Os alertas falsos da Defesa Civil e os atletas da diáspora na Copa
Uma curadoria do melhor do jornalismo digital, produzido pelas associadas à Ajor. Novos ângulos para assuntos do dia
🔸Os alertas falsos que chegaram a milhões de celulares na madrugada de sábado foram enviados a partir das credenciais de acesso de dois agentes da Defesa Civil do Pará, segundo documentos da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil obtidos pelo Metrópoles. Ao todo, foram registrados dez disparos suspeitos na plataforma nacional de alertas, com mensagens contendo termos como “misantropia”, “misantropo” e até “ataque alienígena”. De acordo com a investigação preliminar, depois dos dois primeiros alertas, a credencial utilizada foi bloqueada, mas outros oito disparos ocorreram usando uma segunda conta vinculada à mesma instituição. O governo federal aponta indícios tanto de uso indevido das credenciais quanto de falhas no controle territorial do sistema, já que usuários autorizados apenas para o Pará conseguiram enviar mensagens para outras regiões do país. Os alertas foram classificados como de nível “Extremo”, o mais grave da plataforma, normalmente reservado para situações que exigem ação imediata da população.
🔸 A Copa do Mundo de 2026 tem número recorde de jogadores da diáspora. São 298 atletas que defendem seleções diferentes do país onde nasceram, o equivalente a 23,1% dos convocados do torneio – um salto em relação aos 137 registrados na Copa de 2022. Apenas oito seleções, entre elas o Brasil, convocaram exclusivamente atletas nascidos em seu próprio território. O Nexo explica que a ampliação desse fenômeno está ligada aos fluxos migratórios globais e às regras da Fifa, que permitem a mudança de seleção em determinadas condições. O caso é mais visível em seleções africanas e caribenhas. Curaçao, estreante em Copas, levou 25 jogadores nascidos na Holanda; a República Democrática do Congo convocou 20 atletas nascidos fora da África; e Marrocos conta com 19 jogadores nascidos no exterior, muitos deles na França e na Espanha. O Haiti também se destaca, com 12 atletas nascidos em território francês.
🔸 O Brasil venceu o Haiti por 3 a 0 na sexta-feira e assumiu a liderança do Grupo C da Copa. A seleção haitiana, aliás, voltou a disputar o Mundial depois de 52 anos. A classificação histórica ocorre em meio ao endurecimento das políticas migratórias dos Estados Unidos. A Agência Pública mostra, em reportagem originalmente publicada no Documented, como a comunidade de Nova York tenta ser ouvida durante a Copa e lembra que, desde janeiro de 2026, haitianos estão impedidos de obter vistos para entrar no país. O governo Donald Trump também revogou proteções migratórias que beneficiavam centenas de milhares de imigrantes haitianos. Na comunidade de Little Haiti, no Brooklyn, organizações comunitárias narram a queda na circulação de pessoas, a interrupção de atividades e o aumento do medo de detenções pelo serviço de imigração. Prisões de haitianos pelo ICE, a polícia de imigração de Trump, cresceram 875% entre 2024 e 2025.
🔸 Depois de 20 meses afastada das competições, Rebeca Andrade voltou ao circuito internacional e conquistou a medalha de ouro no salto do Pan-Americano de ginástica artística, no Rio de Janeiro. A maior medalhista olímpica da história do Brasil venceu a prova com média de 14,266 pontos nos dois saltos. O Amazonas Atual destaca que o resultado marca o primeiro título pan-americano de Rebeca nesse aparelho, apesar de ela já ter sido campeã mundial e medalhista olímpica no salto. Além do ouro individual, a ginasta ajudou o Brasil a conquistar a prata por equipes e garantir vaga no Mundial de Ginástica Artística de Roterdã, que será disputado em outubro.
📮 Outras histórias
Manaus está ficando mais quente e registrando um número crescente de ondas de calor. Já as políticas de adaptação climática avançam de forma lenta. O Vocativo detalha o diagnóstico “Beat the Heat Brasil”, levantamento que ouviu 53 cidades e mostra que 93% dos municípios consideram o calor extremo um risco relevante, mas a maioria ainda está nos estágios iniciais de planejamento para enfrentar o problema. Na capital amazonense, a temperatura média urbana já é 1,74°C superior à da floresta ao redor e pode chegar a diferenças de até 3°C nos dias mais quentes. O fenômeno é explicado pela “ilha de calor urbana”, causada pela substituição de áreas verdes por concreto, asfalto e edificações. A preocupação aumenta diante da possibilidade de formação de um Super El Niño na segunda metade de 2026, fenômeno que pode intensificar secas, incêndios e ondas de calor.
📌 Investigação
A censura escolar ganhou força nos projetos de lei anti-LGBTQIA+ desde o ano passado. Entre 2020 e 2021, a maior parte das propostas se concentrava na proibição da linguagem neutra. Já em 2025 e nos cinco primeiros meses de 2026, o tema mais recorrente passou a ser a restrição de conteúdos sobre diversidade sexual e de gênero no ambiente educacional. Levantamento da Observatória, plataforma da Agência Diadorim, revela a transformação da agenda anti-LGBTQIA+ nas assembleias legislativas estaduais, na Câmara dos Deputados e no Senado. Enquanto a linguagem neutra representou 28 das 52 propostas (53,8%) em 2020, a censura escolar respondeu por 25% dos projetos anti-LGBTQIA+ apresentados em 2025 e por 33,3% das propostas registradas nos primeiros meses deste ano. A análise por casa legislativa mostra que a mudança de foco de parlamentares conservadores foi impulsionada principalmente pelas assembleias legislativas estaduais.
🍂 Meio ambiente
Diante de um conflito fundiário no seringal Novo Andirá, em Boca do Acre (AM), o agricultor Clodomiro Ribeiro de Farias, 79 anos, se acorrentou à grade do prédio da Superintendência do Incra em Rio Branco (AC) para reivindicar, ao lado de dezenas de manifestantes, a regularização de suas terras. O órgão prometeu publicar o Edital de Notificação para Arrecadação de Terras Públicas (Devolutas) da Gleba Seringal Novo Andirá, área de aproximadamente 153 mil hectares na fronteira entre Acre e Amazonas. O Varadouro conta que Clodomiro foi expulso de suas terras a mando do médico e fazendeiro Arnaldo Thomaz Cordeiro Barbosa. Há oito anos, Arnaldo conseguiu um mandado de reintegração de posse e despejou o agricultor. “Tudo que eu tinha tava ali. Eram terras adquiridas do sogro para serem repassadas aos netos”, afirma. O médico é acusado de grilagem e falsificação de documentos para obter a área da União onde dezenas de famílias ocupam há décadas.
📙 Cultura
“Balé Folclórico da Bahia só existe na Bahia e só somos nós. Não tem outro para concorrer, não tem outro igual”, afirma Walter Botelho, o Vavá, diretor e fundador do Balé Folclórico da Bahia, grupo de dança contemporânea e folclórica que se dedica à preservação e difusão das tradições afrobrasileiras. Fundada em 1988, a companhia é reconhecida internacionalmente pela técnica em coreografias que homenageiam o candomblé, a capoeira e o samba de roda e já formou centenas de profissionais. O Nonada mergulha na história do grupo, que mantém uma programação contínua no Teatro Miguel Santana, no Pelourinho, centro histórico de Salvador. “Estar naquele lugar é conviver com memória e resistência. É um lugar de trabalho, troca e reconstrução de uma nova história junto a tantos outros espaços culturais e comerciais que ficam lá. Para sempre guardarei no ‘okan’. Foi minha primeira casa na dança, onde aprendi a ser uma profissional”, diz a bailarina Adna Rodrigues.
🎧 Podcast
Aos 80 anos, o escritor Mario Prata vai lançar em breve o livro “Chico”, que mergulha em sua relação com o cantor e compositor Chico Buarque. “É um livro para mostrar um lado do Chico que ninguém sabe, que é o Chico brincalhão. O Chico é uma das pessoas mais engraçadas que eu conheço”, afirma. Um dos momentos mais importantes de sua carreira foi um marco para o jornalismo cultural: a entrevista que fez, em 1974, com Julinho da Adelaide, compositor inventado por Chico Buarque para driblar a censura da ditadura militar. Sob o pseudônimo, foram lançadas músicas como “Jorge Maravilha” e “Acorda, amor”. O “451 MHz”, produção da Quatro Cinco Um, recebe Prata para revisitar sua trajetória, relembrando episódios da ditadura e décadas de contribuição para a cultura brasileira. Em um episódio bônus, o podcast traz a íntegra da entrevista histórica do escritor com Julinho da Adelaide.
✊🏾 Direitos humanos
Trinta mulheres e meninas foram resgatadas do trabalho análogo à escravidão em sete casas de prostituição nas regiões Norte e Nordeste no primeiro semestre deste ano. O resgate aconteceu durante as fiscalizações, coordenadas pelo Grupo Especial de Fiscalização Móvel, força-tarefa pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Segundo a Repórter Brasil, uma das ações ocorreu em região de avanço da exploração madeireira na Amazônia, marcada pela circulação de caminhoneiros, madeireiros e garimpeiros. As outras, em municípios no interior de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Os auditores-fiscais relataram que as mulheres e adolescentes eram vítimas de servidão por dívida, trabalho forçado, jornadas exaustivas e condições degradantes. Uma das adolescentes resgatadas havia sido vítima de violência sexual familiar e abandono e estava há cerca de cinco meses na casa de prostituição.




