🔸Paulo Figueiredo doou mais de R$ 54 mil a deputada dos Estados Unidos que propôs lei para punir Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O aliado de Eduardo Bolsonaro fez a doação máxima legal para apoiar a campanha à reeleição da republicana Maria Elvira Salazar, em agosto de 2024, algumas semanas antes de ela apresentar uma proposta de lei contra o magistrado. A Agência Pública detalha as transferências feitas por ele em Washington e destaca a pressão do grupo para cancelar vistos de autoridades brasileiras. A deputada alega que Moraes “é a vanguarda de um ataque internacional à liberdade de expressão contra cidadãos americanos como Elon Musk”. Com a reeleição da parlamentar, ela e Eduardo Bolsonaro pediram a reapresentação da lei que barra a entrada de estrangeiros “envolvidos em conduta que teria violado a Primeira Emenda à Constituição”. Em 2025, ela também foi peça fundamental no lobby para que o governo americano sancionasse Moraes pela Lei Magnitsky.
🔸 “O assassinato de mulher é praticado por uma questão de poder. O homem acha que tem o poder de vida e morte contra nós e mata. Ponto”, disse a ministra Cármen Lúcia ao votar a favor da proposta de ampliação da Lei Maria da Penha, aprovada por unanimidade na quarta-feira pelo STF. O Jota explica que as medidas protetivas de urgência agora amparam mulheres agredidas em qualquer contexto, mesmo sem ter vínculo com o agressor, e abrange espaços públicos, profissionais e eleitorais. Policiais e delegados podem conceder a proteção em caráter emergencial. O Notícia Preta lembra que o caso envolveu uma moradora de Formiga (MG) ameaçada por um vizinho que teve a medida protetiva negada porque o Tribunal de Justiça mineiro entendeu que não havia relação afetiva, familiar ou doméstica. Durante o julgamento, o relator, ministro Edson Fachin, enfatizou o caráter estrutural e histórico do tema.
🔸 A propósito: mais de 4,8 mil chamadas são feitas por dia ao Ligue 180, serviço de denúncia e orientação sobre violência contra mulheres. Segundo a CartaCapital, houve mais de um milhão de atendimentos em sete meses, o que representa 95% do total do ano anterior. “Muitas vezes são os filhos já adolescentes que ligam para pedir informação sobre como agir ou para aprender a identificar os tipos de violência”, diz a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Estela Bezerra. Ela também ressalta a complexidade de romper o ciclo de violência: “Não é uma situação como um assalto, mas um episódio que envolve uma pessoa em quem a vítima confia, com quem tem uma relação afetiva. São muitas camadas.”
🔸 A reeleição de 438 deputados federais pode deixar a taxa de renovação da Câmara entre 14,61% e 44,44%. O número expressivo de parlamentares que buscam a recondução ao cargo acirra o pleito. A Revista Cenarium apresenta os dados projetados pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) para a próxima legislatura. São destaques o peso do Centrão na liderança das recandidaturas e o cenário na bancada da Amazônia, onde 70 dos 91 deputados tentam manter suas vagas. O levantamento ressalta as vantagens do mandato e do acesso a emendas. Sobre o Senado, o Diap traça incertezas: “Em 2018, apenas oito dos 32 senadores que buscaram a recondução foram reeleitos. Como serão duas vagas por estado, [este ano] a disputa tende a ser ainda mais competitiva”.
🔸 Em áudio: o escândalo do Banco Master expõe a mistura de interesses de políticos, do mercado e do Judiciário. A fraude bilionária da instituição, liquidada em 2025, ilustra como o setor privado captura a máquina estatal para benefício próprio. O “Durma com Essa”, podcast do Nexo, ouviu especialistas sobre as lições da crise, tão próxima do período eleitoral. Cientista político e professor do Insper, Carlos Melo aponta que as forças políticas devem redefinir as funções de cada um dos Três Poderes: “Que o Legislativo volte a legislar e não a executar o Orçamento. Que o Judiciário volte [...] a defender as leis, em vez de querer fazer leis. E que o Executivo não faça justiça com as próprias mãos”. Já Raquel Pimenta, jurista e professora da Fundação Getúlio Vargas, defende regras de transparência e atuação que alcancem instâncias reguladoras e administrativas. “Para lidar com essas zonas cinzentas de conflito de interesse, a gente precisa olhar para outras instâncias em que essa incidência do setor privado se dá sobre o setor público. Vale dizer: não necessariamente ela é ilegítima, mas claramente a gente sabe que ela não pode se dar em qualquer base”, avalia.
📮 Outras histórias
“Funciona pouco, mas funciona”, diz a recepcionista Laís Ferreira sobre o processo de acesso à cirurgia de redesignação sexual pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O Fala Roça conta que, apesar da transição de gênero, é um direito no país desde 2019, o preconceito e a falta de capacitação de equipes de saúde criam barreiras em clínicas da Rocinha, comunidade da zona sul do Rio de Janeiro. Para Adriana Lemos, enfermeira e professora da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, as especificidades da saúde LGBTQIA+ devem ser de conhecimento das equipes que acolhem pessoas trans. “A capacitação e o letramento sobre isso, numa perspectiva de educação popular, participativa e democrática, seriam a ferramenta [para a solução]”, afirma.
📌 Investigação
Às vésperas de três julgamentos cruciais sobre o projeto de extração de ouro no Pará, a mineradora Belo Sun contratou os advogados Pedro Gonet Branco, filho do procurador-geral da República, e Antonio Augusto Pires Brandão, filho de um ministro do Superior Tribunal de Justiça, revela a Sumaúma. O primeiro processo discute a nulidade da concessão de terras públicas de um assentamento de reforma agrária. Os outros dois, abertos pelo Ministério Público Federal, pedem a transferência do licenciamento ambiental para o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a suspensão da licença de instalação por falta de consultas prévias aos povos indígenas. Para o jurista Conrado Hübner Mendes, professor da Universidade de São Paulo, o objetivo da Belo Sun “é contar com a influência potencial desses filhos sobre a autoridade dos pais e também sobre as redes de juízes e procuradores próximos aos pais”.
🍂 Meio ambiente
“Antes dessa usina nós tínhamos tudo. A usina trouxe só destruição pra nós. Nem pescar a gente consegue mais, nem no rio a gente vai”, conta Terezinha Martins de Carvalho, moradora do assentamento Gleba Mercedes V, em Sinop (MT). O Le Monde Diplomatique Brasil mostra que a entrada em operação comercial da Hidrelétrica de Sinop, no rio Teles Pires, completa sete anos sob protestos e cobranças por indenizações. Controlada pela estatal francesa Électricité de France, a Sinop Energia desmatou 30% da área de 34 mil hectares – o que equivalente a 50 mil campos de futebol – antes de encher o reservatório, criando “paliteiros” de árvores mortas que emitem gases de efeito estufa. Segundo o coordenador do Movimento dos Atingidos por Barragens de Mato Grosso, Jefferson Nascimento, as famílias sofrem violência contínua das empresas e da Justiça. “Quando uma família precisa provar que existe, a reparação vira outro barramento”.
📙 Cultura
A presença de rap, breakdance e grafite nas salas de aula das periferias de São Paulo amplia o repertório de estudantes e promove debates sobre racismo e classe social. O Desenrola e Não Me Enrola ressalta o potencial de transformação da cultura hip hop, que se integra à legislação de educação antirracista do país. Ex-alunos relatam que as vivências da adolescência continuam moldando suas vidas dez anos depois. “Hoje eu percebo o hip hop como uma cultura extremamente forte em termos de transformação social”, afirma Victória Bassan, 29 anos, administradora pública e dançarina. “Se eu não dialogo com o que tá em torno, com as culturas juvenis em torno, como que eu vou atuar dentro de sala de aula?”, questiona a arte-educadora Cristiane Dias. Ela explica que o mapeamento do território pode auxiliar os professores na construção de práticas de ensino que dialoguem com a realidade dos alunos. “As pedagogias hip hop só fazem sentido se também você trouxer a sua experiência de vida.”
🎧 Podcast
O racismo estrutural que impacta gestantes negras que usam o sistema público de saúde afeta também o desenvolvimento na primeira infância e o futuro do bebê, relacionados à qualidade da assistência médica recebida na gestação. O “Papo Preto”, produção da Alma Preta, debate como a discriminação compromete o parto, aumenta as chances de mortalidade materna e prejudica o aleitamento. Enfermeira e professora da Universidade de São Paulo, Marlise de Oliveira Pimentel Lima analisa as disparidades na assistência obstétrica do país e defende políticas públicas mais equitativas para proteger essas famílias. “A violência obstétrica não termina quando o parto acaba. Ela pode permanecer por anos afetando a saúde mental materna e a forma como os vínculos com o bebê são construídos”, destaca.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
“Estávamos interessados naquilo que os indígenas poderiam nos dizer, naquilo que não sabíamos e que a Antropologia ainda não tinha alcançado”, afirma Gilton Mendes dos Santos, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em artigo no The Conversation Brasil. Ao abrir vagas e incentivar pesquisas baseadas em epistemologias indígenas, a universidade lidera a descolonização da área. O professor narra os 15 anos do programa que forma mestres e doutores indígenas e explica que a ação afirmativa supera a busca por “justiça social”. A UFAM inova ao permitir a elaboração de trabalhos em línguas nativas, com defesas conduzidas e avaliadas por doutores indígenas. Entre os temas estudados estão a cosmologia e os rituais de bebidas sagradas, as noções de corpo e a relação “peixe-gente”, as cerimônias tradicionais e a terra-floresta, o uso tradicional das folhas de coca e o poder de transformação da voz e da saliva das mulheres.



