O apoio bolsonarista à marca Ypê e o impacto da escala 6x1 para crianças
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🔸A oposição bolsonarista na Câmara apresentou uma PEC para anistiar os condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. A Proposta de Emenda à Constituição é uma resposta à decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender a aplicação da Lei da Dosimetria. O texto foi apresentado pelo líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), e está em fase de coleta de assinaturas. A CartaCapital explica que a anistia virou a principal aposta do bolsonarismo para tentar reduzir os efeitos da condenação de Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos de prisão por liderar a tentativa de golpe. Pela Lei da Dosimetria, a pena poderia cair para dois anos de detenção. A PEC prevê anistia para participantes “direta ou indiretamente” envolvidos nos ataques em Brasília. “O Congresso Nacional tem que ser respeitado. Não pode um único juiz derrubar a decisão do Parlamento, isso é invasão de competência”, escreveu o deputado ao apresentar a proposta.
🔸 A propósito: o ministro Nunes Marques será relator do pedido de revisão criminal apresentado pela defesa de Jair Bolsonaro contra a condenação por tentativa de golpe de Estado. Segundo o Metrópoles, os advogados do ex-presidente querem levar o caso ao plenário da Corte e sustentam que houve nulidades no processo. Também pedem a anulação da delação premiada de Mauro Cid e a absolvição de Bolsonaro. A defesa alega ainda que o julgamento deveria ter ocorrido no plenário do STF, e não na Primeira Turma. Nunes Marques integra a Segunda Turma do Supremo, ao lado de Gilmar Mendes, Dias Toffoli, André Mendonça e Luiz Fux.
🔸 O projeto de lei que criminaliza a misoginia virou alvo de campanha de desinformação nas redes sociais, impulsionada por políticos e influenciadores bolsonaristas como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL). Uma análise feita pela Agência Lupa identificou ao menos cinco narrativas enganosas sobre o texto. Há desde boatos segundo os quais perguntar sobre tensão pré-menstrual poderia virar crime até a falsa informação de que o projeto levaria à censura de trechos da Bíblia. Os ataques usam trechos de projetos diferentes para distorcer o debate e propagar sentimentos de medo e censura. Nikolas Ferreira publicou um vídeo atribuindo ao PL aprovado no Senado partes de outro projeto já arquivado. Já Lucas Pavanato misturou propostas distintas e fez declarações transfóbicas ao atacar o texto.
🔸 Falando em bolsonarismo… A suspensão de produtos da Ypê pela Anvisa virou alvo de mobilização dos apoiadores de Bolsonaro nas redes sociais, com acusações de perseguição política do governo Lula à empresa. A agência determinou o recolhimento e a suspensão da fabricação, comercialização e uso de produtos fabricados em lotes específicos depois de identificar falhas sanitárias na fábrica de Amparo (SP), com risco de contaminação microbiológica por fungos e bactérias. O Nexo conta que a reação política em defesa da marca ganhou força por causa da ligação dos controladores da Ypê com Jair Bolsonaro. Membros da família Beira doaram R$ 1 milhão para a campanha do ex-presidente em 2022, e a empresa foi condenada por assédio eleitoral após promover uma live com funcionários durante a eleição. Parlamentares e influenciadores bolsonaristas passaram a publicar vídeos defendendo a marca e acusando o governo de perseguição. A reportagem lembra que o apoio à Ypê resgata elementos do negacionismo científico visto durante a pandemia.
📮 Outras histórias
“Nossos alunos são adolescentes que, antes, eram crianças que a gente cortava o cabelo”, conta Igor Barreto, 35 anos, um dos fundadores da Barbearia Guerreiros do Corte (GDC), na Rocinha, comunidade na zona sul do Rio de Janeiro. Ao lado de Rômulo Saad e Roger Borges, Barreto criou o espaço que hoje se transformou em escola de formação profissional, ponto de apoio comunitário e referência de empreendedorismo na favela. O Fala Roça explica como funciona o trabalho do GDC. Com duração de quatro a seis meses, o curso parte de uma dinâmica prática: os alunos vão às ruas em busca de voluntários para cortes de graça. “A gente trabalha a autoestima, a confiança, a gente identifica que às vezes eles [os alunos] precisam de uma palavra de incentivo para tomar coragem”, explica Barreto. A função social da GDC começou há mais de dez anos, quando o trio de barbeiros decidiu parar de cobrar cortes de crianças da favela e criou ações para arrecadar alimentos e distribuir cestas básicas.
📌 Investigação
A Região Metropolitana de Florianópolis recebeu 2.532 mulheres imigrantes em 2025, número quase cinco vezes maior do que em 2020. A maior parte é composta por argentinas, cubanas, venezuelanas e haitianas. Já o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) registrou 600 solicitações no último ano, a maioria é de mulheres vindas de Cuba, Venezuela, República Dominicana e Irã. O Catarinas revela a falta de acolhimento e integração na comunidade local diante do despreparo da gestão municipal em elaborar políticas públicas voltadas à feminização da imigração. São casos de xenofobia, dificuldade com o idioma e barreiras para acessar direitos básicos. “Ninguém queria alugar uma casa para uma família de imigrantes, ainda mais com duas crianças”, relata a venezuelana Merlina Saudade Ferreira. “Revalidar o meu diploma foi um parto de elefante. Fui muito desacreditada, inferiorizada e subestimada.”
🍂 Meio ambiente
Dois jacarés e uma preguiça usados ilegalmente para interação com turistas no lago do Janauari, em Iranduba, na Região Metropolitana de Manaus, foram resgatados no último fim de semana. O resgate fez parte da Operação Anhangá 2, deflagrada pela Polícia Civil do Amazonas e Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), e resultou na prisão em flagrante de quatro pessoas por exploração e maus-tratos à fauna silvestre. Segundo a Revista Cenarium, os animais foram encaminhados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres, unidade vinculada ao Ibama. As multas aplicadas aos infratores totalizaram R$ 10.5 mil. “Durante a operação, constatamos que os animais estavam sendo utilizados para interação com turistas em troca de pagamento, o que configura uma prática ilegal. Também identificamos indícios de maus-tratos e condições inadequadas para a manutenção desses animais”, afirma a fiscal do Ipaam Yara Andrade.
📙 Cultura
Mães artistas se dedicam à criação artística em diferentes linguagens – do artesanato ao grafite – e articulam ancestralidade, afeto e denúncia para produzir obras atravessadas por experiências de raça, território, pertencimento e sobrevivência. O Nós, Mulheres da Periferia lista artistas indígenas, quilombolas, negras e periféricas que transformam experiências individuais e coletivas em arte. É o caso da atriz e estilista Eunice Baia, mãe de três crianças. Indígena do povo Baré, ela é conhecida por interpretar a protagonista dos filmes “Tainá”. Outro exemplo é a artesã Gileide Ferreira da Silva, liderança da Comunidade Quilombola Serra do Talhado Urbano, em Santa Luzia, na Paraíba. Além de criar a filha e os sobrinhos, ela atua na preservação de uma tradição ancestral de produção de louças de barro transmitida entre gerações. Sua experiência revela como mulheres quilombolas sustentam redes inteiras de memória, sobrevivência e resistência coletiva.
🎧 Podcast
Conhecida como “Casa dos Horrores”, a Casa de Saúde Anchieta acumulou denúncias de maus tratos e violações de direitos humanos ao longo de quase 40 anos de funcionamento, até que, em 1989, a Prefeitura de Santos interveio no órgão. Por meio da Rádio Tam Tam, feita pelos próprios pacientes, os internos conseguiram interagir com a sociedade para enfrentar o estigma da loucura. Anos depois, o hospital psiquiátrico foi abandonado e virou uma ocupação. O “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, narra como o espaço que era símbolo do movimento antimanicomial no país se tornou um capítulo importante da luta por moradia. “O Anchieta é um dos casos mais vitoriosos da campanha Despejo Zero aqui na região, mas também no Brasil inteiro, porque foi graças à campanha que a gente conseguiu tempo, fôlego para poder dedicar ao processo judicial, que era muito complexo”, afirma Gabriela Ortega, advogada popular que acompanha o caso da Ocupação Anchieta.
✊🏾 Direitos humanos
Uma das causas da ausência parental, a escala 6x1 tem efeitos diretos no desenvolvimento de crianças e adolescentes e no vínculo familiar. “Eu não vou nem avisar pra minha mãe, ela não tem tempo pra vir mesmo”, afirmou Matheus, 12 anos, ao levar uma advertência na escola por causa de seu comportamento. Sua mãe, Lucélia Gomes, é auxiliar de cozinha e trabalha de segunda a sábado. Quando chega do trabalho cansada, seus filhos já comeram, já fizeram a lição – sozinhos ou com a ajuda da avó de 65 anos, a única rede de apoio que eles têm: “É muito triste você ver que seus filhos estão crescendo e você só participa pelo que a avó conta”. O Lunetas mostra como a jornada de trabalho impacta o crescimento e desenvolvimento infanto-juvenil. As mulheres representam 54% do total dos empregos com jornada de 44 horas semanais, e a maioria está enquadrada na escala 6x1. “Se eu tivesse mais tempo, queria ensinar a lição, brincar mais, ficar mais junto”, diz Lucélia.




