🔸 O recorde de mulheres eleitas para o Congresso convive com a concentração de votos em figuras que fazem do antifeminismo uma bandeira política. Seis parlamentares do PL, entre elas Eduarda Campopiano, Julia Zanatta e Ana Campagnolo, somaram mais de 6,5 milhões de votos. Campopiano, 23 anos, foi eleita deputada estadual em São Paulo com 1,95 milhão de votos, depois de começar a produzir conteúdo político nas redes aos 18, tornar-se comentarista da Jovem Pan e conquistar uma cadeira de vereadora em Praia Grande em 2024. “É também a história de como uma estrutura política construída nas redes sociais pode converter influência digital em força eleitoral e, ao mesmo tempo, produzir novas lideranças para a extrema direita”, avalia a doutora em Sociologia pela Universidade de Brasília, Camila Galetti. Em artigo no Intercept Brasil, ela mostra como a extrema direita transformou o antifeminismo numa máquina de votos no Congresso. “Uma mulher que rejeita o feminismo oferece à extrema direita algo que um homem dificilmente poderia oferecer da mesma maneira: a possibilidade de dizer que a crítica feminista não representa necessariamente as mulheres”, escreve Galetti.
🔸 A propósito: o aumento da bancada feminina no Congresso foi puxado por mulheres brancas, com pouco avanço na representação de negras. Levantamento da Alma Preta mostra que a Câmara passou de 90 deputadas eleitas em 2022 para 109 em 2026. As brancas passaram de 56 para 73; as negras, de 31 para 34. Entre as 12 senadoras eleitas, dez são brancas e duas pardas, sem nenhuma mulher preta. Os homens negros perderam espaço na Câmara e caíram de 108 em 2022 para 101 deputados. A desigualdade aparece também na distância entre candidaturas e mandatos: mulheres negras representaram 18,2% das candidaturas à Câmara, mas apenas 6,6% das pessoas eleitas. A reportagem lembra que financiamento, tempo de televisão e apoio partidário funcionam como filtros que concentram o poder em homens brancos e penalizam sobretudo mulheres negras.
🔸 O ministro Kassio Nunes Marques estuda conceder uma liminar para soltar Jair Bolsonaro antes de uma eventual posse de Flávio Bolsonaro (PL), em janeiro de 2027. O Jota apurou que a decisão poderia ocorrer em uma das revisões criminais das quais o ministro do STF é relator. Indicado ao Supremo pelo ex-presidente, Nunes Marques tem dito que vê problemas na condução do processo que levou à condenação de Bolsonaro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. Mesmo que o colegiado posteriormente derrubasse a liminar, a soltura poderia abrir tempo para que Flávio, se eleito, buscasse medidas para beneficiar o pai, como um indulto.
🔸 O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), está entre a pressão do governo para votar o fim da escala 6x1 nesta semana e a articulação da oposição bolsonarista para adiar a proposta. Segundo a CartaCapital, Alcolumbre diz a aliados estar preocupado com a administração desse conflito, que também atravessa sua tentativa de permanecer no comando da Casa em fevereiro de 2027. O avanço da direita nas eleições dificultou seus planos: o PL terá 28 senadores e já lançou Rogério Marinho (PL-RN), crítico da PEC e coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, como candidato à presidência do Senado. Alcolumbre manteve a proposta na pauta, mas a oposição segue articulando ausências às sessões para impedir o quórum. Entidades empresariais também pressionam contra uma aprovação rápida.
🔸 Falando nisso… Flávio Bolsonaro (PL) voltou a criticar a proposta de fim da escala 6x1 e defendeu um regime de trabalho por hora, negociado individualmente entre empregado e empregador. Questionado sobre a PEC do governo Lula, o candidato à Presidência não esclareceu como votará e afirmou ter uma alternativa “infinitamente melhor”, informa o Metrópoles. A PEC apresentada pela oposição não extingue a escala 6×1 nem reduz o limite da jornada: permite acordos individuais com remuneração e direitos proporcionais às horas trabalhadas, o que pode diminuir o salário caso a carga horária seja reduzida.

📮 Outras histórias
Entre hoje e o próximo dia 26, o Círio de Nazaré movimenta multidões com 14 procissões pelas ruas e águas da Região Metropolitana de Belém. A Carta Amazônia apresenta um guia com mapas e trajetos dos cortejos, que podem ser acompanhados por GPS. O ponto alto será a grande procissão de 11 de outubro, quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré percorrerá cerca de 3,6 km da Catedral da Sé à Praça Santuário, em meio a milhões de devotos. Antes, o traslado para Ananindeua fará o percurso mais extenso da programação, de cerca de 47 km, com homenagens como a dos pacientes do Hospital Oncológico Ophir Loyola. A Romaria Fluvial levará a imagem pela Baía do Guajará, acompanhada por centenas de embarcações. A programação ainda inclui cortejos de ciclistas, motociclistas, jovens e crianças, além da Romaria da Acessibilidade, criada em 2023 para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida.
📌 Investigação
Pela primeira vez desde a redemocratização, o Brasil terá dois governadores ex-militares, além de oito cadeiras no Congresso, segundo levantamento da Agência Pública. O tenente-coronel da reserva Luciano Zucco (PL) foi eleito governador do Rio Grande do Sul com 58% dos votos válidos, e o capitão da reserva Tarcísio de Freitas (Republicanos) conquistou a reeleição em São Paulo com mais de 62%. O Congresso saiu do primeiro turno com dois senadores, quatro deputados federais e 23 suplentes, todos das Forças Armadas. O PL concentrou 21 das candidaturas militares, cerca de um terço do total. Para Juliano Cortinhas, professor da UnB, o resultado “sugere uma nova tendência, com cada vez mais militares candidatando-se a cargos eletivos daqui pra frente”. “Mas isso é um problema porque, em geral, militares são despreparados politicamente”, afirma Cortinhas. Uma PEC apoiada pelo governo Lula para restringir candidaturas militares continua parada no Senado. Uma articulação liderada pelo general da reserva e ex-vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos-RS) freou a iniciativa até aqui.

🍂 Meio ambiente
“A composição do Senado ficou marcadamente antiambiental. Na Câmara ainda poderemos contar com mais nomes em defesa das questões ambientais”, avalia Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima e ex-presidente do Ibama. O Eco destaca que o PL, partido de Flávio Bolsonaro, aumentou sua bancada de 98 para 121 deputados e de 15 para 28 senadores. Segundo levantamento da Rede Pró-UC, 13 deputados da sigla são responsáveis por 27 das 46 propostas identificadas como prejudiciais às unidades de conservação. “A legislação ambiental costuma ser encarada como um entrave a ser afastado por partidos de direita e extrema direita. São posições que vão de um negacionismo climático explícito, com recusa de fatos científicos sobre o aquecimento global, a versões mais brandas e que afastam a relevância das ações do poder público voltadas a proteger o meio ambiente e os direitos socioambientais”, completa Suely Araújo.
📙 Cultura
Mais de 500 capas de cordel criadas desde a década de 1950 compõem um livro que revela a contribuição de artistas populares para a linguagem gráfica brasileira. Resultado de 15 anos de pesquisa do designer alagoano Victor Yves, “Visual Culture of Northeast Brazil: Cordel Edition” reúne trabalhos de Mestre Dila, Mestre Noza, José Costa Leite e J. Borges, entre outros. As capas tratam de religião, cangaço, política, futebol e acontecimentos científicos, com conhecimentos gráficos desenvolvidos em feiras, oficinas artesanais e pequenas gráficas do Nordeste, muitas vezes ausentes da história oficial do design. A Revista O Grito! detalha o trabalho de Yves, que nasceu em Arapiraca e conheceu o cordel nas visitas às feiras com o pai. Ao estudar design, percebeu que aquelas referências da infância tinham pouco espaço na formação acadêmica e começou a reunir um acervo que hoje soma cerca de 8 mil registros.
🎧 Podcast
“A ditadura mentiu o tempo todo para o povo brasileiro. Quantas versões falsas tem da história do Brasil?” Amelinha Teles, morta em 15 de setembro deste ano, contou ter sido obrigada a ler uma manchete que apresentava um companheiro assassinado pelos militares como um “terrorista morto em tiroteio”. Presa em 1972 e torturada no DOI-Codi de São Paulo, a escritora e ativista falou sobre a importância de registrar os crimes do regime para defender a democracia no “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um. “A minha vivência política me mostra o seguinte: nós estamos fazendo história, mas temos que registrar e estudar a história do Brasil.” Gravada n’A Feira do Livro 2026, com mediação de Juliana Borges, a conversa reuniu Amelinha e o jornalista Camilo Vannuchi, que relaciona seu trabalho sobre memória e verdade ao avanço da extrema direita. “Cresci achando que a democracia estava consolidada no Brasil”, diz Vannuchi. “De repente, a gente teve um golpe de Estado, civil, parlamentar, midiático [o impeachment de 2016] e o começo de um processo de ascensão de grupos políticos que tinham como líder uma pessoa que dizia na televisão que era a favor da tortura.”

🙋🏾♀️ Raça e gênero
Bebês negros recebem menos colo e atenção do que os brancos em unidades de educação infantil, relata a educadora Jussara Santos, que observou essas diferenças ao longo de 20 anos de trabalho. Autora de “Democratização do Colo”, ela explica ao Lunetas que acolher inclui olhar, escutar e oferecer segurança emocional. A ausência desse cuidado por vieses racistas pode comprometer o desenvolvimento e a autonomia das crianças. Ela própria sofreu racismo entre colegas e conta como isso a impediu de reagir: “Me colocavam apelidos, riam de mim. Quando eu via os bebês sofrendo racismo, muitas vezes eu fui omissa, não conseguia defendê-los, porque eu não queria me expor em uma situação em que eu também era vítima”. Segundo a pesquisa “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e do Datafolha, em 2025, 16% dos cuidadores relataram discriminação contra suas crianças de até 6 anos. Creches e pré-escolas foram os ambientes mais citados, mencionados por 54% dos entrevistados.
