A alta dos feminicídios no país e o projeto da 'Times Square paulistana'
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🔸 A letalidade policial aumentou no Brasil em 2025, na contramão da queda das mortes violentas intencionais – que correspondem à soma de homicídios dolosos, latrocínios, casos de lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial. Segundo o Anuário Brasileiro da Segurança Pública deste ano, divulgado ontem, as polícias mataram 6.602 pessoas em 2025, alta de 5,4% em relação a 2024. Já as mortes violentas intencionais caíram 7,8%. A Ponte detalha os números do relatório e ressalta que houve 47 civis mortos para cada agente de segurança pública assassinado em supostos confrontos em 2025. Na Bahia, essa proporção chegou a 523 para um. Para Leonardo Silva, coordenador temático do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) e autor do capítulo sobre letalidade policial no Anuário, os indicadores estão “muito acima das referências internacionais” e mostram a necessidade de repensar o modelo de segurança pública do país.
🔸 Ainda de acordo com o Anuário, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da série histórica em 2025. Ao todo, 1.571 mulheres foram assassinadas por razões de gênero no país, um aumento de 4,4% em relação ao ano anterior. Com isso, o país bate o recorde pelo quarto ano consecutivo. O Notícia Preta destaca que os dados indicam uma taxa de 1,4 feminicídio para cada 100 mil mulheres, consolidando uma tendência de crescimento desse tipo de violência, mesmo em um cenário de redução dos homicídios em geral. A maioria das vítimas foi morta por companheiros ou ex-companheiros, o que reforça a predominância da violência de gênero no ambiente doméstico. Segundo a Agência Pública, o aumento dos feminicídios foi mais intenso na região Norte, sobretudo no Amapá, em Rondônia e Tocantins, embora São Paulo continue registrando o maior número absoluto de vítimas. As mulheres negras representam 65,1% dos casos, e a faixa etária mais atingida é a de 25 a 29 anos.
🔸 Embora representem cerca de 28% da população brasileira, as mulheres negras ocupam apenas 29 cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado, e tiveram taxa de sucesso eleitoral de 1,5% nas eleições de 2022 – menos da metade da registrada entre mulheres brancas (3,5%) e quase seis vezes inferior à dos homens brancos (8,8%). É o que revela o estudo “Da Marcha ao Bem Viver: uma Década de Avanços, Desafios e Disputas pelos Direitos das Mulheres Negras no Brasil”, realizado pela Gênero e Número, pela Oxfam Brasil e pelo Observatório da Branquitude, em parceria com a Marcha das Mulheres Negras. O trabalho mostra que mudanças nas regras de financiamento eleitoral ampliaram a presença de mulheres negras no Congresso, mas não foram suficientes para romper as estruturas que limitam seu acesso aos espaços de poder. “Para que a violência deixe de ser um lugar comum para mulheres na política, a política precisa se feminilizar. E, para ampliar a presença de mulheres negras, é preciso investimento”, afirma Tainah Pereira, coordenadora política do Mulheres Negras Decidem.
🔸 Os Estados Unidos anunciaram uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação que o país não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. O Metrópoles informa que a medida atinge outros 59 parceiros comerciais e faz parte de uma investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Segundo o governo Donald Trump, a sobretaxa busca pressionar os países a reforçarem o combate ao trabalho forçado em suas cadeias de suprimentos. O Brasil contestou a investigação. Em manifestação enviada ao USTR, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o país possui legislação, mecanismos de fiscalização e acordos internacionais voltados ao combate ao trabalho forçado.
🔸 Na noite de terça-feira, o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, publicou um vídeo – depois apagado – afirmando que as projeções indicavam elevação do rio Taquari acima da cota de alerta, mas sem previsão de inundação. Horas depois, o Vale do Taquari voltou a inundar. O Sul21 conversou com especialistas para entender: por que, mais uma vez, o Estado foi pego de surpresa com a cheia do Taquari e a inundação das cidades do Vale? Fernando Meirelles, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH/UFRGS), explica que a principal fragilidade dos modelos está na previsão meteorológica: “É uma previsão e não uma certeza. Todo modelo tem um grau de incerteza”. Já Fernando Dornelles, também professor do IPH, afirma que chuvas de 60 a 70 milímetros em duas sub-bacias, não previstas pelos modelos, mudaram completamente o comportamento do rio. “Se a chuva tivesse acontecido 50 km para o norte, poderia não ter superado a cota de inundação”, exemplifica.
📮 Outras histórias
“Foi a Rocinha que me fez artista. Minha história começou aqui, na Acadêmicos da Rocinha, e grande parte do nosso elenco também nasceu artisticamente dentro da comunidade. Meu desejo era que os moradores se enxergassem no espetáculo, se sentissem representados, homenageados e emocionados.” A ex-rainha de bateria da Acadêmicos da Rocinha Tati Rosa se refere ao espetáculo “Rocinha: O Mundo Sem Fronteiras”, que estreou na comunidade na zona sul do Rio de Janeiro. O Fala Roça conta que a montagem, idealizada por Jô Martins, busca valorizar artistas locais, fortalecer o turismo cultural e apresentar uma imagem da favela construída por quem vive nela. “Sempre acreditei que a Rocinha produz talentos extraordinários, mas que muitas vezes não recebem o reconhecimento que merecem. Quis criar uma experiência que mostrasse ao mundo a força da nossa cultura”, diz Jô.
📌 Investigação
Um projeto do governo Bolsonaro para identificar jovens atletas teve superfaturamento de R$ 1,3 milhão, segundo auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU). Anunciado com alarde pelo ex-presidente em março de 2022, o programa DNA do Brasil Talentos também teve falhas de planejamento e desperdício de recursos públicos no Tocantins. O Intercept Brasil mostra que a fiscalização encontrou equipamentos comprados por valores acima dos praticados pelo governo federal, materiais que não foram entregues e redes de vôlei, basquete e futebol enviadas a escolas sem quadras esportivas. A CGU também identificou distribuição irregular de materiais entre os municípios e apontou indícios de conluio entre organizações contratadas. O contrato, firmado em 2021 entre o então Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, comandado por Damares Alves, e o Instituto para o Desenvolvimento da Criança e do Adolescente pela Cultura, Esporte e Educação (Idecace), recebeu R$ 7,5 milhões de um total de R$ 19,6 milhões previsto por emenda da bancada do Tocantins.
🍂 Meio ambiente
Brigadas voluntárias e comunitárias da Amazônia já reforçam treinamentos, monitoramento e ações de prevenção para enfrentar o aumento esperado de queimadas com o El Niño na Amazônia. A Carta Amazônia acompanha iniciativas em Rondônia, Pará e Amazonas. Na Terra Indígena Sete de Setembro (RO), o professor Luiz Weymilawa Suruí conta que criou a brigada do povo Paiter Suruí com outros indígenas após incêndios criminosos em 2020 e hoje alia treinamento do Corpo de Bombeiros ao conhecimento ancestral indígena para combater o fogo e promover educação ambiental. O grupo é formado por 20 homens e 20 mulheres. “A participação das mulheres se destacou tanto que atualmente temos uma demanda para formar uma brigada feminina”, conta ele. Já no oeste do Pará, a Brigada de Alter, em Alter do Chão, intensifica a capacitação de voluntários e a atuação em rede com outras oito brigadas comunitárias e indígenas do Baixo Tapajós.
📙 Cultura
Inaugurado neste mês no Cinema São Luiz, em Recife, o Centro de Referência do Audiovisual Pernambucano (Cena) abriu ao público parte do acervo do Museu da Imagem e do Som de Pernambuco (Mispe). São filmes, discos, entrevistas, partituras, cordéis e cartões-postais digitalizados e disponíveis gratuitamente para pesquisa. Em entrevista à Revista O Grito!, a jornalista e pesquisadora Simone Jubert, responsável pela curadoria do espaço, explica que a proposta é ampliar o olhar para além do cinema: “Quando entrei na história, fiquei pensando: ‘Caramba, a gente tem um acervo muito rico, temos entrevistas com Badia, Gilberto Freyre, Bajado, Geninha da Rosa Borges, registro de cerimônia no terreiro de pai Apolinário, um dos babalorixás mais respeitados de Pernambuco e muitas outras; temos cordéis, discos da Rozenblit, partituras musicais originais, não podemos perder a oportunidade de mostrar esse acervo, pois muita gente nem sabe que esses registros existem’”.
🎧 Podcast
A falta de registros oficiais lançou dúvidas sobre a própria existência de mulheres negras que tiveram papel importante na história do Brasil. O episódio “Maria e Luiza”, do “Rádio Novelo Apresenta”, produção da Rádio Novelo, recupera a trajetória de duas delas. A primeira é Maria Felipa, heroína da Independência da Bahia cuja atuação foi preservada pela tradição oral em Itaparica. A segunda história é a de Luiza Mahin, liderança negra ligada às revoltas escravas do século 19 e mãe do abolicionista Luiz Gama. Até então, a principal referência à sua existência era uma carta escrita pelo filho. A descoberta de documentos sobre Maria Felipa levou o pesquisador Bruno Rodrigues de Lima a investigar a família Gama. E ele encontrou informações inéditas sobre Luiza Mahin.
💆🏽♀️ Para ler no fim de semana
A proposta de transformar o cruzamento das avenidas São João e Ipiranga em uma “Times Square paulistana” reacendeu um antigo debate sobre os rumos do Centro de São Paulo e os limites da publicidade na cidade. A revista piauí conta que o projeto, defendido pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pela Prefeitura de São Paulo, prevê a instalação de quatro grandes telões em edifícios da região, financiados pela iniciativa privada, com a promessa de revitalizar o entorno e restaurar imóveis e monumentos históricos. A implantação, porém, está suspensa por decisão da Justiça, que apontou o potencial impacto urbanístico da iniciativa. O principal impasse é a Lei Cidade Limpa, em vigor desde 2006, que restringe a publicidade em fachadas e outdoors. “É um projeto absurdo, nonsense, que privatiza a paisagem para ganhos econômicos dos envolvidos”, afirma a arquiteta e urbanista Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura da USP. “A ideia de Times Square é nos obrigar a transformar a paisagem urbana numa plataforma de marketing.”



