foram às ruas para convencer eleitores a votar em Fernando Haddad (PT), que perdeu para Jair Bolsonaro. Em 2022, as ações buscavam conquistar eleitores de Ciro Gomes e Simone Tebet, na eleição em que Lula venceu. Agora, apoiadores do presidente apostam em conversas pessoais e conteúdos digitais para alcançar indecisos. Para Leandro Consentino, professor do Insper, a conversão será mais difícil neste ano: “A estratégia se torna muito mais complicada de ser cumprida na medida em que você tem que virar voto de pessoas ideologicamente indispostas com o seu candidato”.

📮 Outras histórias
Em Porto Alegre, a sala que abrigaria um memorial sobre o Viaduto Otávio Rocha deu lugar a um bar. A prefeitura abandonou a proposta durante o restauro, concluído em abril, para destinar todos os espaços à exploração comercial. Inaugurada em 1932, a construção tem 29 pontos comerciais, dos quais 26 já têm ocupação definida. Segundo a Matinal, o consórcio responsável pela gestão afirma que nunca recebeu uma demanda para instalar o memorial. A prefeitura não respondeu se pretende incluí-lo em outra sala. A decisão provoca críticas de comerciantes e especialistas, que defendem a preservação da história da construção e dos trabalhadores que a ergueram e ocuparam. “O projeto era de restauração e humanização do patrimônio cultural, mas está indo somente para o lado comercial, o que tira a identidade e nossa história imaterial”, afirma Adacir José Flores, presidente da associação dos comerciantes do viaduto.
📌 Investigação
Quase uma em cada cinco pessoas mortas pela polícia de São Paulo em agosto foi vítima de agentes de folga, revela levantamento da Ponte com dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP). Foram 11 mortes, aumento de 37,5% em relação às oito registradas no mesmo mês de 2025. A alta ocorreu apesar da redução da letalidade policial no estado, que passou de 69 para 56 mortes no período. Entre janeiro e agosto deste ano, 480 pessoas foram mortas pela polícia paulista, das quais 87 por agentes fora de serviço. Coordenador de projetos do Instituto Sou da Paz, Rafael Rocha destaca a falta de transparência sobre as circunstâncias dessas ocorrências, especialmente quando envolvem policiais que fazem trabalhos particulares de segurança, os chamados “bicos”. “Existe uma área cinzenta entre um homicídio e uma MDIP [morte decorrente de intervenção policial] de folga, principalmente quando o policial está agindo, por exemplo, num bico”, afirma. Todas as 56 vítimas de agosto eram homens, e 61,5% daqueles com raça ou cor identificada eram negros.

🍂 Meio ambiente
Os ocos das umburanas abrigam centenas de anfíbios durante os meses de seca na Caatinga. Uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) registrou 475 animais de seis espécies, com até 98 indivíduos em uma única cavidade, conta o Nossa Ciência. Dentro das árvores, a temperatura foi, em média, 5,43 °C menor que a externa, e a umidade relativa, 15 pontos percentuais maior. Nessas condições, os animais permanecem em uma espécie de dormência até a chegada das chuvas. As árvores também acolhem abelhas nativas sem ferrão, e seus refúgios podem se tornar ainda mais importantes com a intensificação das secas. A descoberta expõe riscos da retirada de vegetação para empreendimentos: os anfíbios podem passar despercebidos dentro da madeira e acabar queimados em olarias, destino de parte da lenha na região de Açu (RN).
📙 Cultura
Quantos livros são publicados por ano no Brasil? Quantos são traduções ou foram escritos por mulheres? Em artigo na revista piauí, o editor e pesquisador Thomás Daniel Vieira mostra como as limitações de acesso à base brasileira de ISBN, código que identifica cada edição de uma obra, dificultam pesquisas sobre o mercado editorial. Gerenciado pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) desde 2020, o sistema oferece uma busca restrita e tem registros anteriores à transferência da Biblioteca Nacional sem informações básicas, como ano de publicação e editora. Com conhecimentos de computação, Vieira conseguiu consultar os dados por trás do site e encontrou quase 150 mil ISBNs de livros físicos em 2025, ante 10.663 novos registros apontados pela pesquisa da Nielsen, principal levantamento do setor. “Se nem os próprios editores, que fornecem esses dados, conseguem acessá-los para extrair informações, o que temos é um apagão sobre dados do mercado editorial que estão dispersos ou foram perdidos.”
🎧 Podcast
As tecnologias mudam a forma de produzir jornalismo e também as condições para que ele chegue ao público. No “Vida de Jornalista”, produção da Rádio Guarda-Chuva, Rodrigo Alves discute essas transformações em “Vida Analógica”, série narrativa em quatro episódios sobre a dependência das big techs e o avanço da inteligência artificial. A produção não usa recursos digitais: o roteiro é escrito à mão, a gravação e a edição são feitas em fita cassete e a trilha sonora vem de discos de vinil. Chiados e falhas dos gravadores integram a experiência. No último episódio, Rodrigo recebe fitas com entrevistas pelo correio, percorre livrarias em busca de definições e envia uma carta para algum lugar no futuro. Marina Dias, diretora de comunicação da Agência Pública, fala sobre a dificuldade crescente de atrair leitores pelas redes sociais e pelos buscadores após a popularização da IA. Para reduzir essa dependência, o veículo aposta em parcerias com influenciadores, encontros com apoiadores e lambe-lambes nas ruas.

✊🏾 Direitos humanos
Lula promete consolidar uma política migratória voltada ao acolhimento de migrantes e refugiados, ao combate à xenofobia e à ampliação do acesso a direitos e serviços públicos. Já Flávio Bolsonaro (PL) reconhece, em seu programa de governo, que a imigração faz parte da formação do Brasil, mas não apresenta propostas específicas para o tema. O MigraMundo compara os compromissos e as trajetórias dos dois candidatos à Presidência em relação à política migratória. No atual mandato, Lula determinou o retorno do Brasil ao Pacto Global para a Migração, da ONU, e criou a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia. Seu governo, porém, também adotou medidas criticadas, como a restrição a pedidos de refúgio no aeroporto de Guarulhos e novas exigências para a concessão de vistos humanitários. Flávio, por sua vez, tem poucas manifestações públicas sobre o assunto. Seu pai, Jair Bolsonaro, chegou a chamar refugiados de “escória do mundo” e retirou o Brasil do Pacto Global para a Migração.
