🔸 Donald Trump afirmou ontem que Lula (PT) lhe pediu para não tomar partido nas eleições brasileiras, sem informar quando o pedido ocorreu. Segundo o Terra, o presidente dos EUA voltou a questionar o pleito sem apresentar provas e não reconheceu a vitória do petista, embora tenha dito que conversará com ele. “Eu assisti à eleição. Eu não tomei partido, eu deixei acontecer. O atual presidente me pediu para não tomar partido”, declarou. As declarações ocorrem após a fuga de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os EUA e a divulgação de uma carta na qual o senador se declarou “presidente eleito” do Brasil. Na quarta-feira, questionado sobre essa afirmação, Trump confirmou que seu governo autorizou a entrada do aliado no país, mas disse que não se envolveria.
🔸 “O acolhimento do governo Trump [a Flávio] expõe uma extrema direita americana que opera com uma rede de proteção transnacional unida por uma narrativa comum de perseguição política e fraude eleitoral”, explica Philip Yang, pesquisador sênior do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, ex-diplomata de carreira do Itamaraty, que serviu em missões do Brasil em Genebra, Pequim e Washington. Em entrevista ao Nexo, ele afirma que Flávio busca transformar a derrota eleitoral em capital político e manter a liderança da oposição com respaldo estrangeiro. A estratégia, porém, expõe uma contradição: “É um paradoxo enorme entre o nacionalismo, normalmente associado à independência e à autonomia, e essa profunda dependência de um líder estrangeiro para poder sobreviver politicamente”. Yang alerta que a proteção ao senador pode comprometer a cooperação jurídica entre os países, caso Washington rejeite um eventual pedido brasileiro de extradição.
🔸 Depois da carta golpista de Flávio, o TSE, partidos de centro e aliados do senador defenderam o resultado das urnas, informa o Jota. O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, afirmou que as eleições “transcorreram dentro da mais absoluta normalidade e com respeito aos ditames legais e constitucionais”. MDB e União Brasil também reconheceram a legitimidade da reeleição de Lula. Entre os aliados, o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) prestou solidariedade ao senador, mas afirmou que “a eleição acabou e agora é preciso olhar pra frente”. Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio, também rejeitou a acusação de fraude: “O PL não pode fazer essa afirmação, nem eu, porque não há provas nesse sentido”. Antes de fugir, Flávio chegou a ensaiar um pedido de anulação da eleição, mas aliados o convenceram a recuar.
🔸 Lula deverá enfrentar novamente a pressão do mercado financeiro por arrocho fiscal e usar as redes sociais para manter o eleitorado mobilizado. A CartaCapital apurou que o presidente buscará conciliar estabilidade fiscal com espaço para políticas públicas e ampliação dos investimentos. O alerta entre integrantes da campanha é não repetir a mudança de orientação econômica do segundo mandato de Dilma Rousseff, que nomeou Joaquim Levy para a Fazenda e adotou a austeridade após uma campanha de confronto com os bancos. “A gente só não pode cometer o erro da Dilma 2. Temos de governar com o programa que ganhou”, afirma um membro do comitê da reeleição. Para sustentar sua agenda diante da pressão econômica e de um Congresso conservador, Lula deve explorar o contato direto com os brasileiros pelas redes, incorporado à sua rotina no segundo turno. A estratégia também depende de mobilização contínua, como resume o integrante da campanha: “A esquerda tem de entender que precisa estar em estado permanente de atenção e de mobilização. A extrema direita faz isso faz tempo, politiza tudo”.
🔸 Redes bolsonaristas passaram a espalhar informações falsas sobre cortes em programas sociais e um suposto recuo no fim da escala 6x1 um dia após a reeleição de Lula. Levantamento da Lupa identificou conteúdos enganosos no Telegram, WhatsApp, X, Facebook e Instagram. Segundo a plataforma MeltWater, publicações com menções a “cortes” e “Bolsa Família” tiveram alcance potencial de 1,3 bilhão de visualizações no X entre 22 e 28 de outubro. O governo não anunciou as mudanças alegadas. O Bolsa Família, por exemplo, não foi suspenso nem teve seu valor reduzido: o novo piso de R$ 691 entrou em vigor em 19 de outubro. Gás do Povo e Pé-de-Meia também continuam previstos na proposta orçamentária de 2027. Sobre a escala 6x1, a Secom afirma que “não há nenhuma proposta que retire direitos em discussão”. Também é falsa a alegação de que a promessa de um Pix de R$ 5 mil para microempreendedores individuais foi reduzida a R$ 363.

📮 Outras histórias
No Capão Redondo, zona sul de São Paulo, a Casa Periférica se tornou uma associação para ampliar o acesso a recursos e dar sustentabilidade aos projetos de comunicação, cultura e formação que abriga desde sua criação, em janeiro de 2025. Idealizado pela jornalista e professora Gisele Alexandre, o espaço oferece assessoria gratuita para editais, empréstimo de equipamentos e parcerias com artistas. A Emerge Mag lembra que a iniciativa reúne experiências construídas ao longo de duas décadas de atuação de Gisele na comunicação popular. Entre elas estão o Clube de Criadores Educapão, que forma jovens a partir de suas relações com a ancestralidade e o território, e o Manda Notícias, criado em março de 2020 para levar informação pelo WhatsApp e combater notícias falsas durante a pandemia. Com a associação, Gisele compartilha a gestão com outras mulheres negras e lideranças locais. “Quero formar novas lideranças jornalísticas e culturais no Capão Redondo para que essa história continue e não dependa apenas da minha figura.”
📌 Investigação
Lula ampliou sua votação entre os turnos mais do que Flávio Bolsonaro em 766 dos 773 municípios da Amazônia Legal – 99% das cidades –, inclusive em polos do agronegócio onde o bolsonarismo mantém vantagem. Levantamento da Sumaúma revela viradas em 24 municípios e a conquista de outro onde houve empate no primeiro turno. Na região, Lula recebeu 7,97 milhões de votos, ou 51,67% dos válidos, e abriu uma vantagem de 515.746 votos. A porção amazônica do Maranhão foi decisiva: o petista venceu em 176 dos 181 municípios e obteve uma diferença de 1,17 milhão de votos, suficiente para compensar a vantagem acumulada pelo adversário nos outros oito estados. Nos polos do agro, o crescimento reduziu distâncias sem necessariamente mudar o vencedor: em São Félix do Xingu (PA), que concentra o maior rebanho bovino do país, Lula ganhou 4,1 pontos percentuais, contra 0,1 de Flávio. Em Sorriso (MT), importante produtor de soja, avançou os mesmos 4,1 pontos, ante 0,4 do adversário, que venceu com 75,68%. Flávio manteve a liderança em cinco estados e ganhou em nove dos dez municípios mais desmatados da Amazônia entre 2008 e 2025.

🍂 Meio ambiente
A Amazônia Legal concentra cerca de 34% da capacidade instalada de geração hidrelétrica brasileira, mas consumiu apenas 8,4% da eletricidade produzida no país em 2020. A chegada da energia solar tem ajudado a enfrentar essa desigualdade, com melhorias na saúde, na alimentação escolar e na agricultura familiar. Essas transformações e os desafios que permanecem orientam “Luz nas respostas”, série do Amazônia Vox, com histórias de quatro comunicadores que vivem nos territórios retratados. Apesar das mais de 70 mil conexões realizadas pelo Luz para Todos na Amazônia nos últimos dois anos, 2,5 milhões de pessoas ainda dependem de sistemas isolados da rede nacional, cuja geração utiliza predominantemente diesel e gás natural. Na zona rural de Boa Vista (RR), agricultores usam irrigação movida a energia solar para reduzir custos e enfrentar a estiagem. Em Santarém (PA), as experiências incluem melhorias na alimentação escolar da Aldeia Esperança, na Terra Indígena Sarambí, e a refrigeração de vacinas na comunidade Anã.
📙 Cultura
Embora artistas com deficiência tenham marcado a história da arte brasileira, como o escultor e arquiteto barroco Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e a pintora modernista Anita Malfatti, os dados sobre a presença desses nos acervos ainda são escassos. O Nonada questionou 20 museus de arte, públicos, universitários e privados, de diferentes regiões do país sobre o tema: apenas quatro responderam – e nenhum havia realizado anteriormente um levantamento específico sobre a presença de artistas com deficiência em suas coleções. Os quatro relatam que, historicamente, não existe essa contabilização. Para a antropóloga Anahi Guedes de Mello, que pesquisa capacitismo, acessibilidade cultural e a relação entre deficiência e museus, a acessibilidade tem se dedicado apenas às pessoas com deficiência como público dessas instituições, e não como sujeitos de memórias e produtoras de conhecimento. “Os acervos não apenas preservam informações, mas também participam da definição de quem será reconhecido na história da arte, por isso, a importância”, afirma.
🎧 Podcast
O mandamento “não matarás”, que levava policiais evangélicos a questionar o uso de armas, vem cedendo espaço a outra passagem bíblica: Romanos 13, segundo a qual toda autoridade foi estabelecida por Deus. Essa mudança apareceu na pesquisa de Rodrigo Duque Estrada Campos sobre a expansão das capelanias voluntárias nas polícias. No “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, a repórter Carolina Moraes acompanha o pesquisador a Rio Branco (AC) para compreender como o acolhimento religioso transforma a atuação policial. “No meio dessa virada conservadora, passou a ser muito interessante para um policial que é evangélico, que é religioso, entender o seu mandato, entender a sua atividade profissional como algo que é sancionado divinamente, sancionado por Deus”, afirma o professor do King’s College London. Campos estima que pelo menos 4 mil capelães voluntários atuem nas corporações brasileiras, oferecendo assistência espiritual e apoio diante de problemas familiares, endividamento e sofrimento psicológico.

💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
As mulheres tiveram papel decisivo na reeleição de Lula, mas sua mobilização ainda não se traduz em participação equivalente no poder. Em coluna na revista AzMina, Juliana Faddul lembra que elas registraram menor abstenção no primeiro turno – 20%, ante 22% dos homens. No início do terceiro mandato, porém, ocupavam apenas 11 dos 37 ministérios. Ao longo das reformas ministeriais, quatro ministras deram lugar a homens, enquanto o movimento inverso ocorreu duas vezes. Para o próximo governo, Lula ainda não anunciou suas escolhas nem assumiu compromisso público com uma Esplanada paritária. Já no plano de governo, o presidente prometeu concluir 30 Casas da Mulher Brasileira e 15 Centros de Referência, ampliar o atendimento às vítimas de violência e fortalecer políticas de igualdade salarial, saúde e cuidados. Pensando em sucessão presidencial, Faddul destaca o fortalecimento de lideranças femininas à direita e à esquerda, de Michelle Bolsonaro (PL-DF) a Erika Hilton (PSOL-SP), além de jovens como Ana Elisa (PT-MG) e Ana Júlia Ribeiro (PT-PR). “Se tem uma coisa que essa eleição mostrou é que as mulheres estão ficando cada vez mais longe do papel de coadjuvantes da política brasileira”, afirma.
