Uma análise do roteiro de 'Dark Horse' e a nova 'boiada' dos deputados
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🔸O Congresso flexibilizou regras para repasses federais a municípios no período eleitoral, derrubando vetos do presidente Lula (PT) à Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026. A medida permite exceções para transferências antes proibidas durante a campanha, para evitar favorecimento eleitoral. O presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), alegou que a derrubada de vetos foi um gesto a prefeitos. A CartaCapital explica que, se a flexibilização for sancionada por Lula, estão liberadas as doações em época de campanha, o que beneficia municípios no geral e abre brechas para o pagamento de emendas parlamentares não impositivas, até então alvo de restrições no período eleitoral.
🔸 Falando em campanha… A Câmara aprovou um projeto que permite disparo em massa de mensagens de propaganda eleitoral por partidos, candidatos e mandatários, desde que os números de celular estejam cadastrados na Justiça Eleitoral. Segundo o Mobile Time, os disparos não serão considerados “envio em massa”, mesmo quando feitos com sistemas automatizados ou bots. Operadoras e aplicativos não poderão restringir esse tipo de conteúdo sem decisão judicial. O projeto de lei também limita multas eleitorais por contas desaprovadas a R$ 30 mil, impede o bloqueio de recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral e reduz sanções a diretórios partidários a no máximo cinco anos.
🔸 Em meio à crise envolvendo sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) viajará a Washington na próxima semana para um possível encontro com o presidente Donald Trump. O Metrópoles apurou que o encontro teria sido articulado por Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que está nos EUA há mais de um ano, e pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Já segundo auxiliares de Flávio, o convite teria sido feito pelo governo de Trump. O senador e pré-candidato à Presidência pretende usar a reunião para tentar minimizar os desgastes políticos ligados ao caso Vorcaro e para reforçar sua aproximação com Trump, depois da bem-sucedida reunião do presidente Lula com o republicano.
🔸 Falando em Vorcaro… O banqueiro pressionou o sócio do Portal Leo Dias, Thiago Miranda, para retirar do ar uma reportagem sobre “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro (PL). “Opa, tudo bem? Achei que divulgar que tá fazendo o filme muito ruim, não acha?”, escreveu o dono do banco Master em mensagem obtida pelo Intercept Brasil. Vorcaro conseguiu que o texto fosse apagado do site cerca de uma hora depois, em agosto de 2025. Miranda era intermediador dos repasses ao longa e articulou uma campanha coordenada de influenciadores de ataque ao Banco Central, em janeiro deste ano. A matéria apagada revelava detalhes até então inéditos sobre “Dark Horse”, como o diretor escolhido, o início das gravações e a proposta de retratar Bolsonaro como “um homem corajoso e determinado”. O texto também afirmava que o filme amenizaria “polêmicas e controvérsias” envolvendo o ex-presidente.
🔸 Produtor de “Dark Horse”, o deputado Mário Frias (PL-SP) está fora do Brasil. Oficiais de Justiça tentam notificá-lo desde 12 de maio em uma ação que apura o repasse de emendas parlamentares a organizações não governamentais ligadas à produção do filme. A Agência Pública revela que a organização conservadora Yes Brazil USA, sediada na Flórida, foi responsável por levar Frias aos EUA. Criado por brasileiros alinhados ao bolsonarismo, o grupo disseminou conteúdos sobre supostas fraudes eleitorais em 2022 e promoveu arrecadações para apoiadores presos pelos atos golpistas de 8 de janeiro. A Yes Brazil USA também articulou agendas de Bolsonaro nos EUA após a derrota eleitoral de 2022 e organizou eventos na Europa com parlamentares bolsonaristas, nos quais foram feitos ataques ao sistema eleitoral brasileiro. O ministro Flávio Dino determinou que a Câmara dos Deputados explique os custos e a autorização da viagem de Frias.
🔸 A propósito: “Dark Horse” repete alegações desinformativas sobre a facada sofrida pelo ex-presidente e altera acontecimentos de sua trajetória política e da campanha de 2018. A Lupa analisou as cenas do roteiro que foram inspiradas em acontecimentos reais, comparando com documentos, investigações e registros públicos da época. O longa gira em torno da facada sofrida por Bolsonaro em 2018 e reproduz teorias sem provas sobre o episódio, sugerindo que o atentado teria sido articulado por adversários políticos ligados à esquerda. Na realidade, todas as investigações concluíram que Adélio Bispo, que executou a facada, agiu sozinho. O filme também distorce episódios da campanha de 2018 ao mostrar Bolsonaro dominando o debate público após a facada e ao retratar Fernando Haddad como representante do governo Dilma Rousseff, embora Michel Temer fosse o presidente naquele momento. O longa ainda minimiza os ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, descritos no roteiro como protestos “majoritariamente pacíficos”, e exagera a condenação do ex-presidente no STF ao citar uma pena de 43 anos, quando a sentença real foi de 27 anos e 3 meses.
📮 Outras histórias
O Rio Grande do Norte realizará pela primeira vez cirurgias de redesignação de gênero pelo SUS. As primeiras intervenções devem acontecer na capital Natal e beneficiar inicialmente duas mulheres trans. A Saiba Mais destaca que as cirurgias posicionam o estado entre os poucos que contam com profissionais capacitados para esse tipo de assistência – atualmente, as cirurgias de redesignação de gênero são feitas apenas em nove estados do país. Apesar do avanço, o serviço ainda não foi incorporado oficialmente à rede regular do SUS potiguar e depende, neste primeiro momento, de articulações locais. O enfermeiro sanitarista Lauro Gabriel Bezerra Santos, da Secretaria Estadual de Saúde Pública, lembra que a ausência de ambulatórios e hospitais habilitados ainda é um dos principais obstáculos para a população trans no estado: “Existe barreira no acesso. Muitas vezes a saúde da pessoa trans fica restrita aos espaços especializados”.
📌 Investigação
Ligados às oligarquias ruralistas, o senador Márcio Bittar (PL-AC) e o ex-prefeito de Rio Branco e pré-candidato ao governo do Acre, Sebastião Bocalom (PSDB), têm a agenda ambiental e anti-indígena como arma eleitoral para este ano, como mostra O Varadouro. Bittar levou o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) ao estado para conhecer a “verdadeira Amazônia” e, juntos, disseminaram desinformação e discursos de ódio contra a agenda ambiental. Adentraram até uma aldeia para tentar reforçar seus discursos. Já Bocalom usa a retórica do desenvolvimento de forma agressiva para criar inimigos internos, dizendo que rasgará a Constituição para abrir estradas em terras indígenas e unidades de conservação.
🍂 Meio ambiente
Na noite de quarta-feira, a bancada ruralista passou uma nova “boiada” na Câmara dos Deputados. Os parlamentares aprovaram três projetos que fragilizam a legislação ambiental e dificultam ações como o combate ao desmatamento. A articulação começou nesta terça-feira, dia 19, conhecido como Dia do Agro, e envolveu acordo com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). O #Colabora detalha as três propostas aprovadas. A primeira restringe o uso de satélites no controle do desmatamento ilegal. Na prática, órgãos ambientais não podem embargar áreas com base nessas imagens. O segundo projeto aumenta os poderes do Ministério da Agricultura e Pecuária em vetar regulações ambientais de espécies exploradas economicamente. Já o último muda regras de regularização do Código Florestal a todos os biomas, flexibilizando o entendimento de área rural consolidada para incluir Áreas de Preservação Permanente (APP), Reserva Legal e outras áreas de uso restrito.
📙 Cultura
“Nossa luta não é sempre árdua. Ela pode ser cantada, pode ser dançada e celebrada”, afirma Val Munduruku, integrante do grupo musical Suraras do Tapajós. “Carregamos o Tapajós, que é o nome do nosso rio, com essa grande representatividade do grupo de mulheres indígenas, de falar e denunciar a mineração, as invasões no território. Mas sempre com uma percepção de fazer a luta ser mais leve. Então, a gente se estrutura inicialmente enquanto esse grupo coletivo de mulheres indígenas tocando carimbó.” O Nonada narra como as músicas produzidas por amazônidas, das toadas de boi-bumbá ao rap, celebram o território e alertam sobre os modos de vida ameaçados pela devastação e crise climática. As composições e sonoridades nascidas em comunidades ribeirinhas, urbanas, extrativistas e periféricas retratam a relação com o ambiente e carregam suas identidades.
🎧 Podcast
Fundada entre cursos d’água, São Paulo esconde suas origens no dia a dia, com rios que foram canalizados e várzeas que viraram grandes avenidas. As águas correm por baixo do concreto sem que as pessoas lembrem ou percebam. O córrego Tiquatira, na zona leste, porém, sobreviveu graças à insistência de Hélio da Silva. Ele plantou mais de 40 mil árvores às margens do Tiquatira, transformando no maior parque linear da capital paulista. O “Oásis da Leste”, produção d’O Eco, resgata a história dos rios de São Paulo e do modelo de urbanização da cidade e apresenta o caso Tiquatira como um exemplo de transformação possível e do poder das soluções baseadas na natureza.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
Falar com as plantas é um caminho para melhorar a saúde mental humana. Embora tenha virado senso comum que conversar com elas ajude no crescimento vegetal, a realidade é outra: o feito não está sobre elas, mas sobre a pessoa que conversa. É o que explicam os pesquisadores Marcial Escudero e Katty M. Cavero, em artigo no Conversation Brasil. “Falar com as plantas é uma expressão moderna dessa necessidade intrínseca de nos ligarmos ao nosso ambiente natural e nos ajuda a satisfazer nossas necessidades psicológicas básicas. Por um lado, proporciona-nos um profundo senso de conexão, fazendo-nos sentir ligados de forma segura a um ser vivo. Por outro lado, reforça nossa competência, ao experimentarmos a satisfação de nutrir e fazer prosperar outro organismo.”




